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Ilusão compromete realização de propósitos

Redação Vya Estelar 01/01/2016 COMPORTAMENTO
A natureza humana não dá saltos

por Angelina Garcia

As colegas se esbarram por acaso.

- Há quanto tempo, Cidinha! Quase oito anos. Você deve estar cheia de novidades, pode ir contando. Formou-se em História? Ia prestar vestibular quando saí do bairro.
- Que nada, meus dois filhos me tomam todo o tempo.
- Mas o curso de pintura que queria tanto, você fez?
- Quem anda pintando o sete lá em casa é a molecada. Quando eles crescerem mais um pouco, vou fazer minha faculdade e meu curso de pintura. Prometo. Já me vejo historiadora e durmo pensando na minha primeira exposição.

Tânia sorriu, lembrando-se de que esta era a Cidinha, cheia de propósitos, mas nenhum movimento em direção a eles. Encontrava sempre coisas mais urgentes. Caso não houvesse, ela inventava. Parecia, mesmo, que a idéia do desejo realizado fosse suficiente para satisfazê-la. Aí estava o perigo. Não podemos confundir sonho com a ilusão de que há alguma coisa pronta nos esperando.

A ilusão tem muitas caras, entre elas o depois. Podemos passar toda uma vida adiando coisas, acreditando que um dia vamos realizá-las: quando sobrar dinheiro; depois que os filhos crescerem; depois da aposentadoria; depois que terminarmos a casa; depois disto; depois daquilo. E o depois nunca chega, porque ainda não é a hora; porque não temos certeza se vai dar certo; porque queremos nos preparar para que tudo saia perfeito. É importante nos colocarmos atentos para a diferença entre atitudes que dizem respeito ao planejamento de determinada empreitada e aquelas que usamos como artifício para não iniciá-la.

Esperar que algo mágico, além de nós, mude o rumo da nossa história, é outra forma de mantermos a ilusão. É possível, sim, que o inesperado aconteça e nos traga a oportunidade, mas isto não ocorre sempre, nem para todos, portanto é melhor não contarmos com ele. Além disso, coisa alguma vem pronta, a não ser as inconsistentes.

Para o mestre do teatro, Constantin Stanislavski, "a natureza não dá saltos", nem a humana. Quando observamos qualquer obra, seja um delicioso espetáculo; um bom livro; um belo quadro, uma música que nos remexe as entranhas; uma família harmoniosa, na qual um torce pelo prazer do outro; um lindo jardim nos espiando da frente de uma casa, é comum nos esquecermos que houve um laborioso processo atrás de cada uma delas.

Assim é com os nossos projetos, dos mais simples aos mais complexos, inclusive aqueles de reconstrução pessoal. Quanto mais cedo começarmos nosso trabalho, mais tempo teremos para torná-los possíveis. Não custa lembrar o velho ditado: aquilo que não fizermos hoje será o acumulado de amanhã. Também não é possível pularmos etapas, nem tentarmos passar rapidamente por elas, para não senti-las. Estar, de fato, em cada momento da trajetória é o trampolim para o seguinte.

Então, mãos à obra, com o cuidado em não se dispersar pelo caminho. Um pouquinho a cada dia. Em silêncio, se for necessário. De qualquer maneira, no final, haverá alguém disposto a acreditar que demos um salto.




Redação Vya Estelar



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