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Estudo: bilíngues têm mais desempenho em tarefas que exigem atenção e memória

Elisandra Vilella G. Sé 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Aprender duas ou mais línguas pode proteger de sintomas de demência

por Elisandra Vilella G. Sé

Com o crescimento da população de idosos no mundo durante a última década, houve também um crescimento significativo de doenças relacionadas à velhice, especialmente as condições degenerativas como a demência. Uma doença neurológica que se caracteriza pela deterioração progressiva em domínios cognitivos, tais como memória, cálculo, raciocínio abstrato, linguagem, coordenação motora, orientação temporal e espacial, com gravidade suficiente para interferir significativamente nas atividades da vida diária. A grande questão no mundo atual sobre este assunto é:

Há algo que pode ser feito para prevenir futuros casos de demência?

Estratégias de prevenção da demência significa de forma realista retardar o início da doença. As perspectivas para identificar de forma precoce a doença para se prevenir, retardar ou tratar ainda pertencem ao futuro. Entretanto, o futuro da prevenção da demência começa a partir do momento em que todo profissional de saúde passa a introduzir o manejo da promoção de saúde para os pacientes. Para tanto, muitas áreas podem dar sua contribuição. Já sabemos que os fatores sociais, educacionais fazem a diferença no aparecimento de déficits cognitivos na velhice. Estudos mostram que é importante a atividade mental complexa, o engajamento com o lazer, a prática da leitura, de exercícios físicos e manter uma boa dieta para alcançar uma velhice bem-sucedida e se proteger de fatores de riscos cognitivos na velhice.

Dessa forma, a atividade mental mais elaborada que temos e que nos permite fazer grandes associações e modificações é a linguagem. Que contribui de forma decisiva na estimulação mental ao longo da vida. A linguagem é uma importante função sóciocognitiva, uma atividade constitutiva do pensamento que nos possibilita interagir, apreender a realidade, entender o mundo, decodificar símbolos, compartilhar sentimentos e desejos, fazer associações lógicas, interpretar, entender, inferir um significado. A linguagem é a expressão do ser. Dessa forma, o domínio da linguagem causa efeitos transformadores sobre a mente humana.

Quando crianças, interagimos com outras pessoas intersubjetivamente e adotamos convenções, regras, normas comunicativas da comunidade linguística onde estamos inseridos. Isso contribui para a formação de novas representações mentais, para a construção de conhecimentos.

Do ponto de vista neurofisiológico, a linguagem assim como as outras capacidades cognitivas (memória, raciocínio lógico-matemático, capacidades motora e de percepção) possuem regiões importantes para o seu processamento, o hemisfério esquerdo com a região de Broca relacionada com a capacidade de se expressar (fala) e a área de Wernicke relacionada com a capacidade de entender, a compreensão. Porém, isso não significa que sempre a linguagem será processada somente no lado esquerdo do cérebro.

O hemisfério cerebral esquerdo classicamente está relacionado com a linguagem e a atividade gestual, e o hemisfério cerebral direito com as capacidades espaciais e construtivas. O hemisfério direito também participa do processo de comunicação verbal, especialmente na produção das diferentes entonações melódicas da fala, no reconhecimento e na expressão dos aspectos emocionais da fala e da escrita, e na utilização da linguagem nas diversas situações do dia-a-dia. Essa variedade funcional para a linguagem também ocorre no plano subcortical (substância branca e os glânglios basais), ou seja, nas regiões mais profundas do cérebro. O cérebro é um conjunto dinâmico de células que continuamente recebe informações de todas as modalidades, elabora-as e as compreende, e toma decisões.

A identificação do processamento da linguagem em diversos níveis e as modificações nas redes neurais levou os pesquisadores a estenderem as investigações para os casos de pessoas que falam mais de uma língua. É que a aquisição da linguagem oral e posteriormente a aprendizagem da linguagem escrita introduz no sistema nervoso em desenvolvimento estratégias organizativas específicas.

