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Criança leva ao pé-da-letra muito do que ouve

Redação Vya Estelar 01/01/2016 PSICOLOGIA

por Luís César Ebraico

Atendi uma paciente de seus trinta anos que, entre várias queixas, tinha a de sentir câimbras na mão, que estavam se tornando cada vez mais fortes, quando se punha a escrever. Durante a análise, lembrou-se do seguinte episódio, até então de todo esquecido:

Quando Marília - chamemo-la assim - tinha por volta de 4 anos, sua mãe, ao passar pela sala, viu-a sentada no chão, rabiscando alegre e abundantemente a agenda de trabalho do pai. A mãe não lhe bateu. Apenas aproximou-se dela, tirou-lhe a agenda das mãos e profetizou:

MÃE: - Minha filha, seu pai vai te matar!.

Em seguida, voltou para seus afazeres. Marília foi para o seu quarto e agachou-se em um canto. Tinha tomado à letra as palavras da mãe e ali ficou, petrificada, esperando a morte que ocorreria quando seu pai chegasse. Não ocorreu. Continuou esperando no dia seguinte. Não ocorreu. E no dia seguinte e no dia seguinte... Aos poucos deixou de esperar conscientemente o ataque do pai, mas havia-se transformado de uma criança extrovertida e leve em uma criança introvertida e pesada.

A partir do resgate dessa memória - e do de outras experiências de medo que enfrentou - suas câimbras começaram a regredir até desaparecerem de todo, juntamente com outros sintomas - mormente de natureza claustrofóbica - que não analisarei aqui porque, hoje, meu objetivo é apenas ilustrar a extrema concretude que a escuta infantil pode atribuir a palavras que nós, adultos, empregamos em um sentido meramente figurado. Saber disso pode nos fazer evitar, em nossas comunicações com as crianças, determinados tipos de comentário. Exemplifico.

Quando ministrei uma série de palestras sobre Loganálise para o corpo docente de um CIEP situado em uma área extremamente conturbada do Rio, onde pais e mães, tratam seus filhos com extrema rudeza e violência, uma professora relatou seguinte diálogo, mantido com um menino que, no terreno baldio que circunda a escola, ela encontrou ajoelhado, ao lado de um cavalo, segurando uma de suas patas dianteiras, tentando fazê-lo com ela rabiscar o chão:

PROFESSORA: - Que é isso que você está fazendo, menino!

JOÃO: - Estou tentando ensinar este cavalo a escrever.

PROFESSORA: - Meu filho, animal não escreve!

Eu sabia que o menino estava enfrentando dificuldades em seu processo de alfabetização e confesso que não consegui escapar, dada a concretude da escuta infantil a que acabamos de nos referir, à não tão mirabolante hipótese de que, no ambiente inóspito em que vivia, frente a suas dificuldades de aprendizagem, aquela criança já teria ouvido algum comentário como "Você é um animal! Nunca vai aprender nada!" e que tentar "alfabetizar" o cavalo era uma tentativa original, não obstante canhestra, de testar se - ou de provar que - "animais" também aprendem a escrever. Essa minha hipótese pode ser uma grande bobagem e servir apenas como mais uma ilustração da aludida concretude. Mas ainda assim, por via das dúvidas, eu não lhe teria dito o que lhe disse a professora...

Esta coluna se propõe a relatar experiências sobre o poder da palavra em nossas vidas. Aqui serão relatados dezenas de fragmentos de diálogo - reais ou fictícios - segundo os pontos de vista da Loganálise, mostrando onde e como esses diálogos apresentam elementos favoráveis ou desfavoráveis ao estabelecimento de uma comunicação sadia. *A Loganálise é um filhote da Psicanálise: pretende mostrar como o cidadão comum, em seu dia-a-dia, pode tirar proveito de conceitos como repressão, fixação, trauma e outros para promover sua própria saúde psicológica e a daqueles com quem se relaciona.




Redação Vya Estelar



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