Como ter esperança em tempos difíceis

Ter esperança em tempos difíceis nos proporciona um papel construtivo no próprio existir. Não se pode perder o fluir pela vida. Deixe se conduzir, de modo natural e sem esforço, pelos acontecimentos.

O que dá sentido à vida pode descer do céu aos poucos, feito discreta bruma. Nós nos construímos pelos toques que recebemos, cuja textura e temperatura não esquecemos jamais!

Os anos vão se passando e ventos inadvertidos vão batendo na soleira do nosso coração, velhos medos vão embora, novos aparecem. A esperança de uma existência leve e descompromissada como os lírios do campo e as aves do céu parece que escapa mesmo antes que a primavera desvaneça.

Falar de esperança é meu desejo agora…

Filósofos, teólogos e pensadores sobre a interioridade humana têm falado, ao longo dos séculos, sobre o papel importante que este sentimento/postura/papel desempenha em nossa vida.

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Em que consiste a esperança

Falar sobre esperança quase sempre nos remete à virtude que, agregada à fé e ao amor, forma a tríade das virtudes teologais da religião cristã. Isso não aconteceu, por outro lado, com a tradição filosófica. Poucos filósofos gregos escreveram e falaram sobre a esperança, não deram destaque no acervo de suas doutrinas.

Os textos gregos que mais falam sobre a esperança são os textos religiosos, uma vez que a esperança é vista como força que sustenta a caminhada do povo de Deus através dos tempos.

O papel da esperança na existência e em tempos difíceis

A esperança tem um papel construtivo na dinâmica da temporalidade humana, do próprio existir do homem no mundo.

A psicologia da religião está se tornando cada vez mais importante, principalmente, por causa de uma série de estudos empíricos recentes, sugerindo que a crença religiosa pode desempenhar um papel positivo significativo em relação ao bem-estar.

A disciplina explora, tradicionalmente, questões tais como: o modo pelo qual a fé religiosa se desenvolve e amadurece; as maneiras pelas quais podem ser benéficas ou nocivas; as diferentes respostas religiosas associadas a vários tipos de personalidade; e os mecanismos cerebrais subjacentes à experiência religiosa.

Religião e ciência são duas forças culturais significativas e interessantes no mundo de hoje. Um caminho longo e rico eu teria agora a percorrer se a intenção fosse explorar o que esses dois parceiros podem aprender um com o outro e onde divergem.

Muitas pessoas são atraídas a estudar a relação entre ciência e religião porque é uma área interdisciplinar.
Em outras palavras, ela oferece uma visão mais rica e grandiosa do nosso mundo, do que seria possível a qualquer um desses parceiros de diálogo por conta própria.

Nem ciência, nem religião podem oferecer uma descrição total da realidade. No entanto, juntas, podem nos oferecer uma visão estereoscópica da realidade negada àqueles que limitam a perspectiva de apenas uma disciplina.

O filósofo espanhol José Ortega Y Gasset é um dos muitos a argumentar que, para levar uma vida realizada, os seres humanos precisam mais do que a criação parcial da realidade que a ciência oferece.

Precisamos dar um “panorama geral”, uma “ideia integral do universo”. Qualquer filosofia de vida, qualquer maneira de pensar sobre as questões que realmente importam, de acordo com Ortega, acabará indo além da ciência – não porque haja algo de errado com a ciência – mas justamente porque ela é tão focada e específica em seus métodos.

Deixo de lado a guerra que foi estabelecida no século XIX sobre a ciência e religião e opto pela observação de Albert Einstein: “a ciência sem religião é manca, a religião sem ciência é cega”.

A esperança como pulsão de vida

Não se pode perder o flow da vida

Acredito ser possível olhar para a esperança como pulsão de vida (Eros) e para a desesperança como pulsão de morte. Vê-la como uma disposição interior ou mesmo força psíquica que alimenta o desejo de caminhar, de seguir na direção de um objeto que faz diferença a quem o deseja, uma visão que brota, um apelo que convida a caminhar e a ir sempre adiante pelas estradas da vida.

Independentemente do que temos vivido, mais de um ano nos sobressaltos, na angústia das estatísticas, no limite da esperança.

Quem não espera, fecha ativamente as portas para o encontro, pois este só é possível quando existe uma abertura interior para o encontro.

Só vê acontecer aquele que espera, aquele que continua esperando, independente de todas as dificuldades que possam surgir no caminho da procura.

Há um momento em que a razão não alcança a experiência, como espaços e vazios que clamam por companhia no coração.

A ideia do olhar que contempla a transcendência não serve para, simplesmente, acalmar, mas, para inspirar, fruto da recusa de que a vida se esgota em si mesma. A esperança caminha junto com a capacidade de honrar a vida.

Tenho trazido desse tempo, tão cheio de aforismos, um tiquinho do eterno, a inclinação para salmodiar meus dias, o olhar que busca o momento apaziguante das pequenas coisas, e a esperança de que, apesar de tudo, (tudo mesmo!) não se pode perder o “flow” da vida.

Maria do Céu Formiga é psicóloga, escritora Membro da Academia de Letras da Grande São Paulo, (ocupando a cadeira de Mario Quintana) e aquarelista. É pós-graduada em Psicologia Social, Mestre em Ciências da Religião. É consultora autônoma, coordena cursos e workshops. Realiza palestras e trabalhos em simpósios e congressos nos seguintes países: França, Inglaterra, Cuba, Israel, Chile e Estados Unidos. Mais informações: www.mariadoceuformiga.com.br

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