Como tratar da dependência de analgésicos?

por Danilo Baltieri

"Sou médica em Vitória-ES e tenho um primo que está em tratamento há 10 anos para cefaleia, atualmente crônica. Apresenta transtorno de ansiedade e o problema atual é a dependência de analgésicos que não permite o tratamento da cefaleia e nesse ciclo vicioso usa analgésicos, o que fez ele e a sua família perderem completamente a qualidade de vida. Gostaria de uma orientação quanto ao tratamento para a dependência de analgésicos (cefaliv, ergotamina). Estou disposta a levá-lo em outro estado para tratá-lo, pois aqui no ES não há profissionais para o tratamento desse tipo de dependência."

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Resposta: Uso inapropriado de medicações para o tratamento de crises de enxaqueca (e outras cefaleias) pode contribuir de fato para o desenvolvimento de quadros crônicos de cefaleia, muitas vezes refratários aos tratamentos convencionais.

Isso leva o portador a fazer uso abusivo de uma miríade de analgésicos e, inclusive, desenvolver quadro de abuso e síndrome de dependência de alguns tipos de medicamentos.

Crises de enxaqueca afetam entre 11% e 20% da população e são tratadas comumente com medicamentos derivados da ergotamina ou triptanos. O uso abusivo de medicamentos para o tratamento da enxaqueca tem sido frequentemente visto na prática clínica, principalmente envolvendo medicações opioides, derivados da ergotamina e triptanos. Esses quadros de abuso, como mencionado, constituem uma causa secundária para o desenvolvimento de cefaleias crônicas.

O principal fator de risco para o abuso dessas medicações é a recorrência da cefaleia. Logo, alguns autores levantam a hipótese de que quanto menor a meia-vida da droga usada (meia-vida = tempo necessário para que metade da droga seja removida do organismo, fisiologicamente), maior o risco do abuso da mesma.

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As cefaleias relacionadas ao uso abusivo de medicamentos têm sido definidas pelos seguintes critérios:

a) cefaleia está presente por pelo menos 15 dias ao mês;

b) o portador faz uso regular de medicamentos para tratar a cefaleia (mais de 10 dias por mês durante pelo menos 3 meses);

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c) piora ou surgimento da cefaleia durante os episódios de abuso dos medicamentos;

d) reversão ao quadro prévio ao abuso das medicações, dentro de dois meses após a interrupção das medicações.

Esses quadros de abuso de analgésicos para tratar cefaleia compartilham sintomas com aqueles das síndromes de dependência de drogas, como por exemplo:

a) usar o medicamento frequentemente em doses altas e por tempo maior do que o pretendido;

b) evidência de tolerância (necessidade de usar doses cada vez maiores para obter os mesmos efeitos anteriormente conseguidos);

c) sinais de síndrome de “abstinência”. Quando o indivíduo cessa o uso, a dor aumenta, acompanhada por irritabilidade, inquietação, insônia, perda do apetite etc;

d) prejuízo das atividades sociais, laborais, educacionais e de lazer.

Dessa forma, as cefaleias (como a enxaqueca) devem ser adequadamente tratadas por médico neurologista, observando sempre a possibilidade do abuso dos medicamentos e a consequente possibilidade do desenvolvimento de quadros similares ao de uma síndrome de dependência.

Uma vez instalado o quadro de cefaleia relacionado com abuso de medicamentos, o paciente deve ser rigorosamente avaliado por especialistas, suas medicações e padrão de consumo devidamente registrado, e *co-morbidades clínicas e psiquiátricas rigorosamente examinadas. Assim, tendo em mãos essas informações, o especialista poderá traçar uma proposta terapêutica.

Os quadros de dor crônica, acompanhados de abuso ou dependência de medicamentos, frequentemente co-ocorrem com vários outros quadros médicos, como depressão, ansiedade e determinados aspectos de personalidade. Isso significa que o paciente deverá, muitas vezes, receber suporte multiprofissional.

Existem várias propostas terapêuticas para aqueles que padecem de quadros de dor crônica, incluindo as cefaleias relacionadas ao abuso de medicamentos.

Entretanto, devido à heterogeneidade da população, os tratamentos deverão ser adequadamente individualizados, objetivando a interrupção completa das medicações abusadas.

Abaixo, transcrevo referência interessante sobre o tema:

Beau-Salinas F, Jonville-Bera AP, Cissoko H, Bensouda-Grimaldi L, Autret-Leca E. Drug dependence associated with triptans and ergot derivatives: a case/non-case study. European journal of clinical pharmacology, 2010; 66(4):413-7.

* Muitas vezes, além da Síndrome de Dependência, o indivíduo também é portador de outros transtornos psiquiátricos que também precisam ser adequadamente diagnosticados e tratados. A esta combinação de Síndrome de Dependência e outros transtornos psiquiátricos, dá-se o nome de comorbidade.

Professor Livre-Docente pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Professor de Psiquiatria do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC. Pesquisador nas áreas de Dependências Químicas, Transtornos da Sexualidade e Clínica Forense.