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O amor sob o prisma das canções ? Parte IV

Regina Wielenska 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Longevidade no amor: desenvolver afinidades, construir metas em comum

por Regina Wielenska

Este é o quarto artigo da série em que abordo os padrões de comportamento na relação amorosa a partir de algumas canções. Para ler o terceiro artigo da série - clique aqui.

Paulinho da Viola e dois componentes do grupo Os Tribalistas compuseram Talismã, uma delícia de ouvir. Para lembrar aos leitores a canção, ofereço sua letra.

Talismã (composição: Paulinho da Viola, Marisa Monte, Arnaldo Antunes)

Eu não preciso de um talismã
Nem penso em meu amanhã
Vou remando com a maré
Eu não preciso de patuá
Nem peço ao meu orixá
Não vou na igreja, não sei rezar
Mas tenho fé
Pois agora quem eu quis
Também me quer
Por muito tempo
Eu batalhei o seu amor
Porém, você me desarmava
E só me dava o seu desdém
Quando me olhava parecia nem me ver
Eu era ninguém
Mas hoje em dia eu posso dizer
"Meu amuleto é meu bem"

Esta música nos apresenta alguém mergulhado em puro êxtase amoroso, condição conquistada às custas de um trabalhoso processo de sedução. Tamanho esforço chegou a bom termo: o casal se formou, e agora experienciam, provavelmente, o encantamento recíproco.

Tomarei a liberdade de supor que a canção represente o relato de um homem, embora mulheres perfeitamente também pudessem passar por situações semelhantes. Que caminho trilhou nosso apaixonado? Segundo entendi, o amor se apropriou do homem quando a fonte de seu desejo sequer atentava para ele. Vou arriscar supor que ao rapaz faltasse carinho, companhia , intimidade, sentir-se valorizado, oportunidades de rir muito, sonhar a dois, talvez até sexo não casual estivesse fora de seu alcance. Interessado nela, ele fez de tudo um pouco para deixar de ser um estranho aos olhos de seu amor.

Primeira etapa vencida, surge outro entrave. Ao tomar ciência de que o sujeito existia, ela passou a desdenhá-lo. Isto só fez aumentar o empenho do rapaz, até que, por fim, ela sucumbiu às graças dele. Sem dúvida, uma empreitada bem-sucedida para ambos. Será que ela o desdenhava “de caso pensado”, e com seu jeito distante dificultava a conquista e incrementava seu valor? Poderia também fazer uso dessa estratégia para deixá-lo ainda mais interessado nela sem notar que o faz. O fato é que o jogo de esconde-esconde deu certo.

É interessante notar o estado de embriaguez amorosa em que ele se encontra agora, ocasião em que o amor tornou-se reciproco e tem nome e endereço, com seu cheiro e textura próprias. O efeito imediato de ser aceito e desejado reciprocamente por alguém é sentir-se especial, abençoado, protegido de todos os males do mundo ao redor. Daí ele dispensar amuletos de toda sorte e depositar todas as fichas nos superpoderes da moça.

Pesquisadores do Transtorno Obsessivo-Compulsivo até estabeleceram paralelos entre o estado no qual só há olhos para o amor e comportamentos obsessivo-compulsivos. Sem tratamento, o TOC pode durar muito tempo. Mas o obsessivo apaixonamento inicial, mais cedo ou mais tarde, finda. Não me refiro ao fim do amor, mas ao fato de que para assegurar a continuidade do relacionamento, com sua vitalidade, será preciso construir vínculos cujas raízes estão em território diferente daquele onde fervilha a empolgação inicial, a paixão desmedida, o despertar da sexualidade entre os dois parceiros. Agora será preciso desenvolver afinidades, construir metas em comum, descobrir motivos para admiração recíproca e, principalmente, ser capaz de lidar com diferenças, frustrações e conflitos. Uma relação consegue sobreviver de verdade a uma doença grave, ao desemprego, à família do parceiro, aos “concorrentes” que continuarão a existir mundo afora?

Vou torcer para que o apaixonado da canção não veja seu amor inicial arrefecer. Caso isso ocorra, tendo a imaginar que o que importou mesmo foi a conquista, a confirmação de valor pessoal, prova de competência e poder. Depois de consumado o amor tipo fogo ardente, apaga-se a chama e o jeito é fazer a fila andar. Uma segunda hipótese é que ao prosseguirem no relacionamento descobriram-se incompatíveis. Se isso tiver jeito, caso eles consigam aparar arestas, está salvo o amor. Do contrário, o jeito é juntar os cacos e partir para a descoberta de um novo talismã, sem esquecer que o futuro de qualquer relação depende muito do empenho de seus protagonistas e de uma pitada da sorte, que colocou frente a frente pessoas com especiais afinidades.

Como disse uma amiga minha, para se conhecer alguém de verdade, só com tempo suficiente para, juntos, comerem um saco de sal. Eu acrescento a disponibilidade e muita generosidade na intrincada fórmula.

Por hoje é só, e na quinzena que vem tertemos o samba do amor em equilíbrio. Será que ele existe?




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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Você toparia ter um relacionamento de “amizade com benefícios”? Tratam-se de amigos que se tornam parceiros sexuais sem deixar isso interferir na amizade; o termo vem da expressão 'friends with benefits'.





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