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Fitness no calor: aumento excessivo de temperatura corporal provoca alterações cerebrais

Ricardo Arida 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
E essas alterações diminuem o rendimento físico

por Ricardo Arida

O rendimento físico é grandemente diminuído com a hipertermia - elevação da temperatura do corpo. Os efeitos e recomendações necessárias para a prática do exercício físico no calor já são bem conhecidas e divulgadas. Ainda, os mecanismos de regulação da temperatura induzidos pelos vários órgãos do nosso corpo foram bastante estudados e esclarecidos. Porém, existem grandes evidências que a alta temperatura e desidratação no rendimento esportivo podem ser mediadas por efeitos no sistema nervoso central. Nesse sentido, é importante revermos como a atividade física provoca um aumento da produção de calor e depois entendermos essas ações no sistema nervoso central.

A fadiga e diminuição do rendimento físico nas atividades esportivas tanto recreativas como competitivas está relacionada a vários mecanismos conduzidos pelos sistemas do nosso organismo. A atividade física está associada com o aumento da produção de calor induzida pela contração muscular. Durante a contração muscular, uma parte da energia (70%) é dissipada em forma de calor e a outra parte (30%) é usada para a contração muscular. Isso significa que quanto mais intenso o exercício (maior a atividade muscular), maior a temperatura corporal atingida, e conseqüentemente o corpo tem de trabalhar mais para não elevar a temperatura corporal. O rendimento físico em provas de longa duração é grandemente reduzido pela hipertermia *.

Por que temperatura no cérebro aumenta?

Dando um enfoque ao aumento da temperatura no cérebro, isso pode ser parcialmente explicado pelo fato de que a hipertermia reduz a ativação dos neurônios motores durante a contração muscular **. A resposta termodinâmica cerebral durante o exercício nunca foi investigada diretamente e não está bem estabelecida a extensão do aumento da temperatura cerebral quando nos exercitamos no calor.

Em repouso a temperatura média cerebral permanece estável em torno de 37° C. A fadiga é um fenômeno complexo e a temperatura corporal durante a exaustão pode ser influenciada por vários fatores como o estado de treinamento, intensidade do exercício e motivação do indivíduo. Por exemplo, diferenças na motivação entre competidores esportivos associado à personalidade do atleta e estado do treinamento poderiam explicar porque indivíduos sedentários ou não treinados quando realizam atividade física durante condições de calor excessivo ficam exaustos com temperaturas variando entre 38 e 39 ° C ***, enquanto indivíduos treinados podem suportar temperaturas elevadas durantes atividades competitivas ****.

Normalmente, o cérebro pode antecipar as alterações da temperatura corporal e ajustar a intensidade do exercício de acordo com a necessidade. Essa é uma ação subconsciente e explica porque a diminuição do ritmo é quase automática no calor, mesmo antes de sinais de cansaço muscular aparecerem. Se um atleta tenta aumentar a intensidade do esforço além do que o cérebro deseja, o sistema nervoso central responderá com sensação brutal de exaustão.

Concluindo, o exercício realizado no calor afeta não somente os vários sistemas do nosso corpo como o sistema cardiovascular, músculoesquelético, etc., mas também o sistema nervoso central. A elevação da temperatura cerebral parece ser um fator importante que compromete a ativação motora. Baseado na discussão acima, parece lógico sugerir que a fadiga central é também um fator importantíssimo na redução do rendimento motor em condições de altas temperaturas.

Os mecanismos da fadiga central são complexos e podem ser abordados em tópicos futuros. Vale a pena ressaltar que tomando os cuidados necessários, a prática da atividade física deve ser continuada no calor se realizada adequadamente.

* Gonzalez-Alonso et al. (1999). Influence of body temperature on the development of fatigue during prolonged exercise in the heat. J. Appl. Physiol., 86: 1032–1039.

** Nybo, L. and Nielsen, B. (2001). Hyperthermia and central fatigue during prolonged exercise in humans. J. Appl. Physiol., 91: 1055–1060.

*** Sawka, M.N. and Wenger, C.B. (1988). Physiological responses to acute exercise-heat stress. In: Pandolf K.B., Sawka M.N. and Gonzalez R.R. (Eds.), Human Performance Physiology and Environmental Medicine at Terrestrial Extremes. pp. 97–151.

**** Pugh, L., et al. (2002). Rectal temperatures, weight losses, and sweat rates in marathon running. J. Appl. Physiol., 23: 347–352.




Ricardo Arida

Possui graduação em Educação Física pela Universidade de São Paulo (1980), mestrado em Medicina (Neurologia) pela Universidade Federal de São Paulo (1995), doutorado em Medicina (Neurologia) pela Universidade Federal de São Paulo (1999) e pós-doutorado pela Universidade de Oxford-UK. Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo. Tem experiência nas áreas de Neurociências e Fisiologia do Exercício Mais informações: www.ricardoarida.wordpress.com



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