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Você consegue identificar suas armadilhas conceituais?

Monica Aiub 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
A forma como nos vemos pode nos prender

por Monica Aiub

Em artigos anteriores, abordei os dois primeiros tópicos da Estrutura de Pensamento em filosofia clínica: Como o mundo parece (clique aqui), O que acha de si mesmo (clique aqui), respectivamente, a forma como vemos o mundo e como vemos a nós mesmos.

Algumas das pessoas que procuram o consultório de filosofia clínica trazem questões relacionadas a uma visão de mundo ou de si mesmas a partir da qual não há saída, não há possibilidade de existência no mundo. Sentem-se presas, fadadas ao fracasso, ao sofrimento, ou à resignação a uma condição deplorável de vida.

Tais visões de mundo, por vezes, representam terríveis prisões, das quais algumas pessoas não conseguem se livrar. Olham o mundo e a si mesmas a partir de uma estrutura que lhes proíbe, impede, prende. Tais prisões são espécies de armadilhas, redes de conceitos nas quais nos prendemos e não conseguimos nos desatar de seus nós.

Você já se encontrou numa situação que parecia não ter saída? Em que quanto mais tentasse sair, mais se enrolasse nela? Já se sentiu completamente em crise, como se não possuísse poros, não houvesse por onde respirar? No caso de ter vivido algo assim, como saiu de tal situação? Como resolveu o problema? Havia alguma saída?

Essas armadilhas foram retratadas por vários filósofos, como, por exemplo, a alegoria da caverna que Platão apresenta no Livro VII de A República. Ele descreve uma alegoria na qual homens aprisionados numa caverna, iluminada pelo fogo, observam sombras da realidade, confundindo-as com a própria realidade. Esses prisioneiros têm a prisão como condição existencial inicial, não conhecem outra realidade exceto as sombras que contemplam. As correntes que lhes atam não permitem sequer que vejam uns aos outros. Um dos prisioneiros, liberto, é levado a perceber que as sombras que via não são a realidade, mas sombras de outros homens que estão trabalhando na caverna, iluminados pelo fogo. Forçado, ainda, a ver a realidade fora da caverna, o prisioneiro tem a vista ofuscada e “percebe-se cego”.

Sua “cegueira” é equivalente à daquele que desconhece outras possibilidades de compreensão da realidade na qual está inserido, daquele que fica preso a uma visão de mundo que lhe limita, impede o olhar e, muitas vezes, com isso, impede a resolução de problemas e perpetua as situações de crise.

Uso adequado da razão possibilita "abrir os olhos"

Para Platão, a forma de “abrir os olhos”, de “sair da caverna”, da “prisão”, encontra-se no conhecimento, no uso adequado da razão. É preciso buscar o conhecimento para encontrar outras possibilidades, outras formas de ver o mundo, diferentes das quais estamos habituados e, com isso, encontrarmos novas possibilidades de organização de nossas vidas e sociedade, tornando-nos, a cada dia, melhores.

Tal conhecimento, proposto por Platão, é oriundo de um máximo de perfeição, uma Forma perfeita, a Ideia, que existe num plano, denominado por ele de “Mundo das Ideias”, e que está impressa em nós, encontra-se em nosso interior. Temos acesso ao conhecimento a partir do diálogo investigativo, questionador. Sozinhos, corremos o risco de nos perdermos em nossas reflexões, confundindo realidade e aparência.

Como o mundo parece, em filosofia clínica, nem sempre corresponde ao que o mundo é. Refere-se, sim, à representação que construímos sobre o mundo, a nossas crenças sobre o que nos cerca. Uma investigação que permita examinar nossas crenças e as consequências delas em nossas vidas poderá auxiliar cada um de nós a encontrar um caminho possível, ainda não trilhado.

Contudo, nem sempre as armadilhas nas quais estamos inseridos permitem que enxerguemos estas possibilidades. É preciso que, por vezes, saiamos delas para que consigamos encontrar formas de resolvermos nossos problemas.

O prisioneiro descrito por Platão, ao conhecer o mundo fora da caverna, ao entrar em contato com a luz, descobre o quanto a realidade é muito mais interessante e possibilitadora que a aparência, que as sombras da caverna. Todavia, retorna à caverna para “libertar seus companheiros de prisão”. Esses não o compreendem. Imagine se alguém chegasse hoje a você e dissesse que o que você considera como realidade não é a realidade, é apenas uma aparência da realidade, um simulacro. Considere também que, em seguida, esse alguém lhe convidasse a acompanhá-lo para conhecer a “verdadeira realidade”. Você daria crédito a esse ser? Iria com ele? Pensaria com ele sobre o que vem a ser realidade ou aparência?

O prisioneiro da alegoria platônica não consegue convencer seus companheiros de prisão, que o consideram perigoso e decidem matá-lo. Platão, com essa alegoria, faz uma crítica à sociedade ateniense de seu tempo, sociedade que condenou Sócrates à morte.

Com a alegoria Platão aponta também para outra forma de cegueira: Tendo acesso ao conhecimento, a pessoa opta por não se envolver nas questões políticas, dedicando sua vida a aguardar a passagem para a “mansão inteligível”, não se envolvendo com questões “repugnantes”, “menores”. Com isso, deixa o poder, a administração das questões públicas nas mãos daqueles que não possuem conhecimento, ou possuem e encontram-se “cegos”, buscando o poder pelo poder, pensando que os benefícios gerados pela injustiça cometida são maiores que os malefícios que tal injustiça trará como resultado da ação injusta.

Se vemos a partir o interior da “caverna”, do interior de nossas armadilhas, de nossas próprias e limitadas visões de mundo, ficamos cegos a outras possibilidades. Se vemos a partir da “luz”, mas seccionamos, de um lado as “sombras” e de outro a “luz”, não conseguimos estabelecer relações entre os conhecimentos adquiridos e nossas necessidades de organização na vida prática. Mas se vemos a partir da luz e conseguimos iluminar as questões do interior da “caverna”, conseguimos mobilidade para interagir com esse interior, transformando-o e tornando a “caverna” habitável, e talvez, até, aprazível.

Luz e trevas

Assim sendo, para Platão, aquele que contempla a “luz” deve retornar às “trevas”, a fim de iluminar os caminhos, de provocar seus “companheiros de prisão” a movimentarem-se no sentido de percorrer o caminho de saída da caverna, assim como a construir uma “caverna” habitável.

O pensamento platônico coloca na metáfora da “luz” o significado do bem, do máximo de perfeição, é ela a própria Ideia.

Na filosofia clínica não buscamos, necessariamente, um máximo de perfeição, pautado em um conceito previamente estabelecido. Buscamos um máximo de perfeição possível àquela pessoa naquele contexto, sempre de acordo com seus modos de ser no mundo.

Por outro lado, a alegoria da caverna é um convite para a reflexão acerca das estruturas existenciais, sociais, políticas, econômicas, axiológicas ou de quaisquer outras naturezas, às quais estamos presos.

Como sair de nossas prisões?

Como encontrar outras visões de mundo?

Como conciliar como o mundo parece com nossas necessidades e possibilidades?

Às vezes, não é a visão que temos do mundo que nos prende, mas como vemos a nós mesmos. O que acha de si mesmo também não corresponde, necessariamente, àquilo que a pessoa é. E se houver uma armadilha acerca do que achamos de nós? E se essa visão nos impedir, nos limitar de modo tal que não consigamos lidar com nossas questões?

O que um filósofo clínico faz numa situação dessas? Depende. Se for o caso de uma armadilha que impeça, que prejudique a pessoa; se a leitura da questão em seu contexto, e dos dados da historicidade da pessoa, indicar a necessidade de um novo olhar, de uma “libertação” de tal “prisão”, a pessoa será provocada a isso. Se for o caso de tais dados indicarem uma necessidade da pessoa em manter-se em sua armadilha, serão considerados caminhos alternativos, que a mantenham e, ao mesmo tempo permitam à pessoa a construção de formas de lidar com seus problemas.

O tópico que aborda as nossas armadilhas – sejam elas constituídas por visões de mundo ou de nós mesmos, sejam elas conceituais ou sensoriais, sejam elas individuais ou coletivas – chama-se armadilhas conceituais. Não há nele algo pejorativo. Nem toda armadilha é ruim. Há armadilhas que são o motivo da vida de algumas pessoas, como por exemplo, uma estrutura familiar.

Você consegue identificar suas armadilhas conceituais? De que maneira é possível lidar com elas?

Referências bibliográficas:
PACKTER, L. Armadilhas conceituais. Porto Alegre: Instituto Packter, sd.
PLATÃO. A República (Col. Os Pensadores). São Paulo: Nova Cultural, 2004.




Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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