Não temos culpa de ser aquilo que somos

por Luiz Alberto Py  

Vale a pena observar a diferença entre a condição de ser culpado e o sentimento de culpa. Culpa é um conceito bem definido, relacionado com nossa responsabilidade social e legal sobre quem somos e o que fazemos.

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Por outro lado, sentir-se culpado é um fenômeno emocional. Costumamos ter sentimentos de culpa pelo que fazemos e também pelo que deixamos de fazer. Esses sentimentos se relacionam com o ingrediente religioso (judaico cristão) de nossa cultura. Herdamos uma religião que supervaloriza o pecado e acredita em sua implacável punição vinda do julgamento de um Deus severo. O conceito de pecado na maioria das outras religiões (não monoteístas) é vago e encarado de forma leve.

A meu ver, o sentimento de culpa se fundamenta na crença de que somos responsáveis por nós mesmos como se fôssemos autores de nós e não meras criaturas. Tal sentimento é estimulado pela influência da religião e também por uma ideia arrogante a respeito do nosso poder sobre quem somos e como nos formamos. Na verdade nós não nos escolhemos, apenas existimos e não temos culpa de ser aquilo que somos. O que devemos fazer é trabalhar dentro de nossas possibilidades para melhorar qualidades e minimizar defeitos.

É médico psiquiatra e psicanalista. Clinica no Rio de Janeiro e faz palestras por todo o Brasil. Publicou em 2002 o best-seller "Olhar acima do horizonte", em 2004: "A felicidade é aqui" e "Saber amar" todos pela editora Rocco. Mais informações: http://doutorpy.blogspot.com