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Remédios para evitar consumo de álcool têm efeitos colaterais?

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
É preciso evitar o consumo de álcool se estiver usando essas medicações

por Danilo Baltieri

Resposta: Os recursos farmacológicos para diminuir a fissura pelo álcool entre pacientes dependentes dessa substância são importantes ferramentas médicas para o controle desse grave problema de saúde pública em vários locais do mundo.

Atualmente, existem três medicações comprovadamente eficazes e aprovadas pelo FDA (Food and Drug Administration) para o tratamento da Síndrome de Dependência de Álcool: Naltrexone, Acamprosato e Dissulfiram. Existem outras medicações também eficazes no tratamento dessa doença, mas ainda sem a aprovação oficial desse órgão americano para a utilização nessa condição, como o Topiramato.

Outras medicações vêm sendo investigadas, como o Baclofeno e a Ondansetrona para o manejo clínico de dependentes de álcool.

É sempre bom frisar que os recursos farmacológicos devem sempre ser adjuntos ao tratamento psicoterápico ou comportamental específico para o manejo dessa doença.

Todas as medicações têm seus efeitos colaterais. No entanto, o rigoroso acompanhamento médico associado com a presença de especialistas no assunto, reduz imensamente a incidência desses efeitos colaterais, já que o manejo clínico será adequadamente individualizado e baseado sempre em evidências clínicas e científicas.

Principais efeitos colaterais associados com as medicações aprovadas:

Naltrexone (Revia): principal efeito colateral é a náusea

O principal efeito adverso da naltrexona é a náusea, que geralmente coincide com os níveis plasmáticos atingidos num período de até 90 minutos depois da ingestão do medicamento. A hepatotoxicidade (toxicidade ao fígado), baseada no aumento das transaminases hepáticas (3 a 19 vezes os valores normais), foi observada nos pacientes tratados com doses elevadas de naltrexona (acima de 300 mg por dia). As transaminases são enzimas do fígado. Nas dosagens abaixo de 200 mg/dia não foi encontrado aumento das enzimas hepáticas. Entretanto, a monitorização mensal dos valores da bilirrubina total e suas frações e das transaminases séricas nos três primeiros meses, e depois a cada três meses, é importante. Monitorizações mais frequentes devem ser indicadas quando as transaminases estiverem elevadas. A naltrexona deve ser suspensa se as elevações das transaminases persistirem, salvo se forem brandas e atribuídas ao consumo de álcool.

Acamprosato (Campral): pode causar náusea, diarreias, vômito, dor de cabeça, confusão mental, sonolência, diminuição da líbido

Essa medicação tem sido bem tolerada. Porém, náusea, diarreias e vômitos são relatados por alguns pacientes. Em geral, os efeitos adversos mais registrados são cefaléia e sintomas gastrointestinais (dor abdominal, náuseas e vômitos). Efeitos dermatológicos (prurido, rash máculo-papular e reações bolhosas) são mais raros. Enjoos, confusão mental, sonolência e alteração de libido também foram relatados em alguns estudos. Monitorização de hipercalcemia (aumento dos níveis plasmáticos de cálcio) é recomendada em pacientes com "intoxicação" acidental ou suicida por essa droga.

Dissulfiram (AntiEtanol): é raro, mas pode causar hepatite após dois meses de uso. Outros sintomas são inflamação do nervo óptico; dermatite, fadiga e disfunção erétil

Trata-se de uma medicação com boa tolerabilidade. A hepatite medicamentosa é um efeito adverso raro que pode ocorrer, principalmente, após dois meses de tratamento com essa medicação. A detecção precoce dessa condição clínica pode ser realizada através das provas de função hepática, inclusive as suas formas leves. Recomenda-se monitorizar a função do fígado a cada três meses na fase de manutenção. No primeiro mês de tratamento, esses exames laboratoriais podem ser realizados a cada duas semanas. Embora raros, outros efeitos colaterais têm sido descritos como: neurite óptica (inflamação do nervo óptico), dermatite medicamentosa, fadiga e disfunção erétil.

É essencial que os pacientes saibam que não podem, sob quaisquer pretextos ou motivos, ingerir bebidas alcoólicas durante o tratamento com essa medicação, já que reações bastante adversas podem ocorrer, tais como: mal-estar geral, vermelhidão, taquicardia, sudorese, sensação de morte iminente.

Em casos graves, se o paciente ingerir álcool na vigência do uso dessa medicação, quadros de depressão respiratória, convulsões e morte podem infelizmente ocorrer.

Desta feita, o paciente e seus familiares devem compreender exatamente todas as implicações desse tratamento e assinar termo que contenha todas as explicações concernentes ao uso dessa medicação, demonstrando pleno entendimento dos objetivos do tratamento bem como dos efeitos adversos relacionados inerentemente com a medicação e também com aquelas situações onde o paciente não adere às recomendações médicas e ingere bebidas alcoólicas.

Logo, o paciente e seus familiares deverão:

a) Avaliar os objetivos do tratamento médico;

b) Entender os objetivos desse tratamento;

c) Avaliar os efeitos positivos inerentes ao uso da medicação;

d) Entender os efeitos negativos resultantes do uso inadequado da medicação.

Outrossim, os pacientes que forem receber essa medicação devem ser advertidos que mesmo a menor ingestão de álcool pode levar a sintomas desagradáveis. Logo, quaisquer preparações contendo álcool, como tônicos, xaropes, loções devem ser proibidas. Existem relatos de reações adversas entre pacientes que estavam fazendo uso dessa medicação e usaram loções pós-barba e perfumes.

Também, é importante notar que os pacientes devem estar abstinentes de álcool pelo menos em cerca de 12 horas antes do início da tomada da medicação. Além disso, quando os pacientes cessarem o uso dessa medicação, as reações desagradáveis podem ocorrer em até duas semanas, caso os pacientes venham a consumir bebidas alcoólicas.

Apesar disso, o uso desta medicação é bastante seguro, se o paciente não ingerir álcool ou quaisquer outras substâncias que contenham álcool na vigência do uso do Dissulfiram e se o paciente estiver sob adequado e rigoroso acompanhamento médico.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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