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Na relação com meu marido, a questão financeira é sempre um tabu. O que faço?

Anette Lewin 09/06/2017 COMPORTAMENTO
Na relação com meu marido, a questão financeira é sempre um tabu. O que faço?
Fonte: imagem Pixabay
Tente entender se tudo o que você consome é realmente necessário

por Anette Lewin

Depoimento de uma leitora:

“Minha relação com meu marido está a cada dia insustentável. Somos servidores públicos e ganho bem mais que ele. Quando comecei a trabalhar, ele estava desempregado e passamos por problemas financeiros, pois estávamos construindo uma casa, e isso, com filho pequeno e empregada. Na época, arquei com todas as despesas financeiras, mas isso não me causava nenhum problema, contudo, sempre recorria a empréstimos para poder liquidar algumas despesas. Já há uns dois anos, meu marido sempre descobre alguma armação minha (um novo empréstimo), o que o tira do sério, e em razão disso, temos brigas homéricas. Fato é que, não me sinto à vontade de dividir com ele (e com ninguém), minhas questões financeiras (nos demais assuntos falamos abertamente); a questão financeira é sempre um tabu para mim. Será que estou tão errada assim? Devo compartilhar tudo? Apesar dos meus empréstimos, nunca deixei faltar nada dentro de casa, só não vivo no luxo.”

Resposta: Quando marido e mulher trabalham, a questão da divisão financeira tem que ser negociada com critério, lógica e equilíbrio. No seu caso, pelo fato de você ganhar mais que seu marido, ficou "combinado", no início do relacionamento, que você arcaria com as despesas maiores. Você não se incomodou, ele não se incomodou, até aí, tudo certo. Quer dizer, até aí tudo certo em termos. Porque, na verdade, quem pagou as despesas do casal não foram só você e ele: foram você e ele em sociedade com o banco ao qual você pediu empréstimos. É aí que reside o X da questão.

Parece que o problema não se resume ao seu direito de fazer com o seu dinheiro o que você quiser. Se sua pergunta fosse essa, poderíamos dizer que você tem razão, afinal cada um é responsável pelo que ganha e tem autonomia, dependendo do que foi combinado, sobre seus recursos. O problema maior, na verdade, está nessa "sociedade" de vocês com o banco. O banco entra como um sócio capitalista, que empresta o dinheiro para vocês em troca de juros altos. E a cada novo empréstimo a dívida cresce... provavelmente é isso que está sendo questionado pelo seu marido. E é sobre essa questão que você tem que refletir.  

É claro que você dirá: os juros que eu pago são problema meu, eu que negocio com o banco. Sim, é verdade, mas como as despesas, a casa, as despesas com filho pequeno são do casal, ele, provavelmente, se sente incomodado de você estar devendo tanto e teme que possa chegar algum momento em que você não tenha mais controle sobre suas dívidas. E a família inteira chegue a uma situação em que as despesas principais não possam ser mais pagas. E é sobre essa questão, a questão de controle que devemos refletir agora.

Viver uma vida acima das possibilidades representa um risco. E quando corremos riscos, podemos chegar a uma situação de desespero que nos faça perder totalmente a cumplicidade com nossas crenças morais. Talvez seu marido tenha medo que você chegue a esse ponto.

Afinal, gastar mais do que se pode, sinaliza um comportamento compulsivo. E comportamentos compulsivos podem se tornar vícios. E sabemos que vícios roubam nossa liberdade de agir, de pensar e de sentir. Pode ser que seu marido esteja apenas querendo proteger você para que o vício em gastar não a afaste dele. Pense nisso.

Pontos positivos

É importante também refletir sobre seus pontos positivos. Você parece ser uma pessoa proativa que faz as coisas acontecerem. Seu marido parece ser mais acomodado, menos ambicioso. Certamente, se não fosse seu lado proativo, vocês não teriam as condições de vida que têm hoje. Assim, ponto para você no quesito proatividade. Mas lembre-se que, como funcionários públicos, vocês têm uma grande facilidade em conseguir empréstimos. Afinal, quem empresta sabe que vocês têm emprego garantido. Mas essa facilidade pode se tornar uma armadilha se passar dos limites.

Você diz que vive "apenas" uma vida confortável. Mas o que é confortável? Para quem é confortável? Certamente seu marido não a criticou nem criticaria por pedir empréstimo para construir uma casa. Mas talvez, acha que se endividar para, por exemplo, comprar roupa, ou viajar sem ter dinheiro, não justifica o investimento. Assim, faça uma análise de seus gastos e, pelo bem da família, tente entender se tudo o que você consome é realmente necessário ou você já está sendo engolida pela sua compulsividade.

Tente também fazer um planejamento de seus gastos evitando compras por impulso. Convide seu marido para essa tarefa, principalmente no que diz respeito aos gastos em comum. Mesmo que não seja muito confortável para você, talvez juntos vocês possam descobrir novas formas de usar o dinheiro que ganham de uma maneira que agrade aos dois. Separe uma parte de seus ganhos para você, só para você, de forma que não se sinta tão frustrada por não poder suprir suas vontades pessoais. Afinal, você se esforçou para conquistar esse trabalho público e merece colher os frutos dessa conquista.

Finalmente, mesmo não se podendo negar a importância do dinheiro na estabilidade do casal e da família, evite ficar o tempo todo pensando em gastos. Afinal, as melhores coisas da vida não se pode comprar com dinheiro. Bens materiais vêm e vão. O que fica são os bons momentos que vivemos ao lado das pessoas que queremos bem.

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico e não se caracteriza como sendo um atendimento.

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TAGS :

    dinheiro, casamento, marido, mulher, briga, casal

Anette Lewin

É psicóloga graduada pela PUC/SP. É psicoterapeuta de adultos e adolescentes em consultório particular desde 1975 até a presente data. É coach em saúde mental.



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