DESTAQUES

Consumo de maconha está associado a transtornos psicóticos?

Danilo Baltieri 01/08/2017 SAÚDE E BEM-ESTAR
Consumo de maconha está associado a transtornos psicóticos?
Fonte: imagem Pixabay
O consumo de maconha pode, realmente, ser extremamente prejudicial para alguns usuários

por Danilo Baltieri   

Depoimento de um leitor:

"Fato de que a cannabis poderia causar esquizofrenia é relevante? Já que muitos neurologistas e cientistas afirmam que não existe nenhuma relação. E até porque só aparece alguns sintomas em pessoas que já estão com esquizofrenia, mesmo em pouco grau. Então ela não causaria esquizofrenia, e sim, agiria apenas nos sintomas da esquizofrenia de quem já possui uma predisposição. Mas será que até a mídia se venderia para plantar preconceito àquela que é a mais leve das drogas?"

Resposta: É fato que o consumo de maconha está associado com o surgimento de sintomas psicóticos em alguns usuários, conforme mostram várias pesquisas realizadas em população geral.

Os sintomas ditos psicóticos incluem delírios e alucinações, por exemplo. O início precoce do consumo e a dose consumida da droga são fatores de preocupação nesse relacionamento "uso - sintomas psicóticos". De fato, uma maior concentração de THC (tetra-hidro-canabinol) nos cigarros de maconha aumenta a chance de sintomas ansiosos, depressivos e psicóticos, sempre considerando a susceptibilidade individual.

Muitas pessoas que fazem uso dessa substância referem um sentimento de leve euforia e bem-estar após o uso, sendo uma das razões para a perpetuação do consumo. Em alguns indivíduos, conforme mencionado, o uso frequente tem consequências bastante adversas e pode provocar sintomas chamados psicóticos.

Quando um quadro psicótico ocorre entre usuários de maconha, esses indivíduos podem ser admitidos em unidades de emergência médica, embora geralmente os sintomas psicóticos (audição de vozes, sensação de que estão sendo perseguidos, agitação psicomotora etc) cessem em algumas horas. Em outros indivíduos, um quadro psicótico mais duradouro induzido pelo consumo de maconha pode acontecer e se assemelhar bastante a um quadro de esquizofrenia.

De fato, o consumo de maconha pode produzir sintomas parecidos com quadros esquizofreniformes em indivíduos que já estão em risco para o desenvolvimento da doença esquizofrenia, devido ao fato que esses usuários já teriam prévias alterações cerebrais funcionais ou susceptibilidade genética.

Indivíduos que já sofrem de esquizofrenia e apresentam história pessoal de consumo de maconha ou outras substâncias demonstram um início mais precoce da doença (esquizofrenia) do que aqueles esquizofrênicos que nunca usaram maconha ou outras substâncias. Parece que os indivíduos do primeiro grupo têm menos sintomas negativos (apatia, falta de vontade de desempenhar atividades) e mais sintomas positivos (alucinações, delírios) do que os do segundo grupo.

Outrossim, alguns pesquisadores demonstram que as pessoas que padecem de esquizofrenia, se mantiverem o consumo de maconha, apresentarão um curso mais grave da doença, embora esse pior prognóstico não seja apenas relacionado com o uso da maconha.

Dito isso, o relacionamento "consumo de maconha - esquizofrenia" não pode ser ignorado do ponto de vista clínico e epidemiológico.

Em um estudo Sueco, o risco relativo do surgimento de quadros esquizofrênicos entre usuários de maconha foi 4.1 comparado com não usuários de maconha e de 6.0 para consumidores pesados de maconha. Todavia, outro estudo Australiano demonstrou que apesar do aumento da incidência de usuários de maconha no país, não houve aumento da incidência do diagnóstico de esquizofrenia.

Todavia, os autores do último estudo apontam que, embora não haja uma relação unifatorial e unicausal entre o uso de maconha e a esquizofrenia, o consumo dessa substância pode precipitar quadros psicóticos em pessoas vulneráveis, bem como piorar o curso da doença esquizofrenia. Outro estudo publicado no British Journal of Psychiatry em 2004 (Arseneault L, Cannon M, Witton J, Murray RM. Causal association between cannabis and psychosis: examination of the evidence. Br J Psychiatry 2004;184:110-7) revisou 5 outros estudos que incluíram amostras bem definidas da população, avaliando o consumo de maconha e o posterior surgimento de quadros esquizofrênicos. Os autores concluíram que o uso de maeonha confere um aumento de duas vezes no risco relativo para esquizofrenia. Ainda, os autores sugeriram que a eliminação do consumo de maconha reduziria a incidência da esquizofrenia em cerca de 8%, assumindo, portanto, uma relação de causalidade.

De fato, dados como esses não podem ser desconsiderados. De qualquer forma, deve-se no momento aceitar que o consumo de maconha pode induzir sintomas psicóticos principalmente entre pessoas predispostas ao surgimento de quadros esquizofreniformes. Devemos registrar aqui que a etiologia (causa) da doença conhecida como esquizofrenia é multifatorial, incluindo fatores genéticos. O consumo da maconha, de fato, pode fazer parte da miríade de fatores causais.

Não há como defender o indefensável. O consumo de maconha pode, realmente, ser extremamente prejudicial para alguns usuários, conforme tenho reiteradamente escrito no Vya Estelar. Cabe a cada pessoa avaliar estes dados e procurar auxílio médico.

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracteriza como sendo um atendimento.

Vya Estelar Responde

Vya Estelar quer colocar você, querido leitor, mais perto ainda de nós. Esse profissional irá responder dúvidas enviadas pelos internautas sobre um determinado tema. O psiquiatra Dr. Danilo Baltieri responderá questões ligadas à dependência química e vícios: drogas, álcool, cigarro e psicotrópicos. Os e-mails serão selecionados e editados de acordo com critério editorial do Vya Estelar, já que não será possível responder a todos. Seu nome e e-mail serão preservados.

ENVIAR PERGUNTA



TAGS :

    maconha, esquizofrenia, transtorno, psicótico, THC, cannabis

Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



ENQUETE

Você toparia ter um relacionamento de “amizade com benefícios”? Tratam-se de amigos que se tornam parceiros sexuais sem deixar isso interferir na amizade; o termo vem da expressão 'friends with benefits'.





VOTAR!
Vya Estelar - Qualidade de vida na web - Todos os direitos reservados ®1999 - 2018
O portal Vya Estelar não se responsabiliza pelas informações e opinião de seus colunistas emitidas em artigos assinados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação.