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Em busca do equilíbrio: benevolência para si mesmo e para o outro

Fátima Fontes 07/02/2019 PSICOLOGIA
Em busca do equilíbrio: benevolência para si mesmo e para o outro
Fonte: imagem Pixabay
“... ao invés de nos sentirmos “eternamente em dívida” para quem foi benevolente conosco, podíamos nos sentir mais agradecidos.”

Por Fátima Fontes

Introdução

“A benignidade (benevolência) é a determinação da vontade de fazer o bem ao outro.”
 (Abbagnano, Nicola. Dicionário de Filosofia. 5ª edição, São Paulo: 2007).

Entramos num ano novo, e outra vez nos encontramos diante de nossas possibilidades, desejos, potências e dificuldades relacionais.

E escolhi refletir neste texto sobre a virtude da benignidade ou benevolência, que como coloquei na epígrafe, significa a nossa determinação de fazer o bem ao outro.

Muito me agrada essa definição, pois a ênfase que Abbagnano dá, é à “determinação” e não à “vontade” de fazer o bem ao outro. Penso que em dias atuais em que somos tão estimulados a só buscarmos o nosso próprio interesse, essa determinação, pode funcionar como “exercício” de caráter, precisamos nos exercitar em boas atitudes para com o outro, já que andamos “sedentários” de egoísmos e individualidades.

Tive uma musa inspiradora: a Ana Paula, mais uma pessoa incrível que surgiu na vida de nossa família, e que nessas férias, com sua meiguice, nos presenteou com algo, no exato momento em que íamos adquirir o objeto, e assim tocou o nosso coração, pois acrescentou ao presente: “estava querendo dar algo que vocês desejassem, posso dar isso a vocês?”

Então contando isso a uns amigos, um deles, muito querido aliás, o Jayme Penerai, me disse: “escreve sobre isso...”. Então aí vai o texto: para a Ana, para o Jayme e para quem quiser refletir sobre a arte da benevolência, e a sua importância para nossas relações.

Por que perdemos a determinação da benevolência?

Percebo, a bom tempo, que andamos envoltos, em nossas relações, nas densas brumas das “obrigações”.

Temos que realizar tarefas, cuidar das coisas, e até das pessoas com as quais nos relacionamos intimamente, o mais das vezes, como um estafante e interminável carrossel de deveres.

A alegria de fazer, dá lugar a um mar de queixumes, gerando a sensação de sobrecarga, fazendo nascer um “livro de contas da família”, quando as tarefas são executadas para os da casa.

A contabilidade desse livro é a seguinte: para cada um a quem eu esteja “prestando serviço”, surge o sistema de débito, invisível, claro, o mais das vezes inconsciente, mas às vezes não, há contextos em que a dívida de quem recebeu é explicitada: “hoje eu faço isso por você, amanhã cobrarei com juros e correções”, o que torna, muitos desses débitos “existenciais”, impagáveis.

Não nos esqueçamos que nas dinâmicas familiares e de intimidade relacional, há “lealdades invisíveis”, passadas de geração em geração, como numa corrida de revezamento. Sendo assim, pessoas que tiveram seus cuidadores “se sacrificando muito por elas”, tendem a repetir esse “legado familiar”, num sistema de “renúncia compulsória” de suas necessidades e desejos, em detrimento de “novos outros” que serão seus devedores, no futuro.

Num cenário assim, fica difícil ter “alegria” em servir.

Some-se a esse cenário mais interno, um mundo ao nosso redor, no qual somos bombardeados de mensagens, diretas ou subliminares, de que a vida é um grande espetáculo, e que cada um deverá estar muito atento à sua própria performance, para poder ser reconhecido e aplaudido. A expressão de necessidade e de dor, deve ser evitada, há todo um estímulo aos “retoques” que deverão mostrar sempre a nós e às nossas relações, como “perfeitas”.

Muito duro tudo isso, não? E como encontramos novas possibilidades para nós e para os outros?

Em busca do equilíbrio: benevolência para si mesmo e para o outro

Creio que podemos pensar num “novo roteiro” para nós e nossos vínculos, que nos possibilite o retorno da alegria de viver e de servir.

Podemos começar pelo treino da “gratidão”, creio que ao invés de nos sentirmos “eternamente em dívida” para quem foi benevolente conosco, podíamos nos sentir mais agradecidos.

Já há até comprovação científica acerca do bem que faz, ao nosso cérebro, o desenvolvimento da atitude de gratidão: ela promove bem-estar, pois estimula áreas do cérebro responsáveis pela alegria e pelo ânimo.

Então já temos o primeiro ponto da nova rota: ao invés de “devedores” podemos nos sentir agradecidos, e ao expressarmos essa atitude, faremos bem a nós mesmos e ao outro que nos auxiliou.

Há um outro ponto muito importante em nossa nova rota: a atenção sobre nossos limites. Quando carregamos mais peso do que nosso corpo suporta, provocamos lesões em nosso sistema de equilíbrio, muscular, ósseo e outros. Talvez tenhamos crescido em ambientes que cobraram de nós “superpoderes”, “superação dos limites a qualquer custo”, e isso pode estar danificando nosso “radar” dos limites.

Somos “de barro”, não nos esqueçamos, as “iron” pessoas, pagam um alto preço para se transportarem para além de seus próprios limites. Precisamos retornar a um mundo relacional em que nossas fraquezas, impossibilidades e limitações possam ser incluídas em nosso viver, sem que isso seja visto e taxado como “corpo mole ou vitimização”.

Me inspiro bastante num trecho da Bíblia, que narra uma frase do apóstolo Paulo que diz: “Quando sou fraco, aí é que sou forte”. Ele não se referia ao jogo vitimado que algumas pessoas fazem para terem a comiseração do outro, e sim ao salutar exercício de reconhecimento de quem somos; não podemos nem precisamos ir além de nossos limites humanos e que, muitas vezes, precisamos de ajuda, residindo aí a nossa força.

E para terminar...

Tomara que essa reflexão tenha nos estimulado a nos alegrarmos mais com a determinação de fazermos o bem ao outro e a nós mesmos.

Que em 2019, possamos ser mais benevolentes, gentis e amáveis! E que toquemos sempre, positivamente, o coração das pessoas que nos cercam.

E vai agora, aquela canção para “tocar” nosso coração, e assim termos ainda mais vontade de sermos benevolentes!

Oração

A Banda Mais Bonita da Cidade

Meu amor essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração, não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor!
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira
Cabe nós dois

Cabe até o meu amor
Essa é a última oração pra salvar seu coração
Coração, não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa




TAGS :

    equilíbrio, gratidão, benevolência, psicologia

Fátima Fontes

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008



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