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Existe alguma atividade física que produza efeitos semelhantes aos proporcionados pelo ecstasy?

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Danilo Baltieri

"A sensação de bem-estar provocada pela serotonina advinda da atividade física tem alguma semelhança com os efeitos que o ecstasy provoca no sistema nervoso?"

Resposta: Não é uma tarefa simples comparar os efeitos de uma atividade saudável, como a prática regular e supervisionada de atividades físicas, com o uso de ecstasy, que usualmente produz efeitos altamente deletérios para o usuário.

Embora as atividades físicas e as substâncias psicoativas estimulem uma gama de neurotransmissores em comum, a forma como isso acontece parece ser bastante diferente.

O ecstasy provoca liberação desordenada e algumas vezes catastrófica de substâncias cerebrais, incluindo a serotonina, induzindo efeitos físicos e psicológicos nocivos e algumas vezes fatais. A atividade física regular provoca uma melhora global da saúde do praticante, modulando paulatinamente várias substâncias endógenas e promovendo bem-estar.

Lembro, aqui, que as atividades físicas devem ser adequadamente e regularmente praticadas e, sempre que possível, supervisionadas e prescritas por profissional competente. Também, à medida que um indivíduo começa regularmente a praticar atividades físicas, seu comportamento geral tende a se tornar progressivamente mais regrado e focado em outras atividades saudáveis.

Embora alguns estudos experimentais e observacionais tenham já mostrado que atividades físicas regulares e adequadamente prescritas produzem efeito positivo na prevenção ao abuso de substâncias (como cocaína, álcool e tabaco) e também atuam como importantes adjuvantes no tratamento médico e psicológico do abuso ou da dependência já instalados, existem estudos epidemiológicos que não demonstram uma relação direta entre práticas regulares de atividades físicas e menor prevalência de problemas com o consumo de substâncias.

Esses achados aparentemente controversos retratam, dentre vários aspectos da dependência química, a heterogeneidade da população que padece de problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas. A evidência científica demonstra irrefutavelmente os efeitos positivos da prática de atividades físicas sobre a redução dos sintomas de depressão e ansiedade. Logo, entre aqueles que abusam e/ou são dependentes de substâncias psicoativas e manifestam sintomas de depressão e ansiedade, os efeitos da atividade física serão supostamente maiores. De qualquer forma, a prática regular e prescrita de atividades físicas contribui para a melhora global da qualidade de vida e deve sempre ser estimulada por e para todos nós.

Os estudos sobre o efeito da prática de atividades físicas sobre o consumo de drogas sempre consideram:

a) a heterogeneidade da população que padece de problemas relacionados ao consumo de drogas;

b) as diferentes intensidades das atividades físicas que devem ser aplicadas para cada indivíduo;

c) a influência do ambiente e pares;

d) a adesão dos pacientes a programas mais individualizados de atividades físicas;

e) a conciliação entre a prática de atividades físicas e o treinamento de habilidades sociais, autoimagem e eficácia, bem como habilidades cognitivas.

De fato, muitos fatores apontam para o benefício das atividades físicas como um adjuvante no tratamento das dependências químicas em geral. Mais estudos deverão ser conduzidos para detectar a extensão desse benefício, sempre controlando o efeito das diferentes variáveis que influenciam o prognóstico.

Abaixo, aponto interessante referência sobre o tema

Goodwin RD. Association between physical activity and mental disorders among adults in the United States. Preventive medicine. 2003;36(6):698-703.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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