Religião e desapego aos bens materiais alimentam vaidade

por Flávio Gikovate

No texto anterior (veja aqui), falei sobre o sentimento de profunda humilhação causado por nós, aos nos compararmos com alguém que julgamos ter atributos ou talentos superiores aos nossos. Essa desagradável sensação de se sentir por baixo deriva-se da inveja.

Continua após publicidade

O religioso percebe o ridículo de tudo isso, percebe que a busca de satisfações materiais é crescente – todo mundo tem o seu sonho de consumo! Ele se opõe ao caminho desse processo insaciável; despreza as coisas materiais e se propõe a uma vida austera, “espiritualizada”. Isso também é vaidade, pois ele passa a se sentir superior, mais próximo de Deus.

Ele se considera melhor do que os ridículos materialistas e exibe o seu desprendimento. Isso também chama a atenção e faz surgir a sensação erótica provocada pela vaidade.

Por esse caminho, entre outros, a vaidade penetra no mundo da reflexão moral e nos processos psíquicos que fazemos com o intuito de construirmos nossos valores.

A renúncia aos prazeres materiais também é um tipo de prazer e vicia do mesmo modo. A partir desses pouco exemplos – pouquíssimos! – veja textos anteriores, fica fácil concordarmos com a afirmação do Velho Testamento (Eclesiastes): “Vaidade das vaidades. Tudo é vaidade”.

Continua após publicidade

Entender essa dinâmica da vaidade frente à natureza humana é essencial para a busca de um certo equilíbrio humano, essencial para um aprimoramento e harmonização da sociedade como um todo.

 

É médico psiquiatra formado pela USP em 1966. Foi assistente clínico do Institute of Psychiatry na London University. Em 45 anos de carreira já atendeu mais de oito mil pacientes. É escritor e palestrante. Assim como Erich Fromm, Carl Rogers e Erik Erickson, psicoterapeutas e escritores contemporâneos, dos anos 50 e 60, Gikovate tem tido sucesso em escrever textos sérios em linguagem coloquial. Seus livros já ultrapassam o milhão de exemplares vendidos. RIP.

Continua após publicidade