Como devemos compreender a experiência de fazer sexo com uma mulher trans? As categorias ‘hetero’ e ‘homo’, baseadas na distinção entre pessoas ‘cis’, ainda são suficientes? A psicologia reconhece e utiliza o conceito de ‘cisgênero’? Integrar essa experiência exige algum alinhamento entre identidade de gênero, corpo e orientação sexual?
Resposta: Essa é uma pergunta muito interessante e cada vez mais presente na prática clínica. Talvez o ponto central seja este: a experiência não começa no sexo, mas no encontro.
Quando a gente tenta encaixar tudo em rótulos, corre o risco de perder o mais importante, que é o significado que aquilo tem para quem vive. Sobre as categorias “hetero” e “homo”, elas ainda fazem sentido para muita gente, mas já não dão conta de tudo. Foram criadas num tempo em que gênero e sexo eram vistos como a mesma coisa, e hoje sabemos que não são. Então, para alguns, estar com uma mulher trans é uma experiência heterossexual, para outros, não cabe tão bem em nenhuma categoria. E tudo bem.
Cisgênero
Já em relação à psicologia, ela reconhece, sim, o conceito de “cisgênero”. Durante muito tempo, a psicologia (e a sociedade em geral) operou com uma ideia implícita: a de que pessoas cuja identidade de gênero coincide com o sexo atribuído no nascimento seriam o “normal”, o “neutro”, o ponto de referência. Quando o conceito de “cisgênero” passa a ser utilizado, algo sutil, mas muito potente, acontece: esse “padrão invisível” ganha nome. Assim, deixamos de comparar alguém com um modelo silencioso e idealizado reconhecendo que todos estamos em algum lugar dentro de um espectro de experiências.
Identidade, corpo e orientação sexual
Quanto ao “alinhamento” entre identidade, corpo e orientação, na teoria parece organizado, mas na vida real o desejo é mais fluido. Nem sempre segue uma lógica perfeita, e isso não é um problema.
Por fim, o que realmente importa é algo mais simples: como a pessoa se sente, como se reconhece naquela experiência, e se há respeito e autenticidade. Se isso está minimamente integrado, o resto fica em segundo plano.
Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de uma psicóloga e não se caracteriza como sendo um atendimento.
