Consumo de cocaína e crack na gravidez: consequências para o feto

por Danilo Baltieri

"Cuido de um menino de oito anos. Sua mãe usou crack e acho que cocaína também. O menino promete as coisas, mas esquece que prometeu; não guarda nada na memória; não sabe ler e escrever. Isso tem a ver com o uso de drogas na gestação dessa criança ? A mãe não quer saber dele e nem a avó. Ele sente muitas saudades delas, ele é muito agitado. Diga-me o que devo fazer?"

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Resposta: Existem várias evidências científicas que revelam os malefícios provocados pelo consumo de cocaína/crack pela mãe sobre os filhos, seja durante a gestação ou após o parto. Seguramente, as mães que fazem uso de cocaína/crack deveriam ser tratadas com a máxima rapidez e efetividade possível, evitando consequências negativas para si mesmas e terceiros.

As taxas de consumo de cocaína/crack entre gestantes têm variado entre 2 e 10%, dependendo das amostras investigadas. Prejuízos sobre o crescimento, ganho ponderal (ganho de peso) e funções cognitivas (atenção, memória, concentração, inteligência) têm sido reportados em diferentes estudos.

Crianças que convivem com mães usuárias de cocaína/crack constituem um grupo de alto risco para futuramente tornarem-se também usuárias de substâncias. Essas famílias frequentemente vivem em lares estressantes, recheados de fatores negativamente relacionados com a formação e desenvolvimento de vínculos saudáveis.

Mulheres dependentes de crack frequentemente engajam-se em comportamentos de alto risco, expondo seus filhos a situações também ameaçadoras, vexatórias e permeadas por privações afetivas e econômicas. É importante ressaltar que mães usuárias de crack comumente padecem de outros transtornos mentais e de comportamento, como depressão, ansiedade e aqueles relacionados com o controle dos impulsos. Combinados os transtornos, os filhos estão expostos a um ambiente, a uma situação e a "cuidadores" que precisam receber intervenção rápida, eficaz e adequada.

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O consumo de cocaína/crack pelas genitoras também traz um leque de diversos outros problemas que afeta seus filhos negativamente: situações de abusos, negligência, abandono físico, intelectual e emocional.

Estudos têm mostrado que filhos de mães com problemas relacionados ao uso de cocaína/crack estão em maior risco, quando comparados a filhos de mães saudáveis, de apresentar diversos problemas de comportamento, incluindo depressão, ansiedade e hiperatividade. Os cuidadores devem promover um ambiente o menos lesivo possível para tentar driblar estes problemas.

De uma forma geral, filhos de pais dependentes químicos, quando comparados aos filhos de pais saudáveis apresentam:

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a) maior risco de abusar de substâncias psicoativas, devido aos componentes genéticos e ambientais;
b) início mais precoce de problemas com o consumo de substâncias psicoativas;
c) maior chance de sofrer abuso físico;
d) maior chance de abandono;
e) além do maior risco de sintomas depressivos e ansiosos, filhos de pais dependentes demonstram maior risco de experimentar sintomas de hiperatividade e de comportamentos desafiadores.

De qualquer forma, essas crianças devem ter o apoio de adultos interessados, atentos, pacientes e empáticos. Se essas crianças demonstrarem comportamentos inadequados, o auxílio de profissional especializado em psicologia e psiquiatria da infância e adolescência se faz amplamente necessário.

Estudos têm de fato mostrado que crianças que recebem permanente suporte de adultos cuidadores apresentam:

a) melhora das habilidades sociais;
b) melhora da autoestima;
c) melhor habilidade para estabelecer e manter relacionamentos saudáveis;
d) melhor capacidade para expressar sentimentos e lidar com situações desfavoráveis.

Situações como essa são extremamente desafiadoras. É importante que você tenha apoio de outras pessoas interessadas de fato em ajudá-los.

Professor Livre-Docente pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Professor de Psiquiatria do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC. Pesquisador nas áreas de Dependências Químicas, Transtornos da Sexualidade e Clínica Forense.