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Meu marido é viciado em cocaína. Como cuidar dele?

Os familiares de dependentes químicos enfrentam diversos estigmas e devem estar munidos de estratégias cognitivas e afetivas para lidar com eles

18 jul, 2019

E-mail enviado por uma leitora:  

“Meu esposo usa drogas. Ele chega a usar cocaína por 12 horas seguidas. Quando para, vomita, dá diarreia, sente frio, sente calafrios. Como devo alimentá-lo? Que remédio posso dar? Eu dou soro, dramim, dipirona e hidróxido de alumínio. Quando consegue comer, faço caldinhos de verdura com músculo cozido. Está certo? O que o senhor me aconselha?

Resposta: Direta ou indiretamente, membros familiares de indivíduos portadores de problemas com o uso de substâncias psicoativas podem ser, muito amiúde equivocadamente, apontados como sendo também responsáveis por esta situação difícil. Embora o termo “codependência” possa envolver um guarda-chuva de definições, muitos autores descrevem o codependente como aquele indivíduo controlador, perfeccionista, excessivamente protetor, repressor das suas próprias emoções, desconfiado de outras pessoas e autovigilante. Esta pessoa costuma ter limites pouco adequados, viver em negação continuada e manter a sua autoestima tentando “salvar” o seu ente querido.

Aceitar a situação é um erro

A crença de que a dependência química é uma doença crônica e incurável pode ser um flagelo para algumas pessoas que acabam por distorcer estas duas características da doença. Por ser “crônica” e “incurável”, o familiar pode entender que a melhor forma de agir é aceitar a situação e tentar, das formas mais idiossincráticas possíveis, manejar o problema. Todavia, isso é uma grande trapaça para ambos os lados. Há inúmeras doenças crônicas e incuráveis; isso não significa que não haja tratamentos adequados para controlar tais doenças e evitar um desenlace ainda mais trágico.

Comportamentos do codependente

De fato, muitos dos comportamentos dos chamados codependentes são respostas esperadas, considerando fatores ambientais, culturais e comportamentais. Pode ser esperado tentar proteger pessoas que nós amamos das consequências do seu comportamento nocivo, especialmente quando as consequências deste comportamento podem ser a morte ou a condenação. Também é esperado ficar ansioso e apreensivo, quando outras pessoas discriminam o ente querido e o seu familiar pelo fato daquele fazer uso de substâncias psicoativas.

É esperado deixar de confiar nos tratamentos procurados, quando os mesmos não dão certo ou mesmo quando não existem vagas nos serviços públicos. É esperado negar a existência de um sério problema dentro de casa e atribuir a culpa deste problema a agentes externos, ou mesmo internos, e não aos fatores que realmente geraram o problema.

Noto aqui que são inúmeros os fatores relacionados à gênese das dependências químicas, sendo alguns, inclusive, ainda desconhecidos. O portador do quadro de dependência química, juntamente com os seus familiares, deverão discutir com as equipes de saúde especializadas a respeito da origem do problema e das possibilidades reais para a sua resolução.

Estigmas

Os familiares de dependentes químicos enfrentam diversos estigmas e devem estar munidos de estratégias cognitivas e afetivas para lidar com eles. Os problemas relacionados com o uso de substâncias psicoativas causam (ou coexistem com) diferentes tipos de outros problemas para o próprio usuário e para os seus familiares. Doenças sexualmente transmissíveis, outros transtornos mentais, desemprego, dificuldades financeiras, episódios de agressividade física e/ou verbal são apenas alguns exemplos.

Além disso, familiares podem ter que encarar o estigma associado com o envolvimento do ente querido dependente químico com o sistema de justiça criminal. Dos 2,3 milhões de encarcerados nos Estados Unidos da América, mais do que 60% apresentam problemas com o consumo de substâncias psicoativas.

Experiências negativas

Desta forma, membros familiares passam por diversas experiências negativas, e isso pode moldar o modo de pensar e de sentir o mundo ao redor. Devido ao estigma, por exemplo, os membros familiares podem sentir-se envergonhados e tentar evitar qualquer tipo de exposição pública, o que conduz ao isolamento. O isolamento, por sua vez, e, consequentemente, a solidão, pode ser uma resposta de autoproteção contra a vergonha.

As consequências do isolamento e do estigma podem produzir razões para resolver os problemas dentro de casa, ou seja, “lavando toda a roupa suja dentro de casa.” Por exemplo, esposas podem tentar ignorar o problema da dependência química do marido e tentar eclipsar a situação, ignorando completamente a gravidade do quadro.

O grande problema é que os membros familiares são agentes importantes durante o processo de tratamento e da recuperação do portador de problemas com o uso de substâncias psicoativas. Os membros familiares devem estar sob tratamento também, a fim de angariar recursos para enfrentar a situação, impor limites, respeitar-se, fazer-se respeitar e observar regras.

Fatores que provocam situações lamentáveis

Em resumo, aponto os principais fatores que provocam situações lamentáveis e de risco para o manejo de portadores de problemas com o uso de substâncias psicoativas:

a) Vergonha;
b) Isolamento social;
c) Falta de tratamento;
d) Falta de tratamentos adequados.

Todos estes fatores degradam a qualidade de vida do dependente químico e do seu membro familiar. É conhecido que o estigma associado com a dependência química afasta outras pessoas, vizinhos e familiares. A solidão parece tornar-se evidente e iminente. Por isso, a necessidade da busca incessante por ajuda externa e especializada.

Um dos papéis deste site Vya Estelar deve ser a redução deste estigma associado com os problemas relacionados com o uso de substâncias psicoativas. A disseminação de ideias e de estratégias terapêuticas baseadas em evidências científicas de qualidade pode representar um papel significativo em reduzir o estigma público. Quanto maior o acesso público ao conhecimento científico traduzido em linguagem clara, menor será a chance do estigma se fortalecer e recrudescer.

Não estou dizendo para que você maltrate o seu esposo. Estou fortemente sugerindo que você deve procurar urgentemente uma equipe de saúde especializada em dependências químicas para que você possa ser auxiliada, possa receber orientações claras sobre como agir adequadamente nesta situação. Claramente, a presença do seu esposo junto com você é da mais alta importância. Mas, no caso da negativa do seu esposo, vá sozinha. Vá sem medo, sem qualquer vergonha e... rápido.

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracteriza como sendo um atendimento.


Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.


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