Aprendizado de outra língua na idade escolar

Aprender a falar e a escrever uma outra língua na idade escolar pode ajudar a manter a mente mais ativa ao longo da vida. Por isso, a necessidade de estimular cada vez mais cedo o aprendizado de uma outra língua, de preferência no período escolar. É que o aprendizado no período de aquisição da língua, devido ao processo de maturidade do sistema nervoso que se dá por volta dos 6-7 anos de idade fica mais fácil. Por isso é que aprender uma outra língua na vida adulta já não é tarefa tão fácil.

Bilíngues

Estudos realizados por Bialystok publicado na revista Experimental Psychology com crianças e pessoas idosas bilíngues revelam que essas pessoas desenvolvem habilidades de atenção melhores que os sujeitos que aprenderam uma só língua. Pessoas bilíngues apresentam melhores desempenhos numa variedade de tarefas que envolvem atenção e memória.

Com relação aos efeitos do envelhecimento e o aparecimento de sintomas de demência em pessoas idosas com grande atividade linguística, acredita-se que as pessoas que possuem mais reservas cognitivas (mais conhecimento, realizaram mais associações com as redes neurais envolvendo a linguagem oral e escrita) têm mias proteção funcional no caso de aparecimento de sintomas de demência, entre elas as falhas de memória.

Com relação à linguagem escrita, o pesquisador português Alexandre Castro Caldas explica que o domínio da ortografia, adquirido por meio da aprendizagem na idade escolar, causa modificações no cérebro, nas regiões onde acontece o processamento visual e em regiões responsáveis pela função auditiva (córtex temporal) o que facilita o ser humano a lidar com a linguagem e causa melhora nos mecanismos de processamento da informação.

Efeitos do bilinguismo

Um estudo que analisou o efeito do bilinguismo ao longo da vida na manutenção das funções cognitivas e na proteção contra sintomas de demência em 228 pessoas idosas, sendo 51% bilíngues, na Universidade de Toronto, no Canadá em 2007, publicado na Neuropsychology, constatou que as pessoas bilíngues apresentaram melhores desempenhos em testes mentais, mesmo tendo as mesmas queixas cognitivas. Esses resultados sugerem que pessoas bilíngues têm mais reservas cognitivas, isso inclui um aumento de conexões neurais, aumento do vocabulário e uma maior reorganização funcional da atividade cerebral, sendo um fator protetor de sintomas de demência.

Na verdade o próprio processo de escolarização, aquisição da leitura e da escrita, o uso continuo da linguagem no cotidiano, já estimula outras competências. E estimular a alfabetização, a cultura, os valores artísticos e a manutenção da mente ativa ao longo da vida torna-se fundamental. Aprender outra língua além de uma necessidade pode ser muito prazeroso e trazer benefícios positivos.

O efeito do envelhecimento sobre as habilidades linguísticas tem sido muito pouco investigado com mais detalhes na literatura gerontológica, principalmente tratando-se de sujeitos bilíngues e poliglotas. Os estudos do funcionamento da linguagem no contexto do envelhecimento patológico, sobretudo nos quadros demenciais ainda se apresentam como um desafio à Neuropsicologia e Neurolinguística, principalmente na tentativa de estabelecer a relação entre linguagem e cognição.A linguagem não é um simples código, ela se caracteriza por um sistema simbólico de grande plasticidade com a qual podemos dizer de forma criativa as coisas que conhecemos no mundo.




Elisandra Vilella G. Sé

Fonaoudióloga pela Faculdade Tereza D'Ávila de Lorena (FATEA/USC) (1995), Mestre em Gerontologia pela Faculdade de Educação da UNICAMP (2003); Doutorado em Linguística - Área de Neurolinguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP (2011); Especialista em Educação em Saúde para Preceptores do SUS pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês (2013); foi pesquisadora visitante na Associação Alzheiemr Portugal em Lisboa (2013); Coordenadora da ABRAZ - Associação Brasileira de Alzheimer - sub-regional Campinas e Jaguariúna.



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