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A prática clínica na psicanálise

Luiz Alberto Py 01/01/2016 PSICOLOGIA
O fundo da alma humana pode ser assustador

por Luiz Alberto Py

Como venho narrando aqui neste espaço, minha experiência profissional progrediu na medida em que aos poucos, fui desenvolvendo e trabalhando uma visão crítica de todo o arcabouço teórico que me havia sido ensinado. Aprendi muito com meus próprios analistas, que me diziam: “Seja você. Procure o seu jeito de ser, sua forma de trabalhar, procure por onde você é mais produtivo, criativo, procure seu lado bom.” E me dei essa liberdade de investigar em vez de ficar preso a simplesmente repetir o que eu havia até então absorvido. E também me poupei de imitar o meu psicanalista o que era uma moda na época que fiz formação. Bastava conversar meia hora, às vezes dez minutos, com uma pessoa e já se sabia quem era o analista dela. Quase todos eram uma imitação – ridícula, às vezes – do seu próprio analista. Alguns analistas fumavam cachimbo, e diversos analisandos fumavam cachimbo do mesmo jeito que seu analista. E por aí afora...

Ao longo do tempo, percebi que eu estava ficando muito diferente daquilo que tinha aprendido na Sociedade de Psicanálise. Lembro-me de dois incidentes. Um deles, foi o dia que um cliente meu saiu do meu consultório e eu fiquei olhando ele saindo e pensando: “Pôxa! Esta sessão foi legal. A gente viu coisas interessantes, a gente aprendeu coisas sobre ele, mas não tinha nada a ver com a psicanálise que me ensinaram. Eu estou fazendo uma outra coisa aqui.”

E outra vez, foi quando uma cliente minha, que tinha vindo de outro analista, ao final de uma sessão se levantou risonha e disse: “Ah! Eu gosto tanto de vir aqui porque o meu outro analista só ficava falando dos meus defeitos, e eu saia de lá deprimida. E você fala das minhas qualidades, eu saio daqui contente.” Fiquei me perguntando: “Será que isso é bom? Ela está contente, mas será que isso está fazendo bem a ela?” Estava sempre a me interrogar essas coisas e observava para ver se estava fazendo mesmo bem a ela, ou não. E pensava: “Por que eu estou fazendo isso? Por que eu estou seguindo esse caminho? O que quer dizer isso?”

Foi uma época de muita indagação sobre o meu processo, eu fui fazer análise de novo por conta disso, balancei, tive muitas dúvidas.

Psicanálise e medo

Mas sempre me lembrava do que eu tinha ouvido de *Bion, em sua primeira palestra em São Paulo, na primeira vez que ele veio ao Brasil (a reprodução está no livro “Conferências brasileiras - número um”, editado pela Imago). Em determinado momento, ele disse: “Em todo consultório deve haver duas pessoas bastante assustadas; o paciente e seu psicanalista. Se eles não estiverem, ficamos a nos perguntar porque eles estão se importando em descobrir o que todo mundo sabe?” Ele propunha fazer uma sessão de análise pra saber o que a gente ainda não sabe, e não para repetir o que já sabe.” Esta era minha referência; procurar o que eu e o meu cliente ainda não sabíamos.

A meu ver, nós, psicanalistas, estávamos nessa época – e acho que até hoje – investigando um terreno extremamente vasto, obscuro, confuso, e angustiante. Assustador (frightening), como dizia Bion. Você tem duas pessoas com medo dentro do consultório: o analista e o cliente. Devem estar com medo, porque lidam com coisas que não sabem. E coisas assustadoras mesmo: o fundo da alma humana. E o que vem lá de dentro? Nós sabemos que o homem é um animal feroz. Então, o que dois seres ferozes estão fazendo trancados dentro de uma sala? Há um elemento assustador nisso que não se pode ignorar. Só podemos desconsiderar essa questão quando estamos trabalhando muito superficialmente: “Ah, você sonhou com isso? Isso quer dizer aquilo, você está querendo matar o seu pai, matar a sua mãe, ou transar com outro, ou vice-versa.” Não estou desmerecendo Freud, afinal ele inventou minha profissão... E, falando sério, reconheço sua genialidade, a questão edipiana é uma percepção maravilhosa e muito verdadeira. Porém é apenas um pequeno pedaço em relação a todo o conteúdo da alma humana.

Com mais um texto, onde vou falar da outra mudança crucial em minha forma de trabalhar terminarei esta série de artigos que já se alonga por meses. Depois voltarei a insistir no tema que a meu ver é o mais fundamental para o processo psicoterapêutico – a auto-estima.

*Bion: psicanalista britânico
 




Luiz Alberto Py

É médico psiquiatra e psicanalista. Clinica no Rio de Janeiro e faz palestras por todo o Brasil. Publicou em 2002 o best-seller "Olhar acima do horizonte", em 2004: "A felicidade é aqui" e "Saber amar" todos pela editora Rocco. Mais informações: http://doutorpy.blogspot.com



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