Parei de fumar pedra faz 8 meses e sinto batedeira no coração

por Danilo Baltieri

“Isso é normal ou devo procurar um profissional, pois fumei durante uns 7 anos.”
 
Resposta: Quando da parada ou redução do consumo de substâncias psicoativas, como é o caso de cocaína/crack, comumente ocorre a chamada síndrome de abstinência, caracterizada por sintomas físicos e psicológicos que afetam negativamente o usuário.

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Didaticamente, a síndrome de abstinência pode ser classificada em aguda e protraída. A síndrome de abstinência protraída também é conhecida como crônica ou estendida. Na aguda, os sintomas surgem pouco tempo após a parada ou redução abrupta da substância psicoativa. Na protraída ou crônica, sintomas podem surgir semanas, meses ou mesmo anos após a parada do consumo da droga. Infelizmente, tais sintomas negativos podem impelir o usuário que está tentando manter-se abstinente a retornar ao consumo, como uma forma de abolir os sintomas.

No caso da síndrome de abstinência protraída, o profissional de saúde deve envidar esforços para investigar se os sintomas são realmente provenientes da parada do consumo da droga ou de uma outra condição médica coexistente.

Na verdade, o consumo repetitivo de substâncias psicoativas provoca modificações celulares, moleculares e neuroquímicas no cérebro, as quais afetam o comportamento e as emoções e podem persistir por tempo variável. Obviamente, os sintomas da síndrome de abstinência protraída não são idênticos para todas as substâncias, uma vez que cada substância psicoativa tem diferentes ações sobre o cérebro. No entanto, os sintomas têm significativa similaridade entre as diferentes drogas.

Os sintomas frequentemente atribuídos às síndromes de abstinência protraídas são anedonia (falta do prazer com as atividades diárias), fadiga, dificuldade para concentração e para tomada de decisões, prejuízo do sono, sintomas ansiosos, fissura pela droga e pobre controle impulsivo.

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Também, é importante notar que nem todas as pessoas com problemas com o uso de substâncias psicoativas manifestam sintomas de síndrome de abstinência protraída ou crônica. Outrossim, naqueles onde tais sintomas aparecem, a intensidade é altamente variável.

Para indivíduos com esses sintomas, os profissionais de saúde devem:

a) Auxiliar os pacientes a desenvolver atitudes realistas diante do problema. Isso significa enfatizar que a recuperação é um processo longo; persistir no tratamento é essencial. Também, os profissionais de saúde devem ajudar os pacientes a identificar os sintomas e a estabelecer as melhores formas para manejá-los;

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b) Avaliar e reavaliar criteriosamente a presença de outras doenças médicas. Isso é essencial. O portador de problemas atuais ou antigos com o uso de substâncias psicoativas pode apresentar uma miríade de problemas consequentes, desencadeantes ou mesmo independentes do uso das substâncias. Logo, a busca por auxílio médico é mandatória;

c) Aconselhar o portador de problemas com o uso de substâncias psicoativas a manter a participação em grupos de mútua ajuda;

d) Aconselhar o portador a ser ativo, evitando gatilhos que facilitem a recaída, desenvolvendo atividades para o alívio do estresse, desenvolvendo habilidades cognitivas para o manejo dos pensamentos negativos;

e) Prescrever medicações para aliviar os sintomas. Essa prescrição deve ser criteriosa e baseada em evidências científicas de efetividade.

Você está de parabéns por manter-se abstinente por 8 meses. Para continuar esse sucesso, você deve estar inserido em tratamento especializado. Seus sintomas de “batedeira” deverão ser adequadamente investigados para que um correto diagnóstico seja realizado.

Não perca tempo!

Professor Livre-Docente pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Professor de Psiquiatria do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC. Pesquisador nas áreas de Dependências Químicas, Transtornos da Sexualidade e Clínica Forense.