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Largar o cigarro pode levar à depressão?

Danilo Baltieri 02/07/2019 SAÚDE E BEM-ESTAR
Largar o cigarro pode levar à depressão?
Fonte: imagem Pixabay
Mesmo fumantes não depressivos queixam-se de tristeza e de falta de ânimo ao largar o cigarro

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“Olá tudo joia? Tenho 23 anos e fumava há 5 anos aproximadamente 7  cigarros de palha por dia. Estou há 30 dias sem cigarro. Porém, na segunda semana sem tabaco, comecei a me sentir deprimido e tive dois episódios de pânico que consegui controlar. Fui ao clínico geral e ele me passou Unitramâ 10mg durante um mês. O médico falou também que pode ser um pouco de depressão. Com isso fiquei muito assustado, angustiado e preocupado. Minha dúvida é se tem relação com o fumo e se vai passar. Quando era criança, tinha um pouco de pânico em algumas situações, mas nunca tive depressão. Desde já, muito obrigado!”

Resposta: O uso de tabaco é a causa líder de mortes evitáveis ao redor do mundo, provocando, correntemente, mais de 5 milhões de óbitos por ano. Como é de amplo conhecimento público, fumar tabaco é um dos principais fatores de risco para doenças pulmonares, cardiovasculares e diferentes tipos de cânceres.

Embora muitos fumantes desejem cessar o consumo do tabaco, a síndrome de abstinência decorrente da redução do uso ou mesmo da parada abrupta amiúde é um fator espinhoso. Outrossim, há vários registros nos gêneros textuais médicos de que o consumo do tabaco, apesar das consequências notavelmente nocivas, aliviaria sensações de ansiedade, estresse, humor depressivo e irritável.

Embora fumantes por vezes associem o hábito de fumar tabaco com sensações agradáveis e de bem-estar psicológico, as evidências científicas demonstram que muitos fumantes iniciam e mantém o consumo devido a problemas de ansiedade, depressão e dificuldades para lidar com o estresse e a angústia. Estudos demonstram que entre 50 e 60% dos portadores de quadros depressivos fazem uso de tabaco. A associação entre transtornos de ansiedade e depressivos com o consumo de tabaco é tão forte que a própria Associação Psiquiátrica Americana recomenda que os tratamentos destinados para auxiliar os dependentes de nicotina a cessar o consumo do tabaco também sejam tratados para possíveis transtornos mentais concomitantes.

Depressão após cessar consumo crônico de cigarro  

De qualquer forma, é verdade que mesmo fumantes previamente não depressivos queixam-se de tristeza e de falta de ânimo, quando cessam o consumo crônico do tabaco. Isso pode ser parcialmente explicado pelo aumento de uma enzima cerebral, conhecida como MAO-A (proteína mono amino-oxidase A), após a cessação do consumo desta substância. Estudos têm mostrado um aumento de até 25% nos níveis cerebrais desta enzima 8 horas depois da parada do consumo do tabaco. A MAO-A ajuda a “reduzir” a quantidade de neurotransmissores cerebrais, tais como a serotonina, causando sintomas desagradáveis.

Entre fumantes de tabaco previamente não depressivos, parece que os sintomas de ansiedade e de depressão relacionados com a própria síndrome de abstinência tendem a diminuir significativamente dentro de 01 ou 02 meses. Entretanto, entre os portadores prévios de quadros depressivos e ansiosos que fumavam, este tempo é muito maior e pode ser altamente preocupante no caso da falta de um tratamento médico e psicossocial adequado.

Quadros de transtorno depressivo

Embora muitos profissionais demonstrem receio em recomendar a cessação do consumo de tabaco para os seus pacientes com quadros de transtorno depressivo, devido à crença de que tais quadros tornar-se-ão mais graves, muitas evidências científicas demonstram o contrário. Com a parada do consumo do tabaco, ocorre melhora da qualidade de vida do paciente, redução dos sintomas depressivos e ansiosos (a médio ou longo prazo após a cessação do consumo do tabaco).

Claramente, tanto aqueles fumantes que portam ou que não portam transtornos mentais (como depressão e ansiedade) podem e, muitas vezes, devem estar inseridos em um tratamento médico e psicossocial que tenha olhares tanto para a síndrome de abstinência do tabaco quanto para outros sintomas psiquiátricos/psicológicos coexistentes.

Medicações antidepressivas

Medicações antidepressivas que tratem ambos os problemas, ou seja, tanto a dependência de nicotina quanto os transtornos depressivos e ansiosos, podem ser úteis nesta tentativa altamente recomendável de cessar o consumo de cigarros. Também, existem tratamentos mais específicos para a dependência de tabaco que podem incluir outras medicações para tratar a depressão e a ansiedade.

As fórmulas de tratamento para ambas as condições existem e podem ser aplicadas por especialistas treinados. O acompanhamento deve ser rigoroso e as vantagens da cessação do consumo devem ser evidentes para o paciente.

Você está no caminho certo. Embora difícil, a cessação do consumo dessa substância trará imensos benefícios tanto para a sua saúde física quanto psicológica. Paciência, vigilância continuada, tratamento correto seguramente facilitarão um resultado positivo.

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Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracteriza como sendo um atendimento.

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    largar cigarro

Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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