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Meu filho disse que quer fumar maconha, porque os amigos já usam. O que faço?

Danilo Baltieri 01/01/2016 PSICOLOGIA
Não perca a oportunidade de conversar com o seu filho

por Danilo Baltieri

"Segundo ele, ainda não fumou e está pedindo para experimentar. Preciso de ajuda."

Resposta: Falar sobre álcool e outras drogas com os filhos deve ser parte do processo educacional e também afetivo.

Vivemos em um universo onde o consumo de substâncias é uma realidade incontestável e está presente em todos os níveis sociais, econômicos, culturais.

Durante o último quarto do século XX, o uso recreativo de maconha espalhou-se ao redor do mundo e tem sido visto por jovens (e por muitos adultos) como uma atividade associada com o lazer. Usuários recreativos de maconha nos finais de semana mais frequentemente manifestam maior atividade noturna e utilizam outras substâncias psicoativas concomitantemente ao de maconha do que os não usuários.

Esses usuários recreativos afirmam, muito comumente, que os principais objetivos do consumo de maconha são a socialização com os amigos, o relaxamento, o aumento da autoconfiança, a diminuição do tédio, a redução da ansiedade e a sensação de bem-estar. Esses usuários recreativos raramente procuram ajuda para cessar o consumo, visto que eles enxergam esse hábito como não prejudicial.

Pessoas que começaram precocemente a consumir maconha e fazem uso de outras substâncias estão em maior risco de manter o consumo da maconha na idade adulta. Consumidores crônicos de maconha mais comumente do que os não usuários registram menores níveis de satisfação com a sua qualidade de vida. Esses usuários crônicos frequentemente percebem a droga como um calmante, uma solução rápida para os problemas e frustrações.

Pesquisas têm trazido dados preocupantes sobre o aumento do uso de substâncias psicoativas entre os adolescentes e reforçam a necessidade de aprofundar a investigação nessa área. Inúmeros estudos apontam que os adolescentes abusadores e dependentes de drogas podem apresentar déficits em habilidades sociais, não conseguindo recusar a oferta de drogas para serem aceitos no seu meio social.

Existem alguns importantes textos publicados e disponíveis para auxiliar pais e educadores nessa tarefa. Aqui, aponto algumas observações que podem auxiliar pais, educadores e outras pessoas a conversar com os jovens sobre essa realidade nada tranquilizadora.

Não tenha medo de conversar com o seu filho sobre o consumo de bebidas alcoólicas e de outras drogas, de forma clara e franca. Sua opinião deve sempre ter valor e ser firme, mesmo que ele mostre algum tipo de desdém. No seu caso, como o seu filho manifestou desejo em falar sobre o assunto, você não pode perder essa oportunidade.

Sempre durante a conversa, certifique-se de que tanto você quanto o seu filho estão sendo ouvidos e têm a chance de externar opiniões. Converse com ele sobre as consequências do consumo de bebidas e outras substâncias na escola, no trabalho, enquanto pratica esportes ou desempenha outras atividades.
Mantenha o vínculo com o seu filho, respeitando a liberdade dele para que ele não ache que você está tentando controlá-lo ou reprimi-lo. Quanto mais próximo do seu filho, menos ele cederá às pressões do grupo.

Você deverá ter alguns fatores ao seu favor, tais como: o bom e adequado relacionamento com o seu filho e confiáveis informações sobre o consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas nessa faixa etária. O conhecimento de boa qualidade associado com a adequada vinculação com o seu filho contribuirão para um melhor desenlace do fato.

É importante saber como está o desempenho do seu filho: na escola, trabalho e demais atividades. Além disso, quais estão sendo os modelos seguidos pelo jovem, quais estão sendo as suas principais dificuldades (relacionamentos, amigos, desempenhos), como estão sendo desenvolvidas as suas expectativas, como o seu pensamento/ideia está sendo organizado.

Existem fatores protetores e de risco para o abuso de substâncias psicoativas. Dentre os fatores protetores estão: o estreito e adequado vínculo com os pais, os próprios hábitos saudáveis dos genitores, o bom desempenho acadêmico do jovem bem como habilidades acadêmicas e sociais adequadas. Dentre os fatores de risco estão: falta de suporte familiar, pobre desempenho acadêmico e falta de expectativas realistas, precoce comportamento impulsivo/agressivo, facilidade no acesso às drogas na própria comunidade ou entre os pares, crenças e comportamentos favoráveis ao uso de maconha tanto dos pares quanto dos pais.

Em qualquer idade, tente dar todo o apoio possível ao seu filho. No entanto, é essencial estabelecer limites quando necessário. Promova atividades em família como, por exemplo, almoçar e jantar juntos, sair, praticar esportes, etc. Qualquer forma de lazer pode aproximar seu filho de você e aprofundar o seu conhecimento quanto aos interesses do menor.

Também, muitas vezes, os pais são o “modelo” dos filhos. Logo, suas palavras e conselhos devem estar condizentes com a sua conduta e atitudes.

Infelizmente, mesmo sabendo dos possíveis efeitos nocivos do álcool e de outras drogas como a maconha, alguns pais acham melhor permitir o consumo ou mesmo “fazer vista grossa” sobre ele. Qualquer que seja a sua decisão, o abuso de álcool e de outras drogas não deve ser tolerado em qualquer circunstância. Isso se aplica a você e ao seu filho.

Nunca é cedo demais para conversar com seus filhos sobre as drogas em geral. Crianças de seis anos já conhecem alguns comportamentos socialmente aceitos quando o assunto é o consumo de substâncias. Portanto, seja firme.

Dicas para estar mais próximo do seu filho

a) Saiba sempre onde está o seu filho, com quem está e como está se comportando;

b) Expresse interesse verdadeiro pelos assuntos que ele considera importante;

c) Dê apoio, mas sempre supervisionando. É possível supervisionar sem parecer ser controlador;

d) Mantenha a autoridade com sensatez;

e) Ouça os argumentos dos filhos e suas dúvidas. Procure entender como ele pensa e enxerga o mundo. Assim, você descobrirá os melhores argumentos para revelar seu ponto de vista.

Para mais informações, ofereço esta interessante referência:

Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA). Como falar sobre uso de álcool com seus filhos. Disponível em: http://www.cisa.org.br/materiais

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Vya Estelar quer colocar você, querido leitor, mais perto ainda de nós. Esse profissional irá responder dúvidas enviadas pelos internautas sobre um determinado tema. O psiquiatra Dr. Danilo Baltieri responderá questões ligadas à dependência química e vícios: drogas, álcool, cigarro e psicotrópicos. Os e-mails serão selecionados e editados de acordo com critério editorial do Vya Estelar, já que não será possível responder a todos. Seu nome e e-mail serão preservados.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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