Gritar por que ‘ama’: amor e raiva ocupam o mesmo lugar   

Por que há mulheres que aprenderam a confiar em homens que a machucam?

Você conhece um poema da Rupi Kaur que traz frases duras, mas necessárias?
O poema diz assim:

“Toda vez que você
Diz à sua filha
Que você grita com ela
Porque a ama
Você a ensina a confundir
Raiva com bondade
O que parece uma boa ideia
Até que ela cresce
E passa a confiar em homens
que a machucam
Porque eles se parecem
Demais com você.”

Quando um adulto diz a uma filha que grita com ela “porque a ama”, algo muito profundo é ensinado ali. A criança aprende, sem perceber, que amor e raiva podem ocupar o mesmo lugar. Que ser cuidada pode doer. Que afeto pode vir acompanhado de medo, tensão e humilhação. Esse aprendizado não acontece nas palavras, mas na experiência social emocional diária.

Ao crescer nesse ambiente, a criança começa a organizar sua visão de mundo a partir dessas vivências. Ela não pensa conscientemente “amor machuca”, mas sente isso no corpo, no cérebro e no coração. Aprende que precisa suportar para ser amada, que seus limites não são tão importantes e que o outro tem permissão para ultrapassá-los. Essas marcas emocionais se tornam referências internas sobre o que é um relacionamento.

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Mulheres que confiam em homens que a machucam

Com o tempo, isso aparece na vida adulta. O poema diz: “O que parece uma boa ideia até que ela cresce e passa a confiar em homens que a machucam”. Não porque a pessoa queira sofrer, mas porque aquilo lhe soa familiar. O cérebro reconhece como “normal” o que foi aprendido cedo. Relações saudáveis podem até parecer estranhas, enquanto vínculos dolorosos despertam uma sensação conhecida, quase confortável, mesmo sendo destrutiva.

Esse padrão não nasce do nada. Ele faz parte de uma história familiar. Muitas vezes, quem machuca também foi machucado. Quem grita, um dia aprendeu que gritar era uma forma de amar. Assim, comportamentos atravessam gerações sem que ninguém perceba, repetindo-se como um roteiro invisível dentro das famílias.

Romper esse ciclo começa quando alguém decide olhar para isso com honestidade. Amor não precisa gritar. Cuidado não precisa ferir. Educar não é humilhar. Quando um adulto reconhece suas próprias feridas e aprende novas formas de se relacionar, ele não transforma apenas a própria história, ele muda o significado do amor para quem vem depois.

Que possamos refletir e mudar as nossas próprias histórias. E que venham gerações mais felizes e saudáveis. 

Psicóloga Clínica Cognitivo-Comportamental; Mestre em Psicologia Clínica e da Saúde - UFP - Universidade Fernando Pessoa em Portugal. Defendeu a sua dissertação com excelência e nota máxima sobre: “A interferência das redes sociais nos relacionamentos”. Especialista em Psicologia da Saúde, Desenvolvimento e Hospitalização – UFRN; Especialista pela Faculdade de Medicina do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP – SP. Foi professora da Pós-graduação em Psicologia – Terapia Cognitivo-Comportamental (Unipê). Há 20 anos atendendo na clínica a adolescentes, adultos, casais e famílias. Membro da Federação Brasileira de Terapias Cognitivas - FBTC. Mantém o Blog próprio desde 2008. Mais informações: www.karinasimoes.com.br. Atendimentos com consultas presenciais ou online