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Meu filho tem tique nervoso. Como devo agir?

Joel Rennó Jr. 01/01/2016 PSICOLOGIA

por Joel Rennó Jr.

Resposta: O tique comum é muito frequente na infância. Até 20% da população infantil apresenta tiques na fase dos sete, oito ou nove anos. É uma manifestação transitória que tende a desaparecer naturalmente. Entretanto, se o problema persistir por mais de um ano e começar a incomodar, pode-se pensar na possibilidade de a Síndrome de Tourette ter-se instalado. Começa na infância, geralmente por volta dos sete anos de idade e a tendência é que diminua na idade adulta. Na verdade, em um terço dos casos, o transtorno desaparece com o crescimento.

Síndrome de Tourette (ST)

É uma desordem neurológica caracterizada por tiques involuntários, reações rápidas, movimentos repentinos (espasmos) ou vocalizações que ocorrem repetidamente da mesma maneira. A síndrome de Tourette é uma patologia caracterizada também pelo comprometimento psicológico e social dos acometidos, causando impacto na vida dos portadores e familiares. Ela é geralmente associada ainda a uma variedade de problemas comportamentais e emocionais. Por exemplo, pode estar associada ao TOC- Transtorno Obsessivo-Compulsivo.

Devido ao fato de a ST não apresentar um sintoma único, mas um conjunto de sinais e sintomas, a dificuldade no diagnóstico é evidente, quando se compara esta patologia com outras relacionadas e com alguns tiques simples e múltiplos. Dependendo da equipe de saúde que atende o paciente afetado pela ST, o seu diagnóstico pode demorar muito, sendo os sintomas atribuídos comumente a algum transtorno psiquiátrico. Esses diagnósticos demorados e/ou errôneos podem submeter os pacientes a tratamentos desnecessários e dispendiosos, antes de se definir propriamente a patologia e o procedimento correto a ser realizado.

Existem dados que afirmam ocorrer quatro vezes mais nos meninos do que nas meninas. Não se conhece ainda a explicação para estes fenomenos, mas provavelmente, fatores hormonais estejam envolvidos. Esses tiques motores e vocais mudam constantemente de intensidade e não existem duas pessoas no mundo que apresentem os mesmos exatos sintomas.

Um aspecto que merece ênfase ao se tentar explicar ou compreender essa síndrome é que os sintomas ocorrem involuntariamente. Raramente, uma pessoa que sofre desta síndrome consegue controlar um mínimo de seus tiques e jamais por prolongados períodos de tempo. Assim como o ser humano não consegue viver por muito tempo com os olhos abertos, pois seu corpo reage de forma natural, inconsciente, para que seus olhos pisquem, dessa mesma forma se manifestam os sintomas da síndrome de Tourette no indivíduo por ela afetado.

Infelizmente a reação de muitas pessoas desinformadas perante manifestações da ST é aquela de fobia ao diferente. Ainda mais, às vezes, a reação é de repreensão. Isso ocorre especialmente quando a pessoa afetada pela síndrome de Tourette manifesta sintomas de coprolalia.

O que é a coprolalia?

A coprolalia enquandra aqueles indivíduos que, além de outros sintomas de Tourette, se veem obrigados a repetir palavras obscenas e/ou insultos ou fazer comentários geralmente considerados socialmente depreciativos e, portanto, inadequados. Coprolalia pode fazer referência a excrementos genitais ou atos sexuais. Em certos casos, a pessoa com coprolalia consegue repetir as palavras características de sua condição em sua mente. No entanto, essas subvocalizações podem ser extremamente angustiantes. Obviamente, as consequências desse tipo de comportamento geralmente se traduzem em diferentes graus de desvantagens no âmbito social.

Tratamento

1º) A natureza intencional dos tiques permite uma abordagem terapêutica comportamental com o objetivo de reduzir sua frequência através da interrupção da sequência estímulo-resposta. A reversão de hábito tem-se mostrado eficaz para o tratamento dos tiques na ST. Desse modo, um programa terapêutico multidisciplinar deve ser estabelecido, em colaboração com familiares e o paciente, visando ao apoio psicológico e à reintegração social da pessoa.

2º) O uso de medicamentos ou outras técnicas podem trazer tanto benefícios quanto efeitos colaterais e, portanto, a abordagem farmacológica deve ser considerada somente quando os benefícios da intervenção forem superiores aos efeitos adversos. Além disso, fatores psicológicos e sociais podem influenciar na evolução da resposta terapêutica em pacientes com ST .

3º) Até o momento, a ST não tem cura, sendo que o tratamento farmacológico é utilizado para o alívio e controle dos sintomas apresentados. O medicamento é administrado em pequenas doses, com aumentos graduais até que se atinja o máximo de supressão dos sintomas com o mínimo de efeitos colaterais. A posologia dos medicamentos varia para cada paciente, necessitando ser avaliada atentamente pelo médico.

Mais informações: Associação Brasileira de Síndrome de Tourette, Tiques e Transtorno Obsessivo-compulsivo, 2004-ASTOC). Acesse ao site www.astoc.org.br

 




Joel Rennó Jr.

Dr. Joel Rennó Jr. MD, Ph.D. Professor do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto de Psiquiatria da USP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein- São Paulo. Coordenador da Comissão de Estudos e Pesquisa de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). www.psiquiatriadamulher.com.br



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