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Para sermos felizes, é preciso viajar para dentro de nós

Patricia Gebrim 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
O mundo que a maior parte das pessoas idolatra não passa de uma ilusão

por Patricia Gebrim

Quando eu era adolescente, viajava sempre com meus pais para perto da natureza.

Confesso que naquela época eu nem sempre gostava das programações aventureiras da minha família. Andar com um jipe quase despencando à beira de um penhasco, ter que empurrar o carro que vivia atolando na areia, enfrentar tempestades em alto mar ou ter que levantar no meio da noite para pescar, não eram exatamente as coisas que uma adolescente mais gostaria de fazer.

Isso sem falar no trabalho que dava ajudar na limpeza do barco quando voltávamos. Eu ia de cara amarrada, com aquela mesma expressão azeda e emburrada que vejo hoje em dia no rosto de muitos adolescentes. Mas a gente cresce, um dia olha para trás e vê coisas que não via na época.

Eu cresci. Hoje sinto saudades daquela época, e gratidão. Saudades, pois eu tinha algo muito precioso e que me faz muita falta hoje em dia: tempo. E gratidão, pois mesmo sem querer, aprendi a ser amiga das árvores, dos animais, das estrelas, do mar e até mesmo dos abismos. Fiquei corajosa com essas coisas, sem medo de colocar o pé na lama ou de me perder ao desbravar lugares que não conheço.

Criativa que sou, dei meu toque pessoal à tendência aventureira da minha família e, em vez de exercitar essas habilidades somente no mundo externo como faziam eles, decidi experimentar também fazer isso no mundo que existe dentro de mim. Desde pequena cultivo o hábito de fechar os olhos e tentar ficar sem pensar, curiosa para descobrir o que é que existe lá, naquele lugar silencioso dentro de mim. Assim, mergulhei em cavernas internas e enfrentei os aspectos mais lamacentos de meu próprio Eu. Encontrei coisas assustadoras por lá, acreditem. Sentimentos que eu preferia não possuir. Medo, raiva, ressentimentos, julgamentos... Monstros horríveis com dentes e garras afiadas que não hesitavam em roubar a paz de meu viver. Andei à beira de abismos de crenças e senti na pele o medo de escorregar e me perder de mim mesma. Desafiei meus limites, mergulhei na profundeza sombria de meu oceano interno, e lá encontrei dragões irados e serpentes gigantes que me enchiam de medo, muitos dos quais ainda hoje me assustam vez ou outra.

Por mais asustador que fosse aquilo tudo, eu não desisti. Com o tempo fui percebendo que toda aquela feiura era a parte que mais precisava de mim. Fui paciente e peguei cada monstro no colo, e cantei para eles canções de ninar, e fiz carinho, e os envolvi em um manto de aceitação. Com o passar do tempo parei de ter tanto medo deles, e foi assim que encontrei também (ufa!), no meu íntimo, alguns tesouros, sem os quais eu acharia minha vida a coisa mais chata de todo o Universo. Encontrei inspiração, compaixão e essa vontade grande de me tornar alguém melhor.

Hoje estou plenamente convicta de que não há como sermos verdadeiramente felizes se não fizermos essa viagem para dentro de nós, e isso é algo que quase ninguém fala por aí.

O estímulo está sempre voltado ao mundo externo. Há pacotes e agências de viagens para todos os lugares do mundo. Existem até viagens programadas para a Lua! Mas, acreditem, a nossa sede de vida não pode ser suprida apenas com esse tipo de atividades, por mais beleza e adrenalina que possam fornecer. Precisamos também explorar a vastidão que existe em nosso íntimo, precisamos conhecer os meandros do nosso ser, beber da fonte sagrada que só brota nesse lugar cravado bem no centro do nosso peito. Sem isso, todo o resto está fadado a desaparecer. O mundo que a maior parte das pessoas idolatra não passa de uma ilusão. Existe hoje, amanhã não. Tudo muda. Tudo se desfaz como os castelos de areia que eu adorava construir na beira do mar. Nada contra construir castelos, são divertidos e tornam a vida mais bela, mas precisamos saber que eles não são a coisa real.

A coisa real está o tempo todo guardada em nosso íntimo, adormecida, disponível, plena de uma beleza que nem todas as palavras mais belas poderiam descrever.

A coisa real é esse amor que brota do centro do seu ser e torna tudo, absolutamente tudo, belo. Sem exceção.

Isso é algo que você não pode comprar e que nenhuma agência de viagens pode oferecer a você.




Patricia Gebrim

É Psicóloga Clínica, atua numa abordagem transpessoal. Seu trabalho é direcionado a favorecer o autoconhecimento e a transformação das crenças limitadoras que nos mantêm aprisionados a padrões repetitivos de escolhas. É escritora, publicou 'Gente que mora dentro da gente' e o best-seller 'Palavra de Criança' pela editora Pensamento



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