Adolescentes e adultos têm usado a IA com uma espécie de life advisor, encarando-a de modo personificado, como um amigo conselheiro
Eles acham que podem usar essa ferramenta como um modo de fazer terapia, a respeito de suas questões emocionais — ansiedade, autoestima, crises de identidade e sentido de vida. Perguntam sobre dúvidas de relacionamentos (paquera, namoro, sexo) e até mesmo dicas de como se vestir ou se portar parar ir a um encontro.
Inteligência artificial (IA) é um campo da ciência da computação que desenvolve sistemas capazes de executar tarefas que usualmente requerem inteligência humana, utilizando algoritmos, modelos matemáticos e técnicas de aprendizado. Pode ser compreendida como uma linguagem de mediação entre humanos e máquinas, por meio da qual — dados, comportamentos e intenções — são traduzidos em ações computacionais inteligentes.
Há uma variedade de aplicativos com IA, voltados para saúde mental, que visam autoajuda, terapia baseada em texto, rastreamentos de humor, de padrões de sono, de alimentação, de atividade etc. Utilizam técnicas da Terapia Cognitivo-Comportamental para ajudar seus usuários a enfrentar situações de aumento de estresse, a modificar comportamentos disfuncionais, a treinar habilidades sociais.
Um modelo de linguagem de IA entende e produz linguagem humana, os algoritmos de recomendação conversam com os dados entendendo preferências, propondo escolhas e as redes neurais artificiais aprendem um vocabulário matemático para reconhecer padrões.
IA substitui terapia?
Isso substitui uma psicoterapia? Acredita-se que não, pois a IA não substitui um psicoterapeuta humano. Ela tem limitações importantes, dentre elas pode-se citar: a capacidade para julgamento clínico é muito limitada, uma vez que diagnósticos clínicos psiquiátricos e psicodinâmicos exigem uma compreensão contextual e emocional que a IA não tem; a falta da empatia humana real limita sua eficácia e ainda existem riscos éticos, como erros, perdas de confidencialidade, dependência da tecnologia etc.
Ela pode ser um complemento? Possivelmente sim. Nesse sentido, os Chatbots com IA estão sendo usados para gerenciamento de saúde mental e podem servir para identificar sintomas de quadros psicopatológicos.
Mas, do mesmo modo que se pergunta: o amigo virtual substitui o amigo real? Pode-se perguntar: o psicoterapeuta virtual substitui o psicoterapeuta real?
Sabe-se hoje, que o complexo cérebro-mente do ser humano se desenvolve em função das relações que são estabelecidas com um outro ser da mesma espécie desde o início da vida. As primeiras relações pais-bebês são fundamentais para a organização das redes neurais em função da sintonia estabelecida nas trocas afetivas. Falhas na regulação emocional sempre levam a sintomas psicopatológicos e a psicoterapia passa a ser uma indicação.
Acredita-se que as relações terapêuticas têm a possibilidade de reorganizar as redes neurais em função da sintonia das trocas entre paciente e terapeuta — o que é chamado de transferência e contratransferência. Será que um dia a máquina será capaz de lidar com transferência e contratransferência?
Cumpre lembrar, porém, que o mundo está em constante mudança e a mudança é vertiginosa nos últimos tempos; principalmente graças aos avanços exponenciais da tecnologia. O desenvolvimento das redes neuronais é dependente das experiências de vida da pessoa e em um mundo tão diferente do mundo analógico de antigamente, necessariamente, tem-se cérebros com funcionamento cada vez mais diferentes, por sua vez, mais adaptados às máquinas inteligentes que estão sendo desenvolvidas.
Tudo poderá ser possível.
