Vitimismo como instrumento de manipulação psicológica

O vitimismo caracteriza-se pela tendência persistente de interpretar acontecimentos sob a perspectiva de injustiça pessoal, atribuindo continuamente aos outros a responsabilidade pelos próprios problemas

O vitimismo é um comportamento que pode surgir como resposta legítima ao sofrimento decorrente de eventos traumáticos ou situações de injustiça. Entretanto, em determinados contextos, assumir continuamente a posição de vítima pode deixar de representar apenas uma expressão de dor e transformar-se em uma estratégia de manipulação interpessoal.

Nesses casos, o indivíduo utiliza o sofrimento como mecanismo para despertar culpa, pena e senso de responsabilidade nos outros, evitando responsabilizar-se pelos próprios comportamentos e preservando benefícios emocionais ou relacionais.

Ao analisarmos o vitimismo manipulativo sob a perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), compreendendo os processos cognitivos envolvidos, seus impactos nas relações familiares, afetivas e profissionais e as possibilidades de intervenção psicológica, ampliamos nossa compreensão sobre esse fenômeno e desenvolvemos maior capacidade de reconhecer e evitar esse tipo de manipulação.

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O sofrimento faz parte da experiência humana e merece acolhimento, compreensão e suporte emocional. Contudo, existe uma diferença importante entre uma pessoa que vivencia uma condição de vítima e outra que incorpora permanentemente essa identidade como forma de se relacionar com o mundo.

O que é vitimismo? 

O vitimismo caracteriza-se pela tendência persistente de interpretar acontecimentos sob a perspectiva de injustiça pessoal, atribuindo continuamente aos outros a responsabilidade pelos próprios problemas. Quando associado à manipulação psicológica, esse comportamento passa a funcionar como uma estratégia para influenciar e controlar pessoas por meio da culpa, da pena e do senso de obrigação moral.

Nas relações interpessoais, o vitimismo manipulativo frequentemente dificulta a resolução de conflitos, impede a responsabilização individual e favorece relações de dependência emocional. O indivíduo raramente admite seus erros, minimiza suas contribuições para os conflitos e direciona a atenção exclusivamente ao sofrimento que afirma experimentar.

Sob a ótica da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), esse padrão pode ser compreendido como resultado da interação entre crenças centrais disfuncionais, pensamentos automáticos negativos e comportamentos que dificultam o reconhecimento da própria responsabilidade.

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O que é ser vítima na prática? 

Ser vítima de uma situação não significa necessariamente apresentar comportamento vitimista. A vítima real enfrenta uma circunstância objetiva de dano, abuso ou injustiça.

O vitimismo, por outro lado, refere-se à manutenção recorrente da identidade de vítima, mesmo quando há possibilidades de mudança, de assumir a responsabilização ou resolução do problema.

Nesse padrão psicológico, o sofrimento deixa de ser apenas consequência da realidade e passa a desempenhar funções importantes, como:

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 ● evitar críticas;

 ● escapar das consequências dos próprios atos;

 ● obter atenção constante;

 ● conquistar proteção;

 ● reduzir cobranças;

 ● influenciar decisões alheias, tirando vantagens (que podem ser de proteção, de ganhos financeiros ou vantagens sociais).

Dessa forma, o sofrimento torna-se também um instrumento relacional para manipular pessoas.

Embora nem toda pessoa vitimista seja conscientemente manipuladora, há situações em que o papel de vítima é utilizado como estratégia para controlar o comportamento das pessoas.

A manipulação ocorre porque emoções como culpa, compaixão e pena tendem a diminuir o senso crítico de familiares, parceiros afetivos, amigos e colegas de trabalho.

É comum observar frases como:

“Depois de tudo o que passei, ainda sou tratado dessa maneira.”

“Ninguém entende o quanto eu sofro.”

“Sempre fazem isso comigo.”

“A culpa nunca é minha; as pessoas sempre me prejudicam.”

Essas mensagens frequentemente deslocam o foco da discussão. Em vez de analisar o comportamento que gerou o conflito, a atenção passa a concentrar-se exclusivamente no sofrimento declarado pelo indivíduo.

Como consequência, a responsabilização diminui enquanto aumenta o sentimento de obrigação do outro (que está sendo manipulado) em confortar, proteger ou ceder.

Em muitos casos, familiares passam anos evitando estabelecer limites por receio de parecerem insensíveis diante da aparente fragilidade emocional do indivíduo