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Efeito de misturar energético com álcool pode ser comparado ao de cocaína?

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Danilo Baltieri

Resposta: Bebidas conhecidas como "energéticas", ou "energy drinks", têm altos níveis de cafeína na sua composição, variando de 50 a 500 mg ou mais por lata ou frasco.

A avalanche de vendas dessas bebidas nos últimos anos tem preocupado profissionais da saúde, devido tanto à possibilidade dos efeitos adversos associados com o uso de altas doses de cafeína e alto teor calórico dessas bebidas quanto ao estreito relacionamento entre o uso das "energy drinks" e o consumo de bebidas alcoólicas.

Adultos jovens e estudantes constituem o grupo mais exposto ao consumo de "energy drinks". Também, vários estudos apontam que essa população jovem mostra altas taxas de problemas relacionados com o consumo de bebidas alcoólicas. Mais uma vez essa população tem sido o principal foco de venda das 'bebidas energéticas'.

Assim, não surpreendentemente, estudos americanos recentes sobre o padrão de ingestão de bebidas alcoólicas entre jovens estudantes têm apontado taxas entre 40 e 60% de jovens consumidores de "energy drinks".

Vários mecanismos têm sido aventados para explicar o relacionamento estreito entre o consumo das chamadas 'bebidas energéticas', consumo de bebidas alcoólicas e problemas decorrentes. Por exemplo, o consumo de cafeína antes de dormir, ou em grandes quantidades durante o dia, comumente tem as seguintes consequências sobre o sono:

a) retardo do início;

b) redução da quantidade total;

c) alteração das fases normais do sono;

d) diminuição da qualidade.

Assim, a cafeína pode prolongar os episódios de ingestão de bebidas alcoólicas, uma vez que retarda o início do sono normal e a sensação de cansaço. Também, o excesso de cafeína reduz a sensação subjetiva de "estar alto", sem, no entanto, diminuir os prejuízos cognitivos e motores que o álcool provoca.

Dessa forma, reduzindo a sensação subjetiva de "estar bêbado", as bebidas energéticas podem colaborar no escalonamento progressivo do consumo de álcool. Isso significa que ingerir "energy drinks" propicia um consumo de álcool significativamente maior do que não ingerir as bebidas energéticas.

Essa sensação subjetiva de não estar alto pode de fato comprometer a capacidade de julgamento do bebedor e expô-lo a situações arriscadas dos mais diferentes tipos.

Os consumidores frequentes de "energy drinks" (ou seja, aqueles que consomem pelo menos semanalmente) costumam revelar consumo pesado de álcool (incluindo beber mais nos dias de bebedeira), mais prejuízos associados (como dirigir embriagado), e maior risco de apresentar critérios diagnósticos de dependência de álcool, mesmo após a adequada análise de outros fatores que poderiam confundir essas associações (como por exemplo, dados sociodemográficos, problemas de conduta na infância, história familiar de problemas com álcool e drogas).

Alguns estudos também revelam que aqueles que consomem bebidas alcoólicas misturadas com "energéticos" mais comumente abusam de outras substâncias concomitantemente, e experimentam mais amiúde consequências deletérias do consumo inadequado, devido ao consumo maior de álcool, tais como:

a) Comportar-se de forma sexualmente inadequada;

b) Estar mais vulnerável às investidas sexuais de outros;

c) Estar mais reativo à provocação de terceiros;

d) Negligenciar leis de trânsito.

Pressão de amigos, percepção de que o uso de energéticos com álcool é seguro e que diminui a sensação de estar embriagado; conceitos disfuncionais (como considerar que beber esta combinação é excitante e moderno) são fortes fatores relacionados à perpetuação do uso.

Dessa forma, é possível que indivíduos que consomem bebidas alcoólicas misturadas com "energéticos" acabem por fazer uso mais intenso de álcool e, com isso, apresentem ainda mais consequências negativas do que ocorreria se não fizesse a mistura.

Bebida alcoólica, energético e apagão

Uma das consequências do uso agudo e excessivo de bebidas alcoólicas é o blackout ou apagão. Durante o período de intoxicação alcoólica, o bebedor estará consciente e poderá travar discurso aparentemente normal com terceiros, bem como desempenhar atividades motoras e cognitivas; no entanto, ele não se lembrará do que ocorreu nesse período.

Alguns comportamentos de indivíduos que reportaram blackout após o consumo intenso de bebidas alcoólicas têm sido registrados. O mais comumente relatado é o seguinte: após o consumo de bebidas, o bebedor dirige por longas distâncias, mantém conversações corriqueiras com conhecidos, chega a sua casa e, na manhã seguinte, não se lembra de como chegou, como estacionou o carro, onde está o carro.

O blackout pode ser completo ou parcial (também chamado de fragmentado). O completo é a amnésia total para eventos que aconteceram durante a intoxicação. O fragmentado (ou parcial) ocorre mais frequentemente. Neste último tipo, o bebedor lembra-se de fragmentos do período em que a ingestão de bebidas alcoólicas aconteceu, especialmente se estimulados por terceiros.

Fatores como grande ingestão alcoólica e rápida ingestão são predisponentes para a ocorrência dos blackouts.

Ao contrário de antigas concepções de que o blackout seria uma consequência improvável do consumo pesado de bebidas alcoólicas entre não dependentes, pessoas que façam grande ingestão de bebidas alcoólicas em um período relativamente curto de tempo podem de fato apresentar tal quadro. Por exemplo, alguns estudos realizados com estudantes universitários têm revelado alta prevalência quanto à ocorrência desse quadro. Desta feita, a combinação de bebidas alcoólicas com os energéticos poderia contribuir para o aparecimento deste tipo de problema.

Abaixo, forneço interessante referência sobre o tema:

Varvil-Weld L, Marzell M, Turrisi R, Mallett KA, Cleveland MJ. Examining the relationship between alcohol-energy drink risk profiles and high-risk drinking behaviors. Alcoholism, clinical and experimental research. 2013;37(8):1410-6.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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