Pergunta recorrente em psicoterapia

por Luís César Ebraico

Há perguntas que são recorrentes no contexto psicoterápico. Uma delas é ilustrada pelo diálogo a seguir, ocorrido na primeira sessão em que atendi Vicente:

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VICENTE: – Dr., eu sou neurótico?
EU: – O que é um neurótico?
VICENTE: – Ah, não sei, mas o senhor deve saber.
EU: – Você sabe o que é um lepidóptero?
VICENTE: – Não.
EU: – Então, de que adiantaria eu lhe dizer que você não é – ou é – um lepidóptero?
VICENTE: – É, não adiantaria nada. Mas… Bem, um neurótico é um cara nervoso.
EU: – Você é um cara nervoso?
VICENTE: – É, eu sou um cara nervoso.
EU: – Bem, então, dentro do seu vocabulário, você é um neurótico.
VICENTE: – É, mas ser um neurótico é mais do que ser um cara nervoso.
EU: – Bem, estamos vendo que você tem uma opinião mais precisa do que seja um neurótico do que inicialmente pareceu. Então, vamos lá: o que é caracteriza o neurótico, além de ele ser um “cara nervoso”?
VICENTE: – Ah, ele é um cara inferior.
EU: – Como assim?
VICENTE: – Ah, ele não consegue fazer as coisas que os outros conseguem.
EU: – Você não consegue fazer coisas que outros conseguem?
VICENTE: – É, não consigo.
EU: – Por exemplo?
VICENTE: – Bem, blá, blá, blá, blá, blá, blá.

E, a partir daí, passamos a aprofundar nossa pesquisa sobre os sintomas que traziam incômodo para meu novo paciente. Como vêem, toda minha orientação foi na direção da “microscopia”, ou seja, na direção de escapar de abstrações vagas e imprecisas para o trabalho sobre elementos concretos da condição de Vicente. Não é à toa que chamo meu trabalho de *LogANÁLISE, e não de LogosSÍNTESE, a exemplo de Freud, que chamou o seu de PsicANÁLISE e não de PsicosSÍNTESE.

Além de abstrações vagas e imprecisas não permitirem nenhum trabalho loganalítico eficaz, diga-se de passagem que um neurótico não precisa ser “um cara nervoso”. Existe inclusive um fenômeno neurótico, típico da histeria, via de regra elegantemente mencionado em francês, chamado “belle indiférence” ( = bela indiferença ), em que o paciente apresenta distúrbios de ordem física (paralisias, distúrbios sensoriais, etc.), enquanto seu humor se mantém perfeitamente sereno. Qual utilidade terapêutica haveria em ficar eu me preocupando em que meu paciente tivesse uma definição academicamente adequada de neurose, em vez de ajudá-lo a iniciar o trabalho que, se bem-sucedido, deixá-lo-á livre de seus sintomas?

*Loganálise: É um filhote da Psicanálise: pretende mostrar como o cidadão comum, em seu dia-a-dia, pode tirar proveito de conceitos como repressão, fixação, trauma e outros para promover sua própria saúde psicológica e a daqueles com quem se relaciona.

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Ângelo Medina é editor-chefe do portal Vya Estelar. É jornalista e ghost writer. Com 30 anos de experiência, iniciou sua carreira na cobertura das eleições à Prefeitura de São Paulo em 1988 (Jornal da Cultura). Trabalhou no Caderno 2 - O Estado de São Paulo, Revista Quatro Rodas (Abril). Colaborou em diversas publicações e foi assessor de imprensa no setor público e privado. Concebeu o site Vya Estelar em 1999. É formado em Comunicação Social pela UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora.