Mensagens confusas, presença instável e migalhas afetivas podem gerar verdadeira “fissura” emocional. Saiba o motivo e qual o caminho para se libertar desse afeto incerto
Resposta: Podemos comparar situações afetivas intermitentes com jogos de azar. Por que os jogos de azar viciam? Porque a expectativa de ganhar é mais forte e mobilizadora do que o ganhar por si só.
A teoria comportamental demonstra claramente essa tendência através de seus experimentos em laboratório. Ratos foram privados de água e colocados frente a uma barra que liberava água quando eles aprendiam a acioná-la. Quando as gotas eram liberadas de forma intermitente, ou seja, às vezes sim e às vezes não, os animais acionavam a barra muito mais vezes do que quando eram liberadas de forma constante. Eles ficavam praticamente viciados em acionar a barra.
O comportamento de breadcrumbing (literalmente jogar migalhas), em relacionamentos amorosos, funciona da mesma forma. A pessoa envia uma mensagem “animadora”, um elogio ou apenas um “olá” gera expectativa, e some. Depois de algum tempo, aparece novamente, sugere algum encontro, e some. Com essa intermitência ela acaba mantendo o relacionamento aceso, gerando expectativas através de migalhas de afeto. Em outras palavras, acaba viciando quem recebe essas migalhas. O que ela ganha com isso? A sensação de poder, de conseguir ter a atenção do outro sem se entregar, sem se esforçar para construir um relacionamento estável.
Por que as gerações mais novas acabam optando por esse tipo de relacionamento?
Podemos levantar algumas possibilidades. O medo de se comprometer com alguém que pode decepcionar depois é uma delas. A sensação de que não sabe ou não aprendeu a estabelecer relacionamentos mais profundos é outra. Quem não se entrega, nada deve ao outro. Assim, ter várias pessoas com quem conversar, a quem seduzir, por quem se sentir desejado é um ganho sem gasto. Pessoas que agem assim, em geral, são frutos de famílias desorganizadas que, provavelmente, agiam da mesma forma: prometiam e não entregavam. Consequentemente essas pessoas são carentes de um relacionamento saudável no qual possam investir para construir algo sólido.
Amores líquidos não são novidade. O casamento tradicional, para toda a vida, vem sendo questionado há muito tempo. Mas até pouco tempo atrás pessoas casavam e se separavam para construir novos relacionamentos. Hoje a tendência é nem começar; hoje muitas pessoas preferem viver sozinhas sem se acasalar. E conseguem viver bem desse jeito. Mas a ideia de “ter alguém”, afetivamente falando, ainda persiste no inconsciente das pessoas. Afinal, a sedução faz parte do processo de reprodução – que atualmente pode se realizar sem o acasalamento. Mas… vão se os anéis, ficam os dedos. Permanecem carimbadas em nossos cérebros todas as etapas do processo reprodutivo. E o afeto, ou a promessa dele, ainda funciona como chamariz. Assim, em migalhas ou não, um leve sinal de que alguém nos deseja, ainda faz efeito.
É preciso, no entanto, tomar cuidado com o vício nessas migalhas afetivas. A obsessão por elas pode atrapalhar vidas, causar ansiedade e levar à depressão. E nesse sentido é importante o autoconhecimento para que a pessoa entenda quais são seus reais objetivos nesse tipo de troca afetiva. Porque brincar de gato e rato pode ser divertido. Mas desejar que a brincadeira se transforme em algo mais profundo e viver uma eterna frustração… nem tanto.
Atenção!
Esta resposta (texto) não substitui uma consulta ou acompanhamento de uma psicóloga e não se caracteriza como sendo um atendimento.
