Separei-me de meu marido, mas continuo codependente. O que faço?

por Danilo Baltieri

"Sou codependente química de meu ex-marido há 16 anos. Separei-me, estava conseguindo melhorar, mas recaí e estou sofrendo com a minha doença outra vez. Quero colocar um ponto final no meu sofrimento, ser livre, sair da depressão e da angústia. Chega, não quero mais, só quero viver."

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Resposta: Tanto os quadros da síndrome de dependência de substâncias psicoativas quanto os quadros de codependência são entidades que provocam importante sofrimento para os portadores e também demandam complexo e prolongado manejo clínico. Também, em um relacionamento, é fundamental que o casal se sinta confortável, um com o outro; se isso não ocorre, o relacionamento sofrerá danos. Quando a esposa se torna codependente do marido dependente químico, o conforto preteritamente e presumivelmente sentido deixa de existir.

É frequente o cônjuge de um portador de dependência química tornar-se muito envolvido com o comportamento do parceiro e acabar aderindo aos mesmos processos mentais desastrosos. Os parceiros não dependentes sentem-se perdidos, às vezes negando o problema, e às vezes sentindo-se desesperados ou mesmo furiosos. Muitas vezes, as estratégias adotadas pelo parceiro não dependente para recuperar seu companheiro são inadequadas e apenas acentuam o problema (por exemplo, comprar bebidas para o dependente tomar em casa e não na rua, tentar experimentar maconha junto com o parceiro dependente para tentar sentir o mesmo "barato" que o parceiro tanto busca, pedir para o parceiro usar cocaína no banheiro somente à noite etc). Outrossim, alguns parceiros não dependentes tomam atitudes que são autodestrutivas, degradantes e que violam o próprio sistema de valores pregresso.

O companheiro não dependente tende a sacrificar sua própria identidade e realidade em favor de uma outra bastante diferente e, por vezes, caótica.

Comportamentos de quem é codependente

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Por exemplo, é comum codependentes em relacionamento amoroso manifestarem os seguintes comportamentos:

a) desrespeitar seus próprios valores;
b) colocar-se em segundo plano;
c) encobrir comportamentos inadequados do parceiro dependente;
d) tentar aparentar calma, quando se está extremamente furioso;
e) evitar conflitos para manter o casamento e as aparências;
f) ser desrespeitado continuamente;
g) permitir que seus próprios valores morais sejam desprezados;
h) acreditar que não existem outras opções;
i) assumir responsabilidades demais;
j) estabelecer e reforçar a crença de que merece o que está acontecendo.

Geralmente, o companheiro não dependente inicia o processo de codependência, estabelecendo um sistema de crenças nocivo. Esse indivíduo não dependente avalia seu próprio comportamento, suas necessidades, sua história e seus relacionamentos pretéritos. A partir de então, desenvolve pensamentos que distorcem a realidade e amparam o comportamento do parceiro dependente. Por exemplo, sempre fui pouco desejável; logo, é melhor permanecer nessa forma atual do que em uma outra. Ou mesmo, minha mãe sempre manteve o relacionamento com meu pai, apesar dos seus problemas com o álcool; logo, tenho a mesma sina.

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A mesma sensação de solidão e desamparo experimentado pelo dependente é vivido pelo parceiro codependente.

Queixas comuns do codependente

Consequentemente, muitos codependentes manifestam:

a) perda de amigos;
b) tristeza e pensamentos de ruína;
c) sonhos não usuais;
d) mudanças de apetite e padrão do sono;
e) falha no desempenho de tarefas usuais;
f) problemas financeiros;
g) comportamentos degradantes ou humilhantes.

Em situações assim, aliás nada incomuns, é recomendável e desejável que tanto o parceiro dependente quanto o companheiro não dependente iniciem um tratamento específico. Caso o parceiro dependente não o deseje, é fundamental que o companheiro não dependente faça seu tratamento. É essencial que pensamentos disfuncionais sejam reconhecidos e comportamentos não saudáveis possam ser modificados.

Infelizmente, muitos codependentes acreditam que conseguem domar a situação sozinhos. No entanto, um ciclo de comportamentos problemáticos e desenfreados pode já estar ocorrendo há algum tempo e o reconhecimento disso, bem como seu manejo, pode ser bastante salutar.

Você merece encontrar seu equilíbrio o mais rápido possível. A codependência também tem sinais e sintomas (como os citados acima) que causam prejuízos significativos para o portador; logo, vale muito a pena a busca por ajuda. Valorize-se.

Professor Livre-Docente pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Professor de Psiquiatria do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC. Pesquisador nas áreas de Dependências Químicas, Transtornos da Sexualidade e Clínica Forense.