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Medo eco-lógico: ter ou não ter?

Roberto Goldkorn 01/01/2016 COMPORTAMENTO

por Roberto Goldkorn

Durante muitos anos guardei num canto semi-iluminado da minha mente as apreensões apocalípticas de uma catástrofe natural global. Na década de 70, cheguei a aprender técnicas de sobrevivência como reaproveitamento de água, conservação de sementes, ou de fontes alternativas de energia como o biodigestor, etc. Me preocupava demais o fato de ter filhos pequenos e se a 'catástrofe' viesse dentro de poucos anos, como eu faria para defender a minha cria? Pensava também em todas as pessoas que trabalhavam em profissões de produção de supérfluo, como cabeleleiros, perfumistas, joalheiros, estilistas, etc... O que fariam essas pessoas (eu incluído) num momento de crise profunda?

É aquela velha história: "Em tempo de pouco fubá meu angu primeiro". O tempo ia passando, e as pessoas continuavam a lavar as suas calçadas inocentemente com água limpa. Continuavam a construir tratores monumentais para arrasar a selva de forma mais eficiente, continuavam a fabricar carvoarias transformando o verde da vida no carvão da morte. O ar, a água dos mares e rios, continuavam a virar uma imensa latrina da nossa irresponsabilidade inocente e criminosa. Continuávamos a produzir bilhões de toneladas de lixo por dia sem a menor preocupação do tipo: para onde será que vai tudo isso?

O meu medo oscilava entre a raiva e a tola pretensão de que talvez, apenas talvez o planetinha tivesse capacidade de assimilar esses golpes sujos e ainda assim permitir que vivêssemos sobre a sua superfície. Afinal, os anos iam passando a catástrofe anunciada pelo loucos arautos ambientalistas não chegava. A nossa voz não se fez ouvir, e em momentos tive até vergonha por termos sido tão alarmistas, afinal domingo ainda dava praia, tinha futebol no Maracanã, os girassóis nasciam e morriam, e os barcos ainda traziam os atuns gigantescos para a mesa do sashimi nosso de cada dia. Mas no fundo sabia que essa toada não ia prestar. Pelo fato de vivermos numa casa aparentemente grande, não nos isenta de cuidarmos dela, e nós não estávamos cuidando minimamente dela, muito pelo contrário. Estávamos cuspindo no prato que comemos literalmente, e se ainda fosse só cuspir...

Meus filhos estão quase criados, mas o que era delírio de um bando de eco-chatos, agora é quase unanimidade dos cientistas.

“Não preciso ser meteorologista para saber em que direção o vento sopra” disse Bob, o Dylan, e ele sopra na direção do desastre. James Lovelock escreveu: "A Vingança de Gaia, mostrando que a mãe Terra vai se “vingar” dos maus tratos que a fizemos passar".

Mas não acredito na vingança dessa mãe generosa, acredito na justiça. Meus medos antigos, mesmo após criados meus filhos voltam a assombrar-me com a força de um tornado. Minha raiva dos dirigentes inconseqüentes que troçaram dos nossos avisos de alerta não tem tamanho, e fica pior quando penso que muitos deles não estarão aqui para pagar a sua parte na conta salgada que ajudaram a construir. Penso constantemente em atitudes radicais para enfrentar e minimizar o que há por vir, mas penso também será que vale a apenas espernear? Não merecemos todos pagar esse preço em sofrimento e miséria?

De imediato respondo a mim mesmo que sim: Que venha aquecimento global e todas as suas hostes infernais, de fome, anomia social, terror, penúria, etc. Mas logo em seguida olho as crianças na rua, tão sem culpa, tão agudamente inocentes e tenho vontade de chorar e gritar. Vejo os namorados namorando como se nada estivesse sendo urdido nos planos infracognoscíveis da alma planetária, e penso, será? Observo as mulheres grávidas fazendo planos para a vida de seus bebês, e sinto um arrepio me percorrer o corpo. Tenho medo. Tenho raiva. Tenho esperança, talvez vã, mas tenho.

Não sou daqueles que dizem que quanto mais conheço o ser humano mais gosto do meu cachorro, eu amo as pessoas, seus espíritos em busca de Luz, mesmo que nem mesmo saibam disso. Por isso resolvo solenemente que não vou deixar o medo me paralisar, nem a raiva me vai empurrar para o time dos apocalípticos. Vamos lutar. Quem sabe podemos convencer Gaia a nos aplicar um castigo de mãe zelosa, apenas umas palmadas no nosso bum-bum? Quem sabe será só um grande susto? E as futuras gerações Conscientes, terão uma relação mais inteligente com esse magnífico ventre azul que as acalenta.




Roberto Goldkorn

É escritor e autor dos seguintes livros: "Feng Shui para Brasileiros - A Medicina da Habitação", "Feng Shui - Energia e Prosperidade no Trabalho", "Feng Shui Para Brasileiros - A Cozinha" - todos pela Editora Campus. "Não Te Devo Nada" e "Solidão Nunca Mais" ambos pela Bertrand Brasil.



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