A capacidade de expressar os próprios sentimentos não nasce pronta — ela se desenvolve ao longo da vida, em camadas, à medida que o cérebro, a linguagem e as relações sociais amadurecem…
A competência de falar sobre aquilo que se sente, inclusive, costuma amadurecer ainda mais tarde.
O bebê sente antes de compreender, e suas emoções são expressas principalmente pelo corpo: choro, riso, agitação. Trata-se de uma linguagem corporal, na qual é fundamental que os pais ou cuidadores nomeiem para a criança aquilo que imaginam que ela esteja expressando. Por exemplo: “o nenê está com fome”, “você está com frio”, “você está com medo”. Ao escutar essas nomeações repetidas vezes, a criança começa gradualmente a associar sensações internas a palavras.
Teoria da mente: habilidade muito importante
Com o desenvolvimento da linguagem, torna-se possível dar nome aos sentimentos e às sensações. Paralelamente, a criança adquire progressivamente aquilo que se chama de “teoria da mente”, isto é, a capacidade de perceber a própria emoção e, também, de intuir o que pode estar se passando na mente do outro. Assim, aprende a dizer que está triste, com raiva, feliz ou com medo, e passa também a reagir às emoções percebidas nas outras pessoas. Em um ambiente familiar seguro e acolhedor, observando os adultos ao seu redor, o filho aprende quando e como expressar suas emoções.
Na adolescência, as emoções costumam tornar-se mais intensas, instáveis e, muitas vezes, confusas. Embora o vocabulário emocional já exista, a regulação das emoções ainda está em desenvolvimento. Por isso, é comum que o adolescente se expresse de forma impulsiva ou, em alguns casos, que se retraia completamente.

Na vida adulta, pode surgir — ou não — o que se convencionou chamar de inteligência emocional. Espera-se que, nessa fase, a pessoa consiga reconhecer o que sente, compreender essas emoções e expressá-las de maneira regulada, por meio de gestos e palavras. Entretanto, esse desenvolvimento depende muito das experiências de vida, do grau de autoconhecimento e da história de relações seguras vividas ao longo do tempo. Mesmo na vida adulta, essa competência pode continuar sendo desenvolvida. Ninguém está “atrasado” — apenas pode não ter tido antes um espaço seguro para aprender.
Assim, as relações familiares desempenham papel central na aquisição da competência de expressar sentimentos, uma vez que a educação emocional acontece, em grande medida, no âmbito da família. Além disso, a cultura na qual a pessoa está inserida influencia significativamente a maneira como as emoções são expressas e compreendidas. Os contextos social e cultural moldam, portanto, a forma como diferentes gerações aprendem a lidar com o mundo emocional.
Revista Parents: conscientização sobre as emoções
Acredita-se que, graças às mudanças nos modos de criação dos filhos, às transformações no ambiente escolar e ao aumento da conscientização sobre saúde mental, as crianças de hoje dispõem de mais linguagem e apoio para falar sobre seus sentimentos. Em fevereiro deste ano, a revista Parents publicou um artigo da escritora Beth Ann Mayer, que tem experiência em temas relacionados à família e à saúde mental e física. Baseando-se em profissionais que atuam na prática educacional e psicoterapêutica com crianças e adolescentes, a autora descreve esse movimento contemporâneo.
Segundo Mayer, há atualmente maior conscientização sobre saúde mental e maior familiaridade com o vocabulário das emoções. As crianças de hoje, portanto, tendem a receber mais apoio para falar sobre o que sentem. Uma parentalidade mais sensível do ponto de vista emocional pode equilibrar empatia com limites claros, ajudando as crianças a desenvolver autorregulação e confiança.
As pessoas nascidas entre 1965 e 1980, que constituem a chamada Geração X, e aquelas nascidas entre 1981 e 1996, conhecidas como Millennials, criaram as gerações seguintes — a Geração Z (1997–2012) e a Geração Alpha (2013 em diante). Muitos desses pais utilizaram suas reflexões pessoais, o acesso a recursos digitais e uma nova literatura sobre parentalidade para transformar a forma como as emoções são abordadas na educação dos filhos, contribuindo para reduzir o estigma em torno da saúde mental.
Nesse contexto, observa-se um estímulo a um estilo de criação mais participativo e atento, que valoriza a compreensão do mundo interno das crianças, e não apenas o controle de seus comportamentos externos. Entretanto, também surgem alguns desafios. Um deles é o risco de que a identidade pessoal passe a ser construída em torno de uma linguagem excessivamente diagnóstica. Nas redes sociais, por exemplo, há uma exposição constante a conteúdos relacionados a sintomas e diagnósticos psicológicos ou psiquiátricos, o que pode influenciar a forma como jovens interpretam suas experiências emocionais.
Medicalização das emoções
Com isso, sentimentos e emoções — que fazem parte da experiência humana normal — passam, às vezes, a ser confundidos com sintomas de doenças psiquiátricas. Observa-se, assim, uma crescente e preocupante banalização psicodiagnóstica na linguagem cotidiana. Experiências emocionais comuns passam a ser descritas como se fossem, necessariamente, sinais de doença mental: tristeza é rapidamente chamada de depressão, a ansiedade diante de desafios cotidianos é confundida com pânico e oscilações normais de humor são interpretadas como transtorno bipolar. Da mesma forma, distrações ocasionais são atribuídas ao TDAH, traços de organização ou perfeccionismo são rotulados como TOC, e o cansaço decorrente de períodos de maior exigência passa a ser denominado burnout. Desse modo, sentimentos e estados emocionais próprios da experiência humana acabam sendo traduzidos em categorias diagnósticas, empobrecendo a compreensão da complexidade da vida psíquica.
Sentimentos, porém, são informações importantes sobre a nossa experiência interna. A consciência das próprias emoções é uma ferramenta fundamental para a adaptação ao mundo interno e externo. Ela não deve ser confundida com sintomatologia psiquiátrica, nem utilizada como rótulo para definir a identidade de uma pessoa.
Assim, aprender a reconhecer, compreender e expressar sentimentos é um processo que se constrói ao longo de toda a vida. Esse desenvolvimento depende da qualidade das relações, da cultura em que se vive e das oportunidades de diálogo emocional que cada pessoa encontra em seu percurso. Se, por um lado, a sociedade contemporânea oferece mais recursos e linguagem para falar sobre emoções, por outro exige-se cuidado para que essa ampliação não resulte em simplificações ou rótulos diagnósticos inadequados.
O desafio atual é encontrar um equilíbrio: promover educação emocional, incentivar o autoconhecimento e o diálogo sobre sentimentos, sem perder de vista a complexidade da experiência humana. Cultivar essa competência — falar sobre o que se sente — é, em última análise, uma forma de promover relações mais conscientes, saudáveis e humanas.
