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Como a cola de sapateiro afeta o cérebro e o organismo?

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Danilo Baltieri

"Meu filho tem 20 anos e atualmente além da maconha, usa cola de sapateiro. Estou desesperada, pois sei o mal que esse tipo droga causa ao organismo Como fazê-lo parar? Que mal a cola causa ao cérebro?"

Resposta: Infelizmente, o problema do uso abusivo de solventes voláteis ou inalantes é universal. No Brasil, o abuso de inalantes, como a cola, é bastante elevado entre os jovens, incluindo tanto estudantes, quanto meninos em situação de rua.

Em um estudo realizado no Brasil em 1997, foi verificado que 13.8% dos estudantes de 1º e 2º graus da rede pública de ensino já tinha feito uso de inalantes. Aerossóis, tintas, vernizes, colas (cola de sapateiro), esmaltes, removedores têm, em sua fórmula, substâncias químicas voláteis como, por exemplo, hidrocarbonetos alifáticos e aromáticos como tolueno, xilol, acetona, etc. que podem ser inalados voluntariamente.

Esse grupo de substâncias (solventes voláteis /inalantes), entre várias outras substâncias depressoras do Sistema Nervoso Central, não possui qualquer uso clínico (exceto o éter etílico e o clorofórmio, os quais já foram largamente utilizados em procedimentos anestésicos).

Apesar de altamente lesivas para o cérebro, essas substâncias são alarmantemente abusadas especialmente por jovens. As principais razões para isso são: baixo custo, fácil acesso e início rápido dos efeitos (desinibição e suave euforia, com sensação de cabeça leve).

O início dos efeitos dessas drogas após a inalação é muito rápido (segundos a minutos), sendo de curta duração. Logo, é comum o usuário realizar aspirações repetidas durante o dia.

O consumo de inalantes pode causar agudamente, como conseqüência física, hiperemia da conjuntiva, diplopia (visão dupla), zumbido no ouvido, irritação das mucosas do nariz e boca, tosse. Náusea, vômito, diarréia, arritmias cardíacas, dores torácicas, dores musculares e articulares ocorrem usualmente.

Como efeitos psíquicos, podemos citar euforia (como efeito inicial), vertigem, tonturas, desinibição psicomotora, sensação de estar flutuando, ilusões, sonolência e, eventualmente, amnésia.

Na intoxicação, podem ocorrer convulsões, depressão respiratória e arritmias cardíacas, conduzindo à perda da consciência e à morte súbita.

Como complicações gerais provocadas pelo consumo crônico, citam-se arritmias cardíacas, hepatite, insuficiência renal, anemia aplástica, deficiências transitórias da função pulmonar, perturbações gastrintestinais, neuropatia periférica, prejuízo de memória, menor destreza manual, cansaço, cefaléia, confusão, incoordenação motora, fraqueza muscular, aumento do tempo de reação a estímulos, paralisia de membros inferiores, lesões irreversíveis do Sistema Nervoso Central, tremor grosseiro de membros superiores, ataxia (prejuízo da função do cerebelo – responsável pelo equilíbrio), apatia e abulia (perda da vontade para realizar tarefas usuais).

Esta droga possui propriedades extremamente lesivas para o cérebro e outros órgão do corpo. É amplamente necessária uma consulta com um especialista em dependências químicas, objetivando detectar o problema e iniciar um procedimento terapêutico adequado e incisivo. Não perca tempo.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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