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Genética não é destino: os transtornos psiquiátricos e seus determinantes

Regina Wielenska 01/01/2016 PSICOLOGIA

por Regina Wielenska

Profissionais de saúde mental são frequentemente indagados sobre a origem das doenças mentais e suas bases genéticas. O que causa o transtorno do pânico? Se meu irmão tem esquizofrenia, eu ou meus filhos corremos o risco de desenvolver essa doença? Pai alcoólatra terá filho alcoólatra?

A ciência atual mostra-se empenhada em conhecer o código genético humano, na esperança de prevenir o advento de doenças, ou de reabilitar indivíduos acometidos por doenças cujo tratamento dependa de manipulações genéticas.

Desde já acho bom deixar claro que as ciências do comportamento progrediram enormemente a partir de meados do século 20. E quanto mais elas evoluem, mais capazes somos de fazer novas perguntas com base no saber já adquirido. Ampliar o conhecimento é projeto sem fim. Desse modo, não podemos ser ingênuos e acreditar que qualquer descoberta científica isolada porá fim a discussões sobre o tema ao qual se refere. Posto isso, declaramos abolida a ditadura das verdades científicas fora de contexto e absolutas.

É curioso o entusiasmo da mídia quando cientistas anunciam algo como a descoberta do gene do comportamento altruísta, da depressão ou da dependência química. Na maioria dos casos, há um hiato entre o que realmente a pesquisa sugere ou comprova e a tradução das descobertas científicas para a linguagem do homem comum, sujeito menos afeito a sutilezas terminológicas, ou questões de metodologia de pesquisa e análise de dados.

Pesquisas de laboratório com animais são muito importantes, e seus resultados inspiram comparações entre o fenômeno animal e seu correlato nos humanos. Por sua vez, pesquisas com dezenas de sujeitos humanos fazem uso de manobras estatísticas para dar sentido aos resultados coletados. A descoberta de uma alteração genética não necessariamente explica todos os casos conhecidos de um certo transtorno psiquiátrico e tampouco dá conta da totalidade do fenômeno.
Então, como ficam as coisas?

Acho que podemos comparar a análise de um comportamento complexo aos determinantes do sucesso ou fracasso de uma empresa. Raramente o sucesso de um empreendimento se deve a um único fator. Vejamos o caso de um restaurante, por exemplo. A qualidade da comida é fundamental. Mas ela depende da qualidade dos ingredientes, da inventividade do chef, da higiene com que é manipulada, da harmonia entre os membros da brigada que atua na cozinha e aqueles que trabalham no salão, atendendo diretamente ao público. Mas isso não basta, precisamos avaliar preços, pois a relação custo-benefício precisa parecer acessível e justa ao comensal que se dispõe a gastar seus reais em troca de uma boa refeição fora de casa. O gerenciamento financeiro é essencial. O proprietário tem capital de giro? Sabe quanto cobrar para cobrir as despesas fixas e obter algum lucro? As leis fiscais, trabalhistas e sanitárias são seguidas? Como divulgar o restaurante e manter sua boa imagem no mercado, buscando aproximar-se dos líderes daquele nicho de mercado e se equiparando a eles? Com certeza, ao analisar alguns dos determinantes do sucesso de um restaurante, deixei de lado outros fatores tão ou mais relevantes. Nenhum fator isolado asseguraria o sucesso de um restaurante ou o conduziria ao fracasso absoluto, certo?

Do mesmo modo, um transtorno mental decorre da combinação de uma série de fatores, cuja soma constitui aquilo que denominamos a multideterminação deste fenômeno. A genética, por exemplo, parece contribuir parcialmente para que um indivíduo apresente um transtorno psiquiátrico. E a palavra genética, no presente contexto, pode significar coisas diferentes. Por exemplo, as pessoas herdam de seus antepassados a maior probabilidade (vejam bem, eu disse probabilidade, e somente isso) de desenvolver um transtorno. Uma segunda possibilidade seria pensar que um indivíduo específico não herdou a predisposição ao transtorno psiquiátrico, mas sofreu mudanças em seu código genético (talvez durante a concepção, gravidez ou outra etapa de seu desenvolvimento dentro ou fora do útero), as quais auferiram a ele maior chance do transtorno se manifestar, pela primeira vez, na família a qual pertence.

Mesmo assim, continuamos a falar em probabilidades, números difíceis de estimar com precisão. Um segundo, e igualmente importante, conjunto de fatores se alia aos aspectos genéticos para construir quem somos. Trata-se da história de vida: tudo que o indivíduo experiencia ou testemunha desde que saiu do ventre materno. Aprendemos por meio da tentativa e erro; também observamos os resultados dos desempenhos dos outros e fazemos igual (ou, quiçá, o oposto); somos verbais e conseguimos formular regras norteadoras de nossas ações. Aprendemos por meio do comportamento verbal e não verbal daqueles nos cercam. O bicho-homem depende de outros humanos para sobreviver. Por tal razão, somos, em boa parte, uma sofisticada construção social, que se entrecruza com a dimensão biológica do ser. Aprendemos a pensar, a falar, a agir, a sentir; o desenvolvimento disso tudo decorre da comunidade que nos acolheu ao nascimento.

Aspectos culturais

A cultura é o terceiro grande pilar, é fonte de influência tanto sobre nossa saúde mental como sobre a ocorrência dos transtornos psiquiátricos. Alguns importantes estressores são períodos de guerra, conflitos raciais, fortes retrocessos econômicos, perseguições políticas e religiosas. A divulgação pela mídia de certos padrões idealizados (como deveriam ser nosso corpo, valores e estilo de vida) não se coaduna com as situações sociais de violência, instabilidade, comunicação em massa, etc.). Refiro-me aos contextos que produzem sentimentos de desamparo, desesperança, inadequação social e medo. Por exemplo, como manter e atingir aquele inalcançável corpo perfeito, ou de que jeito podemos saciar nosso anseio por adquirir cada novidade criada numa sociedade tecnológica?

Somos incitados a fazer sexo, precocemente, a despeito do desejo e o orgasmo múltiplo parece ser quase uma obrigação. Isso sem discutir a questão da exibição de poder e a busca pela popularidade entre grupos e indivíduos, a qualquer preço, via redes sociais. O coletivo interage com o individual de maneira, por vezes, traiçoeira.

Resumindo: biologia (e aqui se insere a genética), história de vida e cultura caminham necessariamente de mãos dadas no processo de construção do eu. Análises parciais acerca de qualquer um dos três aspectos provavelmente caracterizam alguns fios da complexa trama inserida na urdidura do ser. Todo fenômeno comportamental precisa ser analisado à luz de sua multideterminação e precisamos interpretar com cautela e rigor (e uma pitada de esperança) cada descoberta da ciência do comportamento.




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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