O uso indiscriminado de celulares por crianças em ambientes escolares tem gerado crescentes preocupações; entenda
O avanço tecnológico trouxe inúmeras facilidades à sociedade contemporânea, e o celular tornou-se uma ferramenta quase onipresente na vida moderna — inclusive na infância. No entanto, o uso indiscriminado de celulares por crianças em ambientes escolares tem gerado crescentes preocupações entre pais, educadores e autoridades educacionais ao redor do mundo. Diversos estudos e experiências internacionais apontam os impactos negativos desse hábito sobre o aprendizado, o desenvolvimento social e o bem-estar emocional dos estudantes.
O uso excessivo de celulares em qualquer contexto pode contribuir para um estilo de vida mais sedentário. Em vez de se movimentarem ou interagirem durante os intervalos, muitas crianças permanecem sentadas, isoladas em seus aparelhos. Isso contribui não só para o sedentarismo, mas também para problemas físicos, como, má postura, dores nas costas e cansaço visual, especialmente entre os mais jovens.
Além disso, o ambiente escolar exige foco, atenção e disciplina que são habilidades diretamente prejudicadas pela presença constante dos celulares. Notificações, redes sociais, jogos e aplicativos de mensagens competem com o conteúdo didático, fragmentando a atenção dos alunos. Até mesmo a simples presença do celular sobre a mesa já pode reduzir a capacidade de concentração, devido à expectativa de interação constante.
Cyberbullying
Sabe-se que a presença de celulares em sala de aula também expõe crianças a perigos como o cyberbullying. O compartilhamento de fotos, vídeos ou mensagens ofensivas pode ocorrer em tempo real, muitas vezes sem o conhecimento dos adultos responsáveis. Além disso, sem uma supervisão constante, os alunos podem acessar conteúdos impróprios para sua idade, como violência, pornografia ou discursos de ódio, diretamente da escola.
A infância e a adolescência são fases cruciais para o desenvolvimento de habilidades sociais. A escola é um dos principais espaços para aprender a conviver, resolver conflitos e construir amizades. O uso constante de celulares pode substituir ou limitar essas interações presenciais, favorecendo o isolamento e dificultando a construção de vínculos sociais saudáveis.
Além disso, há o risco de que as redes sociais substituírem as interações reais, levando a relações superficiais, baixa autoestima e até dependência digital. É interessante a descoberta de pré-adolescentes e adolescentes, após a proibição do uso do celular na escola, que relatam que conversar diretamente com o colega é algo bom.
Outro fator preocupante é o impacto da desigualdadesocial. Nem todos os alunos têm acesso a celulares de última geração ou à internet móvel, o que pode criar sentimentos de exclusão, humilhação e comparação dentro da própria sala de aula. A presença dos aparelhos pode intensificar o contraste entre alunos, criando novas formas de discriminação.
O uso constante de tecnologia pode reduzir o espaço para a imaginação, o pensamento crítico e a resolução autônoma de problemas. Atividades simples como jogos de tabuleiro, leitura, debates ou brincadeiras livres são substituídas por estímulos rápidos e passivos dos dispositivos eletrônicos.

Embora o celular possa ter usos pedagógicos positivos quando bem orientado, o uso livre e irrestrito por crianças nas escolas traz diversos malefícios, acima salientados, que comprometem o processo educativo e o desenvolvimento integral do aluno. Diante disso, muitos países têm adotado políticas de restrição do uso de celulares nas instituições de ensino de nível fundamental e médio mediante Lei nacional, leis estaduais, diretrizes nacionais e orientações governamentais. Cito, entre outros países, Brasil, França, Reino Unido, China, Holanda, Austrália, Suécia, Noruega, Canadá, Estados Unidos, Japão, Índia, África do Sul, Argentina e México.
Infelizmente, chegamos a essa situação na qual é preciso de lei ou diretrizes governamentais para restringir o uso abusivo pelas crianças e adolescentes dos aparelhos de celulares. Esse controle deveria ser feito pela família e pelas escolas, no conjunto do processo educacional, e não pelo governo. É uma questão básica que os pais deveriam saber e ensinar aos seus filhos os malefícios que podem ser gerados pelo uso excessivo dos aparelhos, principalmente nas escolas.
Do jeito que as coisas estão indo, caberá ser tarefa do governo estabelecer leis e diretrizes para as crianças terem que tomar banho, escovarem os dentes, saberem respeitar o próximo, falarem bom dia, dormirem na hora certa, fazerem lição de casa etc. Promover um ambiente escolar mais focado, seguro e saudável não deveria ser uma atribuição de governos. Isso exige uma reflexão profunda dos pais, das escolas, sobre o estabelecimento dos limites da tecnologia no cotidiano das crianças e sobre a importância de equilibrar o digital com o humano.