Samsara e os ciclos da vida

Lembro que uns anos atrás eu estava inconformada com a invasão da China no Tibet. Eu era muito “Free Tibet”. E não entendia como Dalai Lama deixou que isso tudo acontecesse sem reagir…

Hoje, vendo tanto medo, ódio, manipulação, que aterroriza a população de direita e esquerda, compreendo melhor o que ele fez.

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Ele preferiu a paz em vez da guerra. O território físico do Tibet foi invadido, me disseram que tem até McDonald’s. 

Na filosofia budista, o agressor é visto como alguém que atua sob o domínio da ignorância (Avidya) e dos venenos mentais (como a raiva e o apego ao poder). O Dalai Lama buscou manter a compaixão inclusive em relação aos líderes e soldados chineses, reconhecendo que eles também geravam sofrimento para si mesmos através de suas ações destrutivas.

Em retrospecto, o próprio Dalai Lama observou uma virada kármica profunda nesse evento: a perda do território físico permitiu que os mestres tibetanos se espalhassem pelo mundo ocidental compartilhando o ensino do budismo, algo que dificilmente teria ocorrido se o Tibete permanecesse isolado nas montanhas do Himalaia. 

Enfim, o Samsara e a Roda da Fortuna (Arcano X do Tarot) compartilham a mesma mecânica conceitual: a impermanência, o ciclo inevitável de altos e baixos e a busca pela libertação. Mas quando compreendemos profundamente os ciclos da vida, e focamos na evolução da nossa alma, não tememos o novo. Aprendemos com ele, com o outro, com o que a vida tem a nos ensinar.

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Hoje entendo que Dalai Lama levou seu coração para fora do território tibetano, consciente do desapego, da impermanência, e do princípio genuíno da paz. Independente das críticas ao ser humano que está por trás dele, agora entendo esse movimento. E por que não entender então os movimentos democráticos do nosso país?

Aprofundemos em nossa individuação. 

Não importa quem vai ganhar ou quem vai perder, o que importa é qual será a sua atitude diante disso. Os agressivos podem continuar agressivos. Os revoltados podem continuar revoltados. Os narcisistas podem continuar achando que são tão bons por isso querem apoiar A ou B e alimentar seu ego caridoso mascarado de justiceiro. Mas alguns, apenas querem continuar suas vidas dignamente. E independente de quem entra ou quem sai, nosso destino não muda em quatro anos. Nosso destino é construído até os últimos dias da nossa existência de acordo com nossos valores e nosso caráter.

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Psicóloga graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com especialização em Saúde Mental e Qualidade de Vida pela Unifesp-EPM, e Mestrado em Ciências da Saúde pela Unifesp-EPM. Atua na área clínica com a abordagem junguiana, e como pesquisadora colaboradora no Laboratório de Estudos da Personalidade do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP/USP). Mais informações: www.psicoterapiajunguiana.com.br