Autismo: o excesso de diagnóstico

Dados epidemiológicos apontam ampliação do conceito de espectro autista nas últimas décadas, favorecendo processo de banalização do diagnóstico

A denominação atualmente utilizada para o autismo é Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), uma condição complexa do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, o comportamento e a interação social.

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O TEA é compreendido como um transtorno de base neurobiológica, caracterizado por alterações qualitativas na linguagem, nas interações sociais recíprocas e por padrões restritos e repetitivos de interesses e comportamentos. Entretanto, nas últimas décadas, a compreensão do autismo passou por profundas transformações conceituais e culturais.

Atualmente, os defensores do chamado “paradigma da neurodiversidade” compreendem o autismo não apenas como uma condição clínica, mas como uma variação neurológica que integra a diversidade humana. Essa perspectiva trouxe contribuições importantes ao combate do preconceito e à valorização das singularidades cognitivas. Contudo, também abriu espaço para uma ampliação excessiva do conceito de espectro autista, favorecendo processos de banalização diagnóstica.

Observa-se, atualmente, que comportamentos ou traços de personalidade que não caracterizam necessariamente um quadro de TEA vêm sendo frequentemente interpretados como sinais de autismo. Redes sociais, influenciadores digitais, conteúdos superficiais da internet e, em alguns casos, avaliações clínicas insuficientemente criteriosas contribuem para a disseminação de autodiagnósticos e diagnósticos precipitados. O autismo deixou de ser um diagnóstico eminentemente clínico e relativamente restrito para tornar-se um termo amplamente difundido no imaginário social contemporâneo, muitas vezes utilizado de forma imprecisa ou simplificada.

Real crescimento da incidência do autismo ou de uma expansão excessiva dos critérios diagnósticos?

Os dados epidemiológicos mostram um crescimento expressivo na prevalência do diagnóstico de TEA ao longo das últimas décadas. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, indicou, em 2025, a prevalência de aproximadamente 1 caso para cada 31 crianças. Esse aumento, contudo, suscita importantes debates científicos: estaríamos diante de um real crescimento da incidência do autismo ou de uma expansão excessiva dos critérios diagnósticos?

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A literatura especializada contemporânea tem discutido amplamente essa questão. Autores como Eric Fombonne alertam para o risco de superdiagnóstico, especialmente em casos limítrofes, nos quais dificuldades emocionais, transtornos de ansiedade, déficits atencionais, traços de personalidade, introversão acentuada ou dificuldades adaptativas acabam sendo confundidos com manifestações do espectro autista. Além disso, pesquisadores como Uta Frith e Francesca Happé vêm destacando que a ampliação progressiva do conceito de espectro pode reduzir sua precisão clínica e comprometer sua utilidade diagnóstica.

Muitos comportamentos atípicos não são específicos de TEA  

Um dos pontos centrais dessa discussão é que muitos comportamentos considerados “atípicos” não são específicos do TEA. O comprometimento social, por exemplo, pode ocorrer em diversos transtornos psiquiátricos, emocionais e do neurodesenvolvimento. Entretanto, a natureza qualitativa das dificuldades sociais presentes no autismo é distinta daquela observada em outros quadros clínicos. A simples quantificação de comportamentos incomuns, sem a adequada investigação de sua qualidade fenomenológica e de sua especificidade autística, constitui uma importante fonte de erro diagnóstico.

Outro fator preocupante é a crescente utilização de instrumentos de rastreio sem supervisão clínica adequada. Estratégias difundidas pela internet, baseadas em listas de verificação autopreenchidas, vídeos curtos e conteúdos simplificados sobre “sinais de autismo”, favorecem classificações equivocadas e aumentam significativamente o número de falsos positivos e falsos negativos. O diagnóstico de TEA exige avaliação clínica cuidadosa, análise do desenvolvimento desde a infância, investigação multidisciplinar e compreensão aprofundada do funcionamento psíquico e relacional do indivíduo.

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Deve-se considerar também a influência das políticas públicas e dos contextos institucionais. Em muitos países, inclusive no Brasil, o diagnóstico de TEA possibilita acesso a direitos, benefícios e suporte educacional especializado. Embora tais políticas sejam fundamentais para garantir inclusão e assistência, elas podem, inadvertidamente, estimular diagnósticos apressados ou pouco criteriosos.

Paralelamente, o autismo passou, em determinados contextos culturais, a adquirir certa idealização social. Em alguns grupos, especialmente nas redes sociais, o diagnóstico tornou-se associado a ideias de originalidade, genialidade, sensibilidade diferenciada ou pertencimento identitário. Cria-se, assim, um novo imaginário cultural sobre o autismo, frequentemente distante da realidade clínica de indivíduos com comprometimentos severos, déficits adaptativos importantes e intenso sofrimento psíquico e familiar.

Observa-se atualmente um processo de glamourização do autismo em determinados contextos midiáticos. Em especial nas redes sociais, o TEA passou a ser frequentemente associado a características romantizadas, como inteligência excepcional, criatividade elevada, hiperfoco produtivo, autenticidade emocional ou superioridade moral diante das relações humanas consideradas “superficiais”.

Embora algumas pessoas autistas possam efetivamente apresentar habilidades específicas marcantes, essa representação parcial e idealizada do espectro produz uma imagem distorcida do transtorno, afastando-se das manifestações clínicas mais graves e incapacitantes presentes em muitos casos. O sofrimento relacionado às dificuldades de comunicação, adaptação social, regulação emocional, autonomia e funcionalidade cotidiana tende, muitas vezes, a ser minimizado ou invisibilizado.

Esse fenômeno contribui para que o diagnóstico adquira, em alguns grupos, um valor identitário e até simbólico de pertencimento. Em consequência, características subjetivas inespecíficas — como introversão, timidez, sensibilidade emocional, desconforto social ou sensação de inadequação — passam a ser interpretadas automaticamente como sinais de autismo.

A pesquisadora Uta Frith, pioneira nos estudos sobre autismo, afirmou que o conceito de “espectro autista” corre o risco de perder precisão clínica em função de sua excessiva ampliação. Segundo a autora, a expansão indiscriminada da categoria pode enfraquecer os limites diagnósticos e dificultar a diferenciação entre traços de personalidade, sofrimento psíquico inespecífico e quadros efetivamente pertencentes ao espectro.

Paradoxalmente, enquanto determinados segmentos sociais idealizam o autismo, famílias e indivíduos que convivem com quadros severos continuam enfrentando intenso sofrimento, sobrecarga emocional e limitações importantes na vida diária. Assim, torna-se necessário construir uma visão mais equilibrada e realista do espectro autista, que reconheça tanto a dignidade e singularidade das pessoas autistas quanto a gravidade clínica e funcional que o transtorno pode assumir em muitos casos.

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.