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Por que muitos abandonam tratamento de crack e cocaína no primeiro mês?

Danilo Baltieri 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Dependentes de cocaína e crack precisam ser adequadamente avaliados

por Danilo Baltieri

"Conheço muitas pessoas que são viciadas em cocaína e crack e que, quando procuram ajuda, abandonam o tratamento no primeiro mês. O que fazer diante disso?"

Resposta: De fato, um substancial número de dependentes de cocaína deixa o tratamento antes de terminá-lo.

Isso contribui para consequências negativas para a saúde, família, desempenho escolar, social e no trabalho. Enquanto a adesão é geralmente pobre para a maioria dos estudos sobre tratamento para dependência de substâncias em geral, as taxas de retenção ao tratamento entre dependentes de cocaína são menores do que 50%.

Essa alta taxa de descontinuação do tratamento tem feito com que pesquisadores considerem a população de dependentes de cocaína um grande desafio terapêutico.

Dependentes de cocaína experimentam dificuldade para abstinência devido aos problemas cognitivos advindos do uso repetitivo da droga, bem como ao alto nível de estresse e fortes estímulos sociais e ambientais.

Além disso, o desenvolvimento de métodos de tratamento tem sido complicado pela tendência dos dependentes em não completar o tratamento e sua propensão à recaída.

Três fatores relacionados à retenção do tratamento

Há vasta literatura sobre fatores relacionados com a retenção ao tratamento entre dependentes de cocaína.

Alguns autores agrupam esses fatores em três:

(a) fatores sóciodemográficos (tais como idade, gênero, nível educacional, antecedentes familiares);

(b) fatores clínicos (tais como gravidade da dependência, história de tratamentos prévios);

(c) fatores psicológicos (tais como impulsividade, outros transtornos psicológicos coexistentes).

De fato, menor nível de educação formal, idade mais jovem, maior tempo de uso da droga, mais história de prévios tratamentos e maior nível de impulsividade têm todos sido associados com prematura descontinuação do tratamento. Contudo, outros estudos não têm encontrado significância para as variáveis sóciodemográficas, para variáveis relacionadas com a gravidade do consumo de cocaína e impulsividade. Essas inconsistências podem ser devidas à natureza dos estudos então publicados que analisam um grande número de variáveis, sem talvez um raciocínio teórico para a adequada seleção das mesmas.

Também, alguns estudos têm analisado apenas variáveis estáticas (que não mudam com o tratamento) e não incluído as dinâmicas (que podem ser modificadas com o tratamento, tais como a impulsividade, por exemplo). Outrossim, estudos têm evitado agrupar variáveis para desenvolver uma espécie de tipologia.

Dependentes de cocaína constituem uma população heterogênea. A categorização dessa população em grupos mais homogêneos tem recebido pouca atenção de pesquisadores ao redor do mundo, principalmente quando comparamos com dependentes de álcool. Um apropriado sistema de classificação poderia representar um melhor entendimento dos aspectos psicossociais e neurobiológicos dessa população, bem como estar relacionado com uma mais promissora estratégia terapêutica e avaliação prognóstica.

Até o momento, poucas tipologias de dependentes de cocaína têm sido desenvolvidas. As existentes têm sido principalmente baseadas em características de personalidade, idade de início do uso da cocaína e gravidade da dependência. Em relação à última proposta tipológica, dois tipos de dependentes têm sido identificados: tipos A e B. O tipo A mostra menos antecedentes familiares de abuso de drogas, menor nível de impulsividade, idade mais tardia para o primeiro uso de cocaína, e menor gravidade de consumo (em termos de duração e frequência) do que o tipo B. Contudo, não é claro se diferentes tipos de dependentes de cocaína mostram diferentes taxas de retenção a um determinado tipo de tratamento.

Um estudo desenvolvido pelo meu grupo e recentemente publicado no Journal of Addiction Research & Therapy mostra que dependentes de cocaína/crack com maior nível educacional, mais frequente história familiar de problemas com o uso de cocaína, maior nível de impulsividade, mais anos de uso de cocaína, e mais frequentes prévios tratamentos para dependência de cocaína, permaneceram mais tempo em um modelo de tratamento baseado em terapia cognitivo-comportamental de duração de três meses. Esse grupo de pacientes, interessantemente, apresentou níveis maiores de um traço de caráter conhecido como autotranscendência.

A autotranscendência tem sido fortemente correlacionada com o conceito de vulnerabilidade. Assim, indivíduos que se sentem mais vulneráveis, sem controle sobre os seus problemas podem, de alguma forma, desenvolver certas características pessoais. Eventos vitais que trazem à tona o senso de mortalidade, inadequação e vulnerabilidade podem disparar processos internos que renovam o senso de identidade e expandem os limites pessoais.

Os dependentes de cocaína e crack precisam ser adequadamente avaliados no início do tratamento e durante todo o processo terapêutico, objetivando determinar qual o melhor modelo para a abordagem. Um modelo terapêutico que tenha um mesmo programa de abordagem para todos poderá contar com maior taxa de abandono. Entretanto, determinar qual o tipo de paciente se beneficiará de um determinado tipo de tratamento ainda é tarefa bastante árdua e incipiente.

Abaixo, ofereço referência do estudo citado:

Ismael F, Baltieri DA. (2012). Role of two clusters of cocaine-dependent outpatients in treatment retention. J Addic Res Ther; 3: 136 doi:10.4172/2155-6105.1000136.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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