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Pais de adolescentes precisam de um novo olhar para educá-los

Ceres Alves Araujo 01/01/2016 PSICOLOGIA
É injusto e preconceituoso chamar o adolescente de aborrecente

por Ceres Alves Araujo

A evolução das neurociências, amparada por tecnologias novas, teve grande avanço no início desse século e trouxe mudanças importantes ao modo de se compreender o desenvolvimento humano.

Sabe-se hoje que o cérebro se desenvolve em função das interações que o ser humano estabelece com seus cuidadores desde o início da vida. As redes neuronais se constroem passo a passo com as relações interpessoais. Portanto, o cérebro é dependente do uso, isto é, se estrutura em função das experiências vividas.

Bebês e crianças precisam muito da atenção, do amor e da continência de seus pais, expressos mediante dois tipos de atitudes, igualmente fundamentais.

O primeiro tipo é o "olhar coruja", o olhar e a atitude aprovadora e incentivadora do crescimento.

O segundo tipo de atitude, caracteriza-se pelas interdições e pelos limites. São eles que ensinam às crianças, o tolerar esperas, a aguentar tensões, a regular as emoções, a lidar com as frustrações, a levar os outros em consideração, a saber ceder e a saber se impor, enfim, a se socializar e a se tornar um ser civilizado. Os pais, nessa época da vida da criança, precisam ser respeitados e até idealizados, pois eles são os modelos primários de identidade para o filho. Um ambiente familiar suficiente bom e adequado garante o melhor desenvolvimento neuropsicológico à criança.

O cérebro em construção na época da puberdade sofre mudanças consideráveis. Tais mudanças são manifestadas de forma clara no comportamento do pré-adolescente. Ele perde o padrão de funcionamento anterior, que assegurava um modo de funcionar mais ligado às órbitas das figuras parentais. Começa a surgir um ser novo, mais instável, mais inseguro, irrequieto e ansioso muitas vezes. Seu cérebro está em processo de reorganização; diferentes redes neuronais estão se formando e surgem modos novos de viver as experiências da vida.
Puberdade: mudanças consideráveis no cérebro

Antigamente, acreditava-se que as alterações hormonais justificavam as mudanças de comportamento na pré-adolescência. Adultos preconceituosos chegavam a se referir ao adolescente como "aborrecente", o que é absolutamente injusto, pois, justamente nessa época está o germe da criatividade do ser humano

Na trajetória do desenvolvimento humano, esse é um dos pontos mais constitutivos para a formação da psique (mente). É um grave equívoco não considerá-lo assim. Há tempos, a psicologia ressalta a importância dos primeiros anos de vida, mas é recente a importância dada à pré-adolescência.

Assim, nesse momento do caminho do desenvolvimento, nessa época da puberdade, temos seres desorganizados, desorientados, com dificuldade de expressarem o que querem, o que precisam, com dificuldade de escolha, com perdas na atenção, com alterações no processamento das informações, com falhas na memória de trabalho etc. Eles precisam começar a deixar de ser o filhinho da mamãe e do papai, para buscarem a própria identidade, mas não sabem ainda como fazê-lo. A única forma é por meio das experiências que eles fazem, frequentemente mediante ensaio e erro e muitas vezes atabalhoadas. Mas, são justamente essas experiências, que vão remodelando o cérebro, para criar padrões novos fundamentais para o desenvolvimento.

Pais têm uma função importantíssima nesse processo. Cumpre acompanhar bem de perto o momento pelo qual passam suas "ex-crianças". Cuidado com castigos descontextualizados, com pressões descabidas e com imposição de padrões antigos, disfuncionais para a idade do filho e para a contemporaneidade. É fundamental se criar uma relação dialética, de trocas, mediante diálogos possíveis, acordos criativos que possa garantir segurança a esse filho momentaneamente tão desorganizado e que não sabe disso.

Os pais da criança precisam simbolicamente morrer para nascerem os pais do adolescente. Essa é a hora.




Ceres Alves Araujo

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.



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