Entrevista: saúde mental além do psiquismo

A dificuldade de existir: por que nem todo sofrimento se resolve com força de vontade

Nesta entrevista ao Vya Estelar, o filósofo Celso Cristiano, autor de Entre ideias e terapias (2025), aborda a saúde mental para além do psiquismo — como a própria dificuldade de simplesmente existir em um mundo que exige desempenho constante e elevado.

Continua após publicidade

Dentro desse caldeirão chamado saúde mental, ele reúne ingredientes que alimentam o sofrimento: a luta pela sobrevivência, a ansiedade, a depressão e as crenças limitantes — que muitas vezes se transformam em culpa.

Celso explica por que nem todo sofrimento psíquico se resolve com força de vontade e revela qual é o aspecto mais íntimo da saúde mental — e até onde uma terapia pode, de fato, garantir transformação.

Juliana Vannucchi Por que é importante falarmos sobre saúde mental?

Celso Cristiano – Falar sobre saúde mental no Brasil é, antes de tudo, um ato de responsabilidade ética e social. Vivemos num país marcado por desigualdades históricas, insegurança econômica, jornadas exaustivas de trabalho, violência estrutural e instabilidade política. Muitas pessoas acordam e dormem sob o peso da sobrevivência. Nesse contexto, sofrimento psíquico não é fraqueza individual, é também resposta a condições precárias de vida.

Continua após publicidade

É importante falarmos de saúde mental porque o silêncio não orienta e ajuda no adoecimento. Quando não nomeamos a ansiedade, o esgotamento, a depressão ou o desamparo, eles se transformam em culpa. E a culpa isola. Ao conversar sobre saúde mental, deslocamos a ideia de que “não estou dando conta” para uma pergunta mais justa: “o que está acontecendo comigo e ao meu redor?”

Falar sobre isso também é reconhecer que nem todo sofrimento se resolve com força de vontade. Há determinantes sociais; desemprego, racismo, desigualdade de gênero, precarização do trabalho, que atravessam o psiquismo. Cuidar da saúde mental, portanto, não é apenas fazer terapia; é também defender políticas públicas, acesso a cuidado digno e condições de vida mais humanas.

Aspecto íntimo da saúde mental  

Mas há ainda um aspecto íntimo: quando falamos sobre saúde mental, autorizamos uns aos outros a sentir. Humanizamos nossas fragilidades. Criamos redes de apoio. Diminuímos o estigma.

Continua após publicidade

Num país onde tanta gente precisa ser forte o tempo todo, falar de saúde mental é permitir-se ser humano. E ser humano, apesar de tudo, ainda é um gesto de resistência.

Juliana Vannucchi – Geralmente, quais são os principais fatores que influenciam a saúde mental e afetam o bem-estar de uma pessoa?

Celso Cristiano – Vínculos afetivos são pilares do equilíbrio emocional. Relações seguras, apoio familiar e amizades saudáveis funcionam como fatores de proteção.

Por outro lado, ambientes marcados por conflitos, abusos, negligência ou solidão prolongada fragilizam a possibilidade de mantermos relativo equilíbrio.

Juliana Vannucchi – Qual é o momento certo para uma pessoa buscar ajuda profissional?

Celso Cristiano – Não existe um “momento perfeito” ou um ponto exato e universal. Mas há sinais internos que indicam que a ajuda profissional pode ser necessária, e quanto antes reconhecidos / validados, melhor.

Juliana Vannucchi – De um modo geral, quais são os principais benefícios que a terapia pode garantir?

Celso Cristiano – De modo geral, a terapia não “garante” uma vida sem dor, mas oferece ferramentas para que a dor não nos paralise. Ela amplia a consciência, fortalece recursos internos e cria um espaço seguro onde a pessoa pode existir sem negligenciar as próprias questões. Além disso, a terapia também ajuda a identificar padrões de comportamento, crenças limitantes e repetições emocionais. Muitas vezes sofremos não apenas pelo que acontece, mas pelo modo automático como reagimos. Aprender a reconhecer, nomear e manejar emoções como ansiedade, raiva, culpa ou tristeza diminui a sensação de descontrole e aumenta a estabilidade interna. Talvez um dos maiores benefícios: a pessoa aprende a fazer escolhas mais conscientes, alinhadas com seus valores, e não apenas movidas por medo ou pelas expectativas alheias.

Juliana Vannucchi – Por que você acha que atualmente há tantas pessoas com crises de ansiedade e estresse? Ou será que sempre houve; mas apenas não era costume conversar muito a respeito de tais assuntos?

Celso Cristiano – Sempre houve sofrimento psíquico. Ansiedade, angústia e estados de tensão acompanham a humanidade há séculos. O que mudou foi a forma como nomeamos, entendemos e falamos sobre isso. Hoje temos mais linguagem, mais diagnósticos, mais acesso à informação. O silêncio que antes encobria o sofrimento já foi bastante rompido, assim como os estigmas sobre o assunto.

Juliana Vannucchi – Gostaria que você nos contasse um pouco sobre o seu livro, “Entre Ideias e Terapias”, lançado em meados do ano passado. Sei que o livro tem sido um sucesso e atraído muitos leitores! Qual é abordagem central dele e por que você acha que as pessoas devem lê-lo? 

Celso Cristiano – O livro Entre ideias e terapias nasceu de um processo muito bonito (que ainda acontece):  de muita escuta e também de ser escutado, das práticas de atendimento e das partilhas que colhi ao longo da vida. Muito do livro é parte de boas conversas, boas risadas e boas reflexões sobre o cotidiano. Recebo bons retornos de leitores leigos e também de profissionais de saúde mental e isso tem sido muito gratificante. Sempre acreditei que se você tem uma coisa boa pra dizer sempre haverá alguém precisando ouvir e o livro é essa voz.

Juliana Vannucchi Para encerrarmos a nossa conversa, gostaria que dissesse como podemos adquirir um exemplar do seu livro.

Celso Cristiano – O livro está disponível na Amazon em formato físico e e-book, na Estante Virtual ou pode ser adquirido diretamente comigo através das minhas redes @ocelsocristiano.

Celso Cristiano é licenciado em Filosofia pela UNISO – Universidade de Sorocaba, graduado em História pela UNIFRANCA e pós-graduado em Terapia Familiar e Psicanálise pela UNYLEYA. É integrante do Instituto Fundamente e facilitador da Oficina Escrita. Em meados de 2025, Celso lançou seu primeiro livro, intitulado Entre ideias e terapias, um trabalho elogiável que tem recebido uma atenção cada vez maior por parte de profissionais da área da saúde mental e também do público geral.

Juliana Vannucchi é licenciada em Filosofia e atualmente é professora, palestrante. É editora-chefe do Acervo Filosófico. Graduada em Comunicação Social e pós-graduanda na área da Educação.