Meu filho disse que quer fumar maconha, porque os amigos já usam. O que faço?

por Danilo Baltieri

"Segundo ele, ainda não fumou e está pedindo para experimentar. Preciso de ajuda."

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Resposta: Falar sobre álcool e outras drogas com os filhos deve ser parte do processo educacional e também afetivo.

Vivemos em um universo onde o consumo de substâncias é uma realidade incontestável e está presente em todos os níveis sociais, econômicos, culturais.

Durante o último quarto do século XX, o uso recreativo de maconha espalhou-se ao redor do mundo e tem sido visto por jovens (e por muitos adultos) como uma atividade associada com o lazer. Usuários recreativos de maconha nos finais de semana mais frequentemente manifestam maior atividade noturna e utilizam outras substâncias psicoativas concomitantemente ao de maconha do que os não usuários.

Esses usuários recreativos afirmam, muito comumente, que os principais objetivos do consumo de maconha são a socialização com os amigos, o relaxamento, o aumento da autoconfiança, a diminuição do tédio, a redução da ansiedade e a sensação de bem-estar. Esses usuários recreativos raramente procuram ajuda para cessar o consumo, visto que eles enxergam esse hábito como não prejudicial.

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Pessoas que começaram precocemente a consumir maconha e fazem uso de outras substâncias estão em maior risco de manter o consumo da maconha na idade adulta. Consumidores crônicos de maconha mais comumente do que os não usuários registram menores níveis de satisfação com a sua qualidade de vida. Esses usuários crônicos frequentemente percebem a droga como um calmante, uma solução rápida para os problemas e frustrações.

Pesquisas têm trazido dados preocupantes sobre o aumento do uso de substâncias psicoativas entre os adolescentes e reforçam a necessidade de aprofundar a investigação nessa área. Inúmeros estudos apontam que os adolescentes abusadores e dependentes de drogas podem apresentar déficits em habilidades sociais, não conseguindo recusar a oferta de drogas para serem aceitos no seu meio social.

Existem alguns importantes textos publicados e disponíveis para auxiliar pais e educadores nessa tarefa. Aqui, aponto algumas observações que podem auxiliar pais, educadores e outras pessoas a conversar com os jovens sobre essa realidade nada tranquilizadora.

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Não tenha medo de conversar com o seu filho sobre o consumo de bebidas alcoólicas e de outras drogas, de forma clara e franca. Sua opinião deve sempre ter valor e ser firme, mesmo que ele mostre algum tipo de desdém. No seu caso, como o seu filho manifestou desejo em falar sobre o assunto, você não pode perder essa oportunidade.

Sempre durante a conversa, certifique-se de que tanto você quanto o seu filho estão sendo ouvidos e têm a chance de externar opiniões. Converse com ele sobre as consequências do consumo de bebidas e outras substâncias na escola, no trabalho, enquanto pratica esportes ou desempenha outras atividades.
Mantenha o vínculo com o seu filho, respeitando a liberdade dele para que ele não ache que você está tentando controlá-lo ou reprimi-lo. Quanto mais próximo do seu filho, menos ele cederá às pressões do grupo.

Você deverá ter alguns fatores ao seu favor, tais como: o bom e adequado relacionamento com o seu filho e confiáveis informações sobre o consumo de bebidas alcoólicas e outras drogas nessa faixa etária. O conhecimento de boa qualidade associado com a adequada vinculação com o seu filho contribuirão para um melhor desenlace do fato.

É importante saber como está o desempenho do seu filho: na escola, trabalho e demais atividades. Além disso, quais estão sendo os modelos seguidos pelo jovem, quais estão sendo as suas principais dificuldades (relacionamentos, amigos, desempenhos), como estão sendo desenvolvidas as suas expectativas, como o seu pensamento/ideia está sendo organizado.

Existem fatores protetores e de risco para o abuso de substâncias psicoativas. Dentre os fatores protetores estão: o estreito e adequado vínculo com os pais, os próprios hábitos saudáveis dos genitores, o bom desempenho acadêmico do jovem bem como habilidades acadêmicas e sociais adequadas. Dentre os fatores de risco estão: falta de suporte familiar, pobre desempenho acadêmico e falta de expectativas realistas, precoce comportamento impulsivo/agressivo, facilidade no acesso às drogas na própria comunidade ou entre os pares, crenças e comportamentos favoráveis ao uso de maconha tanto dos pares quanto dos pais.

Em qualquer idade, tente dar todo o apoio possível ao seu filho. No entanto, é essencial estabelecer limites quando necessário. Promova atividades em família como, por exemplo, almoçar e jantar juntos, sair, praticar esportes, etc. Qualquer forma de lazer pode aproximar seu filho de você e aprofundar o seu conhecimento quanto aos interesses do menor.

Também, muitas vezes, os pais são o “modelo” dos filhos. Logo, suas palavras e conselhos devem estar condizentes com a sua conduta e atitudes.

Infelizmente, mesmo sabendo dos possíveis efeitos nocivos do álcool e de outras drogas como a maconha, alguns pais acham melhor permitir o consumo ou mesmo “fazer vista grossa” sobre ele. Qualquer que seja a sua decisão, o abuso de álcool e de outras drogas não deve ser tolerado em qualquer circunstância. Isso se aplica a você e ao seu filho.

Nunca é cedo demais para conversar com seus filhos sobre as drogas em geral. Crianças de seis anos já conhecem alguns comportamentos socialmente aceitos quando o assunto é o consumo de substâncias. Portanto, seja firme.

Dicas para estar mais próximo do seu filho

a) Saiba sempre onde está o seu filho, com quem está e como está se comportando;

b) Expresse interesse verdadeiro pelos assuntos que ele considera importante;

c) Dê apoio, mas sempre supervisionando. É possível supervisionar sem parecer ser controlador;

d) Mantenha a autoridade com sensatez;

e) Ouça os argumentos dos filhos e suas dúvidas. Procure entender como ele pensa e enxerga o mundo. Assim, você descobrirá os melhores argumentos para revelar seu ponto de vista.

Para mais informações, ofereço esta interessante referência:

Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA). Como falar sobre uso de álcool com seus filhos. Disponível em: http://www.cisa.org.br/materiais

Professor Livre-Docente pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Professor de Psiquiatria do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC. Pesquisador nas áreas de Dependências Químicas, Transtornos da Sexualidade e Clínica Forense.