Parei de fumar e a vida perdeu o sentido para mim. O que faço?

por Danilo Baltieri

“Estou sem fumar há 60 dias e tenho sentido muita tristeza e desânimo. Parece que tudo perdeu o sentido para mim. Não quero mais ser fumante, mas também não quero ser uma pessoa triste e desanimada. O que o senhor me aconselha? Uma amiga me indicou a sertralina; ela disse que pode ajudar bastante nesse processo. Obrigada!”

Continua após publicidade

Resposta: Existe uma bem conhecida conexão entre o consumo de cigarros e os sintomas depressivos. Tanto pessoas portadoras de sintomas depressivos acabam por fumar mais, quanto pessoas que cessam o consumo de cigarros tendem a apresentar sintomas depressivos.

De fato, estima-se que a prevalência da dependência de nicotina entre pessoas portadoras de transtorno depressivo varie entre 50 e 60%. Além disso, fumantes depressivos demonstram mais dificuldade para cessar o consumo do tabaco do aqueles não depressivos.

A simples parada no consumo de cigarros pode induzir rapidamente sintomas depressivos, principalmente entre pessoas já portadoras do quadro anteriormente ao início do uso de cigarros. Evidências existem de que o consumo de cigarros, o maior grau de dependência de nicotina e o maior tempo de consumo possam precipitar significativamente sintomas relacionados aos transtornos depressivos.

Clinicamente, a sua queixa é bastante comum. Muitas pessoas queixam-se de sintomas como falta de ânimo, labilidade emocional, falta de energia, dentre outros, quando cessam o uso de cigarros.

Continua após publicidade

Dada a ocorrência conjunta de dependência de nicotina e sintomas depressivos, o fato de que o consumo de cigarros geralmente se inicia precocemente na vida do fumante e que a nicotina pode induzir alterações do humor e ansiedade, é crucial que aqueles que desejem cessar o consumo de cigarros estejam preparados e dispostos para enfrentar uma batalha.

Existem medicações comprovadamente eficazes para o tratamento da dependência de nicotina que podem auxiliar o portador da síndrome de dependência de nicotina a deixar de fumar.

Sintomas da síndrome de abstinência

Continua após publicidade

Didaticamente, quando o dependente de nicotina tenta cessar o consumo do cigarro, certamente mostrará sintomas típicos da síndrome de abstinência, caracterizados, principalmente, por:

1) Humor deprimido ou irritável;
2) Insônia;
3) Sensação de raiva e frustração;
4) Ansiedade;
5) Dificuldade para concentração;
6) Inquietação;
7) Redução da frequência cardíaca;
8) Aumento do apetite e ganho de peso

Apesar da meia-vida curta da substância nicotina, os sintomas de abstinência podem durar bastante tempo, variando de semanas a meses. Ademais, entre os dependentes, a duração e a característica dos sintomas podem variar bastante.

Além da satisfação conseguida através do fumo e de evitar os sintomas da síndrome de abstinência através do uso, existem outros fatores que dificultam a cessação do consumo de cigarros. Essa substância exerce efeitos na modulação do humor, redução do estresse, redução da dor, controle do peso e melhora cognitiva. Dessa forma, o tratamento para deixar de fumar pode ser mais difícil entre pacientes com outros transtornos psiquiátricos (como depressão e ansiedade), preocupados com o ganho de peso e com quadros crônicos de dor.

Apesar de vários tratamentos propostos, ainda muitos dependentes de nicotina continuamente demonstram significativa dificuldade para cessar o consumo dessa substância, mesmo quando submetidos a tratamentos que integram a abordagem com medicações e psicoterapias.

Existem algumas propostas farmacológicas comprovadamente eficazes para o tratamento da síndrome de dependência de nicotina. Evite sempre a automedicação e procure auxílio de especialistas médicos na matéria.

Aproveito para parabenizar você por esta tentativa e iniciativa. Siga em frente!!!

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracteriza como sendo um atendimento.

Professor Livre-Docente pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Professor de Psiquiatria do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC. Pesquisador nas áreas de Dependências Químicas, Transtornos da Sexualidade e Clínica Forense.