A tênue fronteira entre crise existencial e adoecimento psíquico

Formas naturais de sofrimento ligadas à existência, ao crescimento e às transformações da vida vêm sendo cada vez mais confundidas com adoecimento psíquico

Parece cada vez mais comum, nos dias de hoje, interpretar a infelicidade ou as dificuldades decorrentes da própria vida, e das escolhas feitas, como resultado de um diagnóstico clínico ligado a uma suposta desregulação emocional ou neuroquímica. O que é da ordem do humano passa a ser entendido, rapidamente, como patológico. Assim, normalidade e doença tornam-se fronteiras cada vez mais difusas.

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Formas naturais de sofrimento relacionadas ao crescimento e às transformações da vida vêm sendo confundidas com questões médicas. Misturam-se medicina, cultura e política de tal maneira que se perdem os limites entre saúde e doença. Discriminações e categorizações tornam-se fluidas, dificultando diferenciar o sofrimento psíquico associado a conflitos existenciais do sofrimento mental decorrente de quadros psiquiátricos propriamente ditos.

Medicalização da vida cotidiana  

Isso não significa negar a existência de transtornos mentais reais ou a importância dos tratamentos médicos, mas alertar para um fenômeno crescente: a medicalização da vida cotidiana. Sentimentos como tristeza, frustração, angústia ou incerteza — experiências inerentes à condição humana — passam a ser vistos como sintomas a serem eliminados, em vez de compreendidos e elaborados.

Observa-se, paralelamente, o aumento dos índices de ansiedade na vida pessoal e profissional. Intensifica-se a busca por gratificações imediatas, resultados instantâneos e soluções rápidas. Torna-se mais difícil sustentar a atenção, comprometer-se com projetos de longo prazo e tolerar frustrações. Esse modo de funcionamento afeta relações familiares, sociais e de trabalho.

A sensação de aceleração do tempo na contemporaneidade contribui para essa dinâmica: tudo precisa ser rápido, eficiente e imediato. A ansiedade cresce e, com frequência, a medicação aparece como a primeira — e às vezes única — resposta. Entretanto, nem todo sofrimento pode ou deve ser silenciado quimicamente, pois ele também carrega sentidos importantes sobre a história e os conflitos de cada sujeito.

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Dificuldade de lidar com crises existenciais

Existe um fator cultural relevante subjacente: a dificuldade de lidar com as crises existenciais próprias das diferentes fases da vida. Essas crises são marcos naturais do desenvolvimento humano — da infância à adolescência, da adolescência à vida adulta e desta ao envelhecimento. Cada transição exige reorganizações internas, novos papéis e responsabilidades. Conflitos surgem inevitavelmente, e é justamente o enfrentamento deles que promove amadurecimento emocional.

Lidar com adversidades fortalece os recursos internos de resiliência. Elaborar perdas, aceitar limites e tolerar frustrações são processos fundamentais para o crescimento psicológico. No entanto, desde o início do chamado período pós-moderno, nota-se uma menor tolerância à frustração. Predomina a expectativa de satisfação imediata dos desejos, acompanhada da tendência de responsabilizar o outro ou as circunstâncias pelos próprios impasses.

Consequentemente, muitos têm dificuldade em sustentar conflitos internos, em assumir responsabilidades e em conviver com as angústias inerentes à existência. O sofrimento existencial passa a ser confundido com doença mental, reforçando a busca por soluções rápidas e externas.

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A vida exige escolhas e renúncias

A angústia existencial, contudo, não é necessariamente patológica. Trata-se de um fenômeno constitutivo da condição humana. Ela surge diante das escolhas, da liberdade, da finitude e da incerteza do futuro. É o sentimento que acompanha a percepção de que a vida exige decisões e renúncias, e de que nem todas as possibilidades poderão ser realizadas.

As crises que emergem desse confronto podem trazer solidão, tédio e desamparo, mas também oferecem a oportunidade de maior autoconhecimento, responsabilidade e crescimento pessoal. Paradoxalmente, é na convivência consigo mesmo e na elaboração dessas experiências que o sujeito constrói sentido para a própria vida.

Entretanto, a patologização da angústia tornou-se uma marca do nosso tempo. A tecnologia, embora traga inúmeros benefícios, pode também funcionar como estratégia de evitação do contato consigo mesmo. Redes sociais, relações virtuais, a busca incessante por validação por meio de “likes” e seguidores frequentemente empobrecem os vínculos reais, intensificando sentimentos de isolamento, tédio e vazio.

Somente o envolvimento em projetos significativos e possíveis, bem como a construção de relações autênticas, é capaz de atenuar o sentimento de solidão e dar sentido à existência. Esse tipo de desamparo existencial não se resolve apenas com medicação, mas com reflexão, diálogo, responsabilidade pessoal e investimento na própria trajetória de vida. Reconhecer que sofrer faz parte de viver — e que nem toda dor é doença — talvez seja um passo essencial para resgatar nossa capacidade de enfrentar as crises existenciais com mais maturidade e humanidade.

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.