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Exercício físico aumenta plasticidade em pessoas com esquizofrenia, indica estudo

Ricardo Arida 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Ricardo Arida

A esquizofrenia é uma doença psiquiátrica crônica caracterizada por distúrbios do pensamento, com ideias de perseguição e perda das conexões lógicas. Esses pacientes demonstram tipicamente sintomas como pensamentos desorganizados, desilusões, alucinações auditivas e falta de motivação. Essas características clínicas da doença podem estar associadas a uma diminuição da *plasticidade neural ou a mecanismos da organização da função cerebral em resposta a um estímulo ou desafio. A neurogênese (formação de novos neurônios) é um componente da plasticidade cerebral.

Alterações das regiões que provocam neurogênese (neurônios do bulbo olfatório e do hipocampo) na esquizofrenia indicam que uma redução da neurogênese poderia contribuir para a disfunção da plasticidade neural na esquizofrenia (1,2).

Como comentado em textos anteriores, a neurogênese no hipocampo em pessoas saudáveis pode ser estimulada pelo exercício físico. Existe um grande número de informações na literatura mostrando que o exercício provoca um aumento do volume sanguíneo no hipocampo (região relacionada a memória e aprendizagem) em humanos. Estudos em animais também mostram que esse aumento do fluxo sanguíneo induzido pelo exercício físico está associado com aumento da formação de novos neurônios (neurogênese).

Outros estudos mostram que a melhora da condição cardiovascular está associada com maior ativação do córtex cerebral durante tarefas cognitivas (3) (clique aqui leia. Neste sentido, um trabalho recente publicado na revista Archives of General Psychiatry (4) verificou se o volume do hipocampo poderia estar aumentado com o exercício físico em pessoas com esquizofrenia. Ainda, nesse mesmo trabalho foi verificado se as alterações no volume hipocampal induzido pelo exercício poderia também estar associada com a melhora clínica e cognitiva desses pacientes.

Um programa de exercício físico aeróbio (30 minutos em bicicleta ergométrica) foi aplicado em 16 indivíduos com esquizofrenia e oito indivíduos-controle (saudáveis) três vezes por semana durante três meses. Testes neuropsicológicos e de neuroimagem foram realizados antes e depois do tratamento. O volume do hipocampo aumentou em 12% nos indivíduos com esquizofrenia e 16% nos indivíduos saudáveis. Ainda, a melhora nos testes de memória foi correlacionada com as alterações do volume hipocampal.

Os autores do trabalho sugerem que o hipocampo na esquizofrenia retém um grau de plasticidade, pelo menos em resposta a um estímulo específico como um programa de exercício físico. Essa interessante investigação abre novas possibilidades de futuros estudos clínicos para verificar se uma melhora dessas desabilidades relacionadas à esquizofrenia poderia ser alcançada incluindo a atividade física programada no tratamento de pessoas com esquizofrenia. Esses dados surpreendentes são preliminares e mais estudos precisam ser realizados para confirmar os benefícios do exercício em pessoas com essa doença.

*Plasticidade é uma alteração da estrutura e função cerebral frente a um ou vários estímulos

1. Reif A, Fritzen S, Finger M, Strobel A, Lauer M, Schmitt A, Lesch KP. Neural stem cell proliferation is decreased in schizophrenia, but not in depression. Mol
Psychiatry. 2006;11(5):514-522.
2. Arnold SE, Han L-Y, Moberg PJ, Turetsky BI, Gur RE, Trojanowski JQ, Hahn CG. Dysregulation of olfactory receptor neuron lineage in schizophrenia. Arch Gen Psychiatry. 2001;58(9):829-835.
3. Colcombe SJ, Kramer AF, Erickson KI, Scalf P, McAuley E, Cohen NJ, Webb A, Jerome GJ, Marquez DX, Elavsky S. Cardiovascular fitness, cortical plasticity, and aging. Proc Natl Acad Sci U S A. 2004;101(9):3316-3321.
4. Hippocampal plasticity in response to exercise in schizophrenia. Pajonk FG, Wobrock T, Gruber O, Scherk H, Berner D, Kaizl I, Kierer A, Müller S, Oest M, Meyer T, Backens M, Schneider-Axmann T, Thornton AE, Honer WG, Falkai P. Arch Gen Psychiatry. 2010;67(2):133-143.




Ricardo Arida

Possui graduação em Educação Física pela Universidade de São Paulo (1980), mestrado em Medicina (Neurologia) pela Universidade Federal de São Paulo (1995), doutorado em Medicina (Neurologia) pela Universidade Federal de São Paulo (1999) e pós-doutorado pela Universidade de Oxford-UK. Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo. Tem experiência nas áreas de Neurociências e Fisiologia do Exercício Mais informações: www.ricardoarida.wordpress.com



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