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Qual é o papel da terapia?

Monica Aiub 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
Filosofia: pensar por si mesmo

por Monica Aiub

Alguns leitores perguntam como é possível conciliar filosofia e terapia, como ocorre com a filosofia clínica (clique aqui e leia).

O principal aspecto levantado pelos leitores diz respeito à possível junção entre a autonomia de pensamento, necessária à postura filosófica, e a condução de um processo terapêutico, considerado pelos leitores como “ser conduzido pelo outro”.

É possível manter a autonomia e ser conduzido pelo outro? Se é o partilhante (paciente) quem conduz o processo clínico, para que precisa do terapeuta?

O que faz com que uma pessoa busque terapia?

Poderíamos responder a pergunta de diferentes maneiras, pois são muitos e diferentes os motivos pelos quais recorremos a um apoio terapêutico.

No consultório de filosofia clínica é possível encontrar uma grande diversidade no que se refere ao Assunto Imediato (queixa inicial, o que faz com que a pessoa procure o consultório). Alguns vêm em busca de alívio para seu sofrimento; outros desejam pensar junto com alguém sobre uma questão em especial; há quem necessite avaliar suas escolhas e formas de vida até o momento presente; outros se deparam com choques advindos da não satisfação de seus desejos ou crenças; há até aqueles que procuram por curiosidade, para saber como é passar pelo processo terapêutico. Isso sem contar os que buscam autoconhecimento, equilíbrio emocional, realização pessoal, e muitos outros elementos.

Entre essas e outras questões, alguns se descrevem como incapazes de lidar, sozinhos, com a vida, ou com as adversidades que, circunstancialmente, enfrentam: “Eu sempre fui assim, incapaz de ter atitudes, de decidir, de me movimentar sozinho”; “Até aqui, sempre lidei bem com minhas dificuldades, mas diante desse novo quadro, já não sei mais o que fazer, não sei mais quem sou” – são alguns exemplos de tais descrições.

Você já se sentiu assim? Já teve dificuldade para conduzir sua própria vida durante um período? Conseguiu resolver isso? De que maneira?

Algumas pessoas resolvem isso encontrando apoio em outras, gerando uma espécie de dependência, na qual o outro resolve por ela, faz por ela, vive por ela, sente por ela... Para algumas pessoas é um bom caminho. Vivem conduzidas por outro que dirige sua vida. Kant, no texto “Resposta à pergunta: Que é esclarecimento?”, questiona o que faz com que uma pessoa, podendo conduzir sua própria vida – o que ele nomeia como maturidade –, opte por ser conduzida por outra – o que ele denomina permanecer na menoridade. Os motivos principais que ele aponta são a preguiça e a covardia.

É mais fácil receber a receita pronta e segui-la, dá menos trabalho decidir, pensar; o outro pode fazer isso por nós e, às vezes, até pagamos para que faça. Quantas vezes você já contratou alguém para lhe indicar qual o melhor caminho para resolver um problema da sua vida? Esse seria o motivo pelo qual alguém procura um terapeuta? Buscamos terapia para que alguém resolva nossos problemas? Para que um profissional nos diga o que devemos fazer? Parece haver um equívoco sobre a função de uma terapia para aquele que pensa de tal maneira, pois um profissional que ajuda ao outro, seja ele de qualquer área ou linha, não tem o poder de resolver os problemas por nós, embora possa nos auxiliar, e muito, no que se refere à compreensão de nossos processos.

Ainda no mesmo artigo, Kant aponta para a covardia como um motivo pelo qual alguém opta por ser conduzido por outro. Ele descreve uma espécie de medo, de falta de coragem para assumirmos nossos posicionamentos, principalmente se nosso modo de pensar for muito diferente do que pensa a maioria das pessoas. O que você costuma fazer quando sua opinião diverge do que a maioria das pessoas a sua volta pensa? E quando seus sentimentos não são condizentes com “aquilo que todos dizem que você deveria sentir”?

Muitas pessoas questionam sua sanidade mental quando se deparam com situação como essa. O pensar diferente da maioria das pessoas pode ser lido como loucura. Em casos assim, é comum que a pessoa busque a terapia para avaliar, com um profissional, se suas ideias têm fundamento ou são “maluquices”. Obviamente, se avaliarmos uma ideia isoladamente, pouco poderemos concluir a respeito dela. Contudo, se contextualizarmos a ideia a partir de sua gênese, de sua construção, é possível avaliar sua relevância dentro de seu contexto de origem.

Porém, ainda que uma ideia muito diferente do pensamento comum à maior parte das pessoas tenha fundamento, seu autor poderá ter dificuldade em defendê-la pelo simples fato de ser algo diferente do comum. Você já tentou, ainda que estivesse com razão e com todos os argumentos bem elaborados acerca de um pensamento, apresentá-lo a um público que não está habituado a pensar como você sobre o assunto em questão? Já ocorreu de, ao tentar apresentar suas ideias, perceber que não está sendo compreendido? Nesse caso, haveria alguma linguagem mais apropriada para apresentar seu pensamento de modo que os outros pudessem compreendê-lo?

Num caso como esse, não adiantaria a pessoa procurar o terapeuta para se certificar de que seus pensamentos possuem fundamento, pois quais seriam os critérios de análise do profissional para avaliar a pertinência das ideias apresentadas? Suas próprias ideias? O que a maior parte das pessoas defende? O que sua área de atuação defende? A lógica subjacente de seu pensar?

Coloco tais questões para que o leitor avalie o papel de uma terapia. Não se trata de dizer à pessoa o que ela deva fazer, pensar por ela, conduzir sua vida. Muito menos de avaliar se ela é ou não normal, pois tal avaliação sempre seria feita a partir de um padrão previamente estabelecido (clique aqui e leia). Vamos especificar de que se trata, especificamente, em filosofia clínica.

Filosofia: pensar por si mesmo

A filosofia, desde suas origens, pode ser caracterizada como autonomia de pensamento, como o pensar por si mesmo. Isso não significa isolamento, recusa ao diálogo, ao contrário, é o que permite um diálogo, no qual cada participante apresenta seu processo de pensamento e pense junto com o outro sobre uma determinada questão. Ao mesmo tempo em que provoca o outro a observar como construiu seu pensamento, a percorrer novamente todo seu processo de construção de conhecimento, o interlocutor também é provocado a fazer o mesmo.

Para filosofar é preciso abertura

Daí a afirmação que para filosofar é necessária a abertura. O que é a abertura? Uma disposição para o exercício de pensar, de desconfiar de suas próprias ideias, de provocar e ser provocado a uma construção partilhada do pensar, que pode resultar tanto na reafirmação de suas ideias, quanto na necessidade de abandoná-las, por descobrir que não têm fundamento.

Por colocar-se dessa maneira, a filosofia exige que se mantenha no “não saber”, ou seja, que se permita sempre o questionar, o desconfiar, o investigar, o dialogar. Assim se constroem os conceitos, assim se constituem as formas de existência, assim se atribuem os significados do viver. Sabendo, contudo, que os conceitos, formas e significados são estabelecidos, mas permanecem em aberto, podendo ser modificados de acordo com as necessidades e movimentos da vida.

Tendo a filosofia tais características, quando alguém procura a filosofia clínica como terapia, não encontra alguém que lhe dirá o que fazer, mas alguém com quem dialogar sobre sua forma de pensar, sentir e viver o problema em questão. Esse alguém, o filósofo clínico, tem como procedimento inicial contextualizar a gênese do problema, não apenas em seu contexto de surgimento, mas na historicidade da pessoa. Ele coletará dados sobre os chamados Exames Categoriais (exames iniciais que indicam o universo existencial da pessoa), a fim de saber o que faz sentido a ela, conhecerá sua linguagem, investigará os significados das ideias apresentadas, assim como as possíveis lógicas utilizadas para compor seu pensar.

Durante a pesquisa, enquanto a pessoa relata sua historicidade, o filósofo clínico procura interferir minimamente, a fim de permitir que a pessoa siga o curso de seu pensamento, pois se assim não fizesse, seria impossível compreender seu processo e formular questões para que a pessoa possa refletir sobre o mesmo.

Mas ele fica calado o tempo inteiro? Não há reciprocidade? É uma via de mão única? Pergunta o leitor.

Não. Ele não ficará calado o tempo inteiro. Será estabelecido o diálogo, mas antes disso, é preciso que ele ouça, compreenda qual é a questão colocada, quem é a pessoa que está diante dele, qual a perspectiva a partir da qual ela observa sua problemática, em que universo ela se insere e com quais elementos necessita lidar, entre outros e muitos dados.

Há reciprocidade, partilha, mas não das opiniões do filósofo clínico, porque elas poderiam não ser adequadas, não dizer respeito às necessidades da pessoa, e uma terapia não é um bate-papo sem objetivos, muito menos uma disputa de opiniões. A reciprocidade ocorre na medida em que o filósofo clínico compreende o processo de construção do modo de ser do partilhante e o provoca a pensar sobre seu próprio processo. Em outras palavras, a reciprocidade ocorre na medida em que o filósofo clínico convida o partilhante ao exercício do filosofar acerca de suas próprias questões.

Assim, não se trata de uma via de mão única, mas do estabelecimento do pensar junto com o outro, do investigar os fundamentos das ideias, de compreender a gênese dos problemas, do construir um saber que auxilie a pessoa a lidar com suas questões da maneira mais condizente com suas formas de existência.

É importante lembrar que o saber assim construído também se mantém provisório, também permanece em aberto, podendo ser movimentado. Além disso, o filósofo clínico poderá auxiliar o partilhante a elaborar seus jogos de linguagem (conforme propõe Wittgenstein em Investigações Filosóficas) a partir dos contextos e relações que ele vive, cria e estabelece, permitindo a ele partilhar suas ideias e processos com as pessoas com as quais estabelece relações. Contudo, isso não se dá a partir de “ensinamentos” do filósofo clínico, mas da pesquisa que ambos partilharão sobre as formas mais adequadas para expressar seus modos de vida. Pelos motivos expostos, a filosofia clínica é uma terapia compatível com a autonomia do pensar.

Você já exercitou o filosofar sobre suas próprias questões?

Referências Bibliográficas:
AIUB, Monica. Para entender filosofia clínica: o apaixonante exercício do filosofar. 2ed. Rio de Janeiro: WAK, 2008.
KANT, Immanuel. Textos seletos. Petrópolis: Vozes, 2005.
WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações filosóficas. Petrópolis: Vozes, 2005.




Monica Aiub

Monica Aiub. Doutora em Filosofia (PUC-SP). É responsável o Espaço Monica Aiub: Filosofia, Arte e Cultura, atuando com orientação filosófica e cursos. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.monicaaiub.com.br



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