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Lazer ativo é mais gratificante do que o passivo

Renato Miranda 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Até para o ócio precisamos nos preparar

por Renato Miranda

Muitos dizem que atletas profissionais (principalmente de futebol) são felizardos, porque essa atividade se traduz em momentos de lazer, já que a prática de esporte é uma das fontes de lazer no mundo.

Mas por um lado podemos dizer que não é bem assim, já que atletas precisam se dedicar constantemente a duras jornadas de treinamento, viagens, concentrações longe da família, competições e as demais tensões que envolvem qualquer tipo de profissional, como por exemplo, tensões do dia a dia, ansiedade em buscar um lugar de destaque e assim por diante.

Por outro lado, não podemos desconsiderar que o esporte é uma fonte de possibilidade de diversão e alegria e muitos atletas que incorporam essa ideia acabam por terem um melhor desempenho.

Portanto, a ambiguidade entre trabalho e lazer está presente e por extensão não somente no esporte, mas em várias profissões, tanto no que diz respeito às ações laborais como na utilização do tempo livre para pretensamente recuperar as forças e energia psíquica.

Em poucas palavras: tanto o trabalho como o lazer podem ser fontes de desenvolvimento pessoal ou de apatia.

O pensar sobre lazer e trabalho e suas ambiguidades são temas animadores para se refletir a partir dos conceitos do psicólogo MIHALY CSIKSZENTMIHALYI. Com sua vasta experiência em psicologia e autor da Teoria do FLOW-FEELING (ou simplesmente FLUXO), ele nos dá boas dicas para compreender a função positiva ou negativa do lazer.

Em um primeiro cenário podemos considerar que o trabalho ocupa 1/3 de nossas vidas e é durante esse tempo de trabalho que temos nossos momentos mais intensos e satisfatórios. No entanto, paradoxalmente, em grande parte de nossas vidas a maioria das pessoas fica feliz em evitar o trabalho.

Do mesmo modo, podemos considerar que o trabalho é um dos elementos mais importantes de nossas vidas, mas enquanto trabalhamos, preferimos fazer outra atividade.

Assim sendo projeta-se o lazer (tempo livre!) como uma das metas mais desejáveis que nós podemos aspirar, no entanto, uma das preocupações que surge é se nós usufruímos do tempo livre de forma sensata.

Isso quer dizer, segundo a ideia de MIHLAHY, que não basta termos tempo livre para relaxar e usufruirmos do lazer. O lazer à disposição não que dizer melhora da qualidade de vida. Além do mais, o lazer não é algo que a pessoa aprenda a fazer automaticamente. É fundamental que a pessoa saiba utilizar o lazer de modo eficaz. Só assim ela poderá ter no lazer um instrumento de melhoria da qualidade de vida.

Isto significa que é preciso se preparar para o ócio, ou seja, definir metas, lidar com um desafio (desenvolvimento de alguma habilidade como aprender a tocar um instrumento, praticar algum esporte, desenvolver um hobby e outras atividades que exijam algum nível de habilidade e concentração), descobrir algo novo e interação com outras pessoas.

Em oposição utilizar o tempo livre sem nada para fazer, a não ser relaxar como, por exemplo, assistir televisão e "navegar" pela internet por um longo tempo e outras atividades passivas podem gerar relaxamento em curto prazo, mas geram um sentimento de tédio e entropia psíquica (desgaste mental por apatia e desatenção).

Atividades voltadas ao lazer em que há um conjunto de exigências externas, que focalizam a atenção e exigem habilidades, promovem naturalmente regras e metas claras e feedback imediato (por exemplo esportes e hobbies artísticos) são grandes possibilidades de FLUXO (concentração intensa e percepção aguçada em detalhes, alegria espontânea, motivação, habilidades desenvolvidas).

Portanto, o lazer ativo é muito mais gratificante e alcança os objetivos de recuperação psicofísica e desenvolvimento geral do que o lazer passivo, como ouvir música, beber ou assistir televisão por longos períodos.

Quando MIHALY e sua equipe de pesquisadores perguntaram para um grupo de jovens americanos sobre esse tema, eles chegaram à conclusão que os adolescentes admitem que andar de bicicleta, jogar basquete ou tocar piano são mais agradáveis do que perambular pelo shopping ou assistir televisão.

Todavia é oportuno avaliar que o lazer passivo produz menos ansiedade e induz ao relaxamento mais facilmente em relação ao lazer ativo que exige mais habilidades, atenção e energia disponível para apreciar atividades mais complexas e naturalmente FLUIR.

Há, portanto, uma boa discussão sobre lazer passivo e ativo, voltarei ao tema.




Renato Miranda

Professor da Faculdade de Educação Física da UFJF; Mestre e doutor em Psicologia do Esporte (UGF); Especialista em didática e psicologia do esporte na Alemanha (Escola Superior de Esporte Alemã - Colônia) e Rússia (Instituto de Cultura Física de Moscou); Consultor de atletas em psicofisiologia (concentração, estresse. motivação e flow-feeling).



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