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Caminhos essenciais à autodisciplina

Renato Miranda 01/01/2016 COMPORTAMENTO

por Renato Miranda

No texto anterior (clique aqui e leia), foi dito sobre a atual preocupação de pais, professores e treinadores com os mais diversos comportamentos indisciplinados de jovens.

Foi proposto o caminho para a colaboração efetiva do profissional do esporte (treinadores, professores e outros) para a construção de um ambiente que favoreça a disciplina. Uma disciplina, que antes de ser encarada como conservadora é na verdade, instrumento para a liberdade e o desenvolvimento pessoal. É disciplina como valor positivo para a vida, e com isso vir a inocular a indisciplina que assusta e impede a formação de um adulto civilizado e sofisticado.

Em consideração a essa preocupação, nossa proposta de inoculação de um ambiente indisciplinado é configurada com base no comportamento do líder profissional, seja esse professor, treinador ou outra função qualquer que segue os pré-requisitos (diretrizes) do conhecimento, autoridade, educação, formalidade e autodisciplina. Depois de escrevermos sobre os dois primeiros, abordaremos os demais.

Educação

É a chave que abre as portas para o respeito mútuo e a valorização da experiência rica em ensinamentos e aprendizagens. O exercício da educação permite que o rigor que todo treinamento exige seja absorvido como uma orientação eficaz. Um treinador, por exemplo, pode criticar um atleta e atingir seu objetivo sem precisar ser grosseiro ou utilizar de ofensas. Por outro lado, o mesmo treinador pode criar um ambiente descontraído sem utilizar a ridicularização como ferramenta para o divertimento.

No esporte se fala muito em fair play (“jogo limpo”, em tradução livre). No entanto, o espírito do “jogo limpo”, começa e se desenvolve desde a tenra idade e é alicerçado através da participação de treinadores e outros profissionais envolvidos com o esporte. Um atleta poderá aprender desde cedo que as exigências do treinamento, a combatividade da competição esportiva combinam perfeitamente com o comportamento educado. Lembro muito bem de um professor russo, especialista em revelação de talentos esportivos que dizia: “O esporte educa a nobreza, o jovem atleta precisa aprender a ser nobre.”.

Pessoas muito competitivas na vida tendem a confundir esse pensar com fragilidade e conservadorismo, mas de fato a educação não impede o vigor, vontade de vencer, a persistência. Muito pelo contrário, é tudo isso e ainda mais, no entanto sobra categoria e eficiência.

Formalidade:

É a extensão do comportamento educado. O esporte e o exercício físico por natureza têm uma característica informal prevalecente no ambiente de suas práticas. Não obstante, se o profissional exacerba seu comportamento informal a consequência é a dificuldade de se estabelecer os limites das ações dos jovens e do próprio profissional. Eu fico incomodado quando pais de atletas reclamam dos professore e treinadores que utilizam um linguajar semelhante aos dos adolescentes e os cumprimentam e tratam como se fossem da mesma idade. E com o tempo, esses mesmos profissionais, conversam com os pais como se tivessem em uma roda de bate-papo entre adolescentes.

Muitos casos, de indisciplina grave e outras ocorrências gravíssimas (como por exemplo, assédio sexual e moral), possivelmente tiveram como primeiro passo a informalidade excessiva. Sempre digo para meus alunos de graduação e pós-graduação: “Não percam tempo, no ambiente esportivo exercitem seus conhecimentos, mantenham a formalidade e a distância.” Os pais irão lhe agradecer e os jovens o terão como um líder respeitado.

Autodisciplina

Esse é o pré-requisito interveniente espontâneo de todos os outros. Sem autodisciplina como exigir disciplina? É óbvio que ter conhecimento, exercer autoridade, ter educação sofisticada e saber ser formal é, sobretudo, usufruir de uma autodisciplina que requer dedicação e sabedoria. Silenciosamente o treinador autodisciplinado ensina a cada dia o caminho do sucesso.

Afinal de contas, é difícil construir um espírito esportivo de alto nível sem autodisciplina. Como ser forte, rápido, almejar “voos mais altos”, sem autodisciplina? Desde a pontualidade do treinador, ao alto poder de concentração, tudo passa pelo exemplo do comportamento disciplinado. Creio que é isso que auxiliará a construção de um ambiente positivo para os jovens. Se assim os treinadores e professores não perseverarem, aí então é bom lembrar

Platão:

“Quando os pais acostumam-se a deixar que as crianças façam tudo que querem;
Quando os filhos não levam mais em conta as palavras deles;
Quando os mestres tremem frente aos seus alunos e preferem adulá-los;
Quando enfim, os jovens desprezam as leis porque não reconhecem mais sobre si autoridade alguma, de nada e de ninguém;
Então, está aí, em toda sua beleza e força, o início da TIRANIA.”

A Tirania – 400 a. c.
A República – livro VIII – Platão – Verso Livre




Renato Miranda

Professor da Faculdade de Educação Física da UFJF; Mestre e doutor em Psicologia do Esporte (UGF); Especialista em didática e psicologia do esporte na Alemanha (Escola Superior de Esporte Alemã - Colônia) e Rússia (Instituto de Cultura Física de Moscou); Consultor de atletas em psicofisiologia (concentração, estresse. motivação e flow-feeling).



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