Consequências do aumento do consumo de drogas para voltar a obter o mesmo efeito de antes

por Danilo Baltieri

Depoimento de uma leitora:

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“Eu, de uns tempo para cá, estava usando papel e não estava batendo mais lombra em mim e resolvi então usar bala, mas também não bateu lombra, mais nada.  O que tá acontecendo com o meu corpo? O que devo fazer para a lombra voltar? Ficar um tempo sem usar?”

Resposta: Entre pessoas portadoras de problemas com o consumo de substâncias, como a cocaína, por exemplo, o uso continuado ou crônico pode provocar várias complicações físicas e psiquiátricas de gravidade considerável, como já detalhado algumas vezes aqui no Vya Estelar.

Decorrente do uso continuado das substâncias, o cérebro pode comportar-se de maneiras diferentes: ou reduzir ou aumentar a sua sensibilidade às ações das substâncias psicoativas.

Primeiro caso

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No primeiro caso, com a exposição continuada às substâncias psicoativas, o cérebro pode tornar-se menos sensível aos efeitos reforçadores positivos que conduzem muito amiúde a busca pelas mesmas. Esta redução da resposta cerebral na forma de sintoma reforçador positivo pode ser devida à diminuição da atividade dopaminérgica, ou mesmo à exaustão deste sistema de neurotransmissão,  após o uso recorrente. Além desse efeito, modificações adaptativas corporais na absorção, metabolismo, distribuição ou excreção das substâncias podem afetar os efeitos diretos sobre o cérebro.

Ao mesmo tempo, circuitos cerebrais relacionados ao estresse e sensações desagradáveis como ansiedade podem tornar-se mais evidentes. Esta combinação bombástica impulsiona o usuário a usar maior quantidade da substância, a evitar relacionamentos saudáveis, e a alimentar-se de forma inadequada. Outrossim, o aumento do consumo objetivando a obtenção dos efeitos ditos “positivos”, ou seja, prazer, acaba por afetar incisivamente órgãos vitais, como o próprio cérebro e o coração, dentre várias outras consequências danosas.

Segundo caso

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No segundo caso, ao mesmo tempo que o usuário pode desenvolver a chamada tolerância aos efeitos reforçadores positivos das substâncias, ou seja, a necessidade de doses progressivamente maiores das mesmas para obter os mesmos efeitos anteriores, o cérebro também pode tornar-se mais sensível às substâncias, ou seja, menores doses podem provocar sintomas altamente tóxicos, como convulsões (chamado efeito Kindling).

Os efeitos das substâncias psicoativas, como a cocaína e o ecstasy, sobre o cérebro e demais órgãos vitais são extremamente deletérios. Chama-me a atenção o fato de você não estar procurando auxílio ou orientação para cessar o consumo das mesmas; ao contrário, você está procurando orientação sobre como sentir novamente a lombra (dicionário informal: qualquer efeito produzido pelas drogas, em especial os prazerosos) provocada pelas mesmas.

Orientação

Oriento você a tentar cessar o consumo das mesmas, inclusive aproveitando este momento em que seu cérebro está respondendo de forma diferente ao uso das substâncias. A tendência de várias pessoas que almejam “bater a lombra” é aumentar a quantidade da substância ou mesmo buscar por substâncias ditas de pureza mais crível. Revisite este momento da sua vida e tome uma decisão que possa ser útil para a sua vida presente e futura.

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracteriza como sendo um atendimento.

Professor Livre-Docente pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Professor de Psiquiatria do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC. Pesquisador nas áreas de Dependências Químicas, Transtornos da Sexualidade e Clínica Forense.