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Desarmar o espírito: sim ou não?

Roberto Santos 01/01/2016 COMPORTAMENTO
As duas posições sobre o desarmamento têm seus prós e contras

por Roberto A. Santos

Vou abordar um questionamento muito antigo e duradouro: o "desarmamento do espírito" -- expressão utilizada para se caracterizar uma disposição de não partir atirando diante de qualquer provocação.

O desarmamento, no sentido aqui proposto, tem a ver com esticar o pavio de algumas pessoas, desarmar a bomba interna, tirar o dedo do gatilho das agressões a ferro e fogo. Em outras palavras, significa desvencilhar-se daquela prontidão para se agredir ou se defender dos vizinhos de casa, de mesa no trabalho ou do asfalto urbano.

Poderíamos propor um referendo interno para nós mesmos decidirmos pelo 'Sim', isto é, devemos desarmar nossos espíritos ou pelo 'Não', devemos permanecer armados até os dentes e, com certeza, até a mente e o coração. Qual é seu voto? Será que existe uma única resposta? Vamos ver os dois lados deste plebiscito.

Argumentos para o voto "Não"

Podemos votar 'Não' porque precisamos nos manter alertas às pistas sociais e ao ambiente político que encontramos nas organizações, bem como em reuniões de condomínio, de clube e quaisquer outros agrupamentos humanos. Precisamos nos armar da dose certa dessa atenção, sem descarrilar para a desconfiança que nos faz ver fantasmas onde não existem. A ingenuidade é tão problemática quanto a paranóia.

Outro argumento favorável ao 'Não' é que precisamos manter nossos espíritos armados defendermos nossos direitos, tomando o cuidado para não arrogarmos mais do que nossa quota permite. Defender nosso território até onde começa o do outro é a chave para evitar um conflito de fronteira que pode ser fatal para os dois lados.

A manutenção de nosso porte de "arma de espírito" também se justifica para nos permitir testar os limites, para sermos arrojados e ousados quanto a nossos deveres e responsabilidades. Num mundo em que se copia tão rapidamente qualquer novidade, a disposição contínua de inovar é uma clara vantagem competitiva. No entanto, algumas pessoas se empolgam tanto com essa função de sua "arma" que saem atirando a esmo e acabam ferindo o código de ética da empresa em que trabalha, ou pior a legislação do País.

Argumento para o voto "Sim"

A opção pelo 'Sim' ao desarmamento dos espíritos também tem seus defensores. Um argumento que este grupo utiliza é que o controle do estresse emocional evita acidentes que acontecem quando nos tiram do sério e acabamos atirando primeiro para depois perguntar o que o outro queria. A antiga arma das explosões e ofensas aos inocentes que se postavam em nosso caminho podem ser substituídas pelo uso do bom humor e por outras técnicas de controle emocional, como contar até 100 em alemão, por exemplo.

Outra razão para defendermos o 'sim' ao desarmamento espiritual é que podemos exagerar em nossa avaliação do próprio poder de fogo, quando entramos num conflito e acabarmos tendo que sair pela tangente quando não derrotados de forma contundente. Precisamos ter uma munição de autoavaliações de nossas competências para estarmos cientes de como vamos nos defender das armas ilegais que poderemos enfrentar. Quantas pessoas tombam porque partem para duelos acreditando em seu poderio militar e na Hora H se vêem com inofensivas pistolas d'água?

Podemos votar 'sim' ainda porque queremos dar o primeiro passo na resolução de conflitos inevitáveis que existem nas relações humanas. Queremos propor a discussão de premissas antes de sangrar por posicionamentos inflexíveis que não levam a nenhum lugar. Os eleitores favoráveis a esta opção costumam ser pessoas ajustadas, seguras de si e que acreditam que a maioria das pessoas tem uma boa índole.

As duas posições sobre o desarmamento têm seus prós e contras. Cabe uma revisão consciente do que serve para cada um, considerando sua história de vida, seus valores e metas pessoais. No desarmamento dos espíritos falamos em num código interno de valores para nossas relações com o próximo. Este código será o guia de nossas ações, para que elas não saiam, como tiros, pela culatra de nosso espírito.




Roberto Santos

Profissional de Recursos Humanos, com mais de 40 anos de atuação no mercado, Roberto teve diversas posições como profissional e executivo de RH em multinacionais de grande porte. É sócio-diretor da Ateliê RH, consultoria com mais de 14 anos de atuação no mercado, e distribuidor Hogan no Brasil. Mais informações: www.atelie-rh.com.br



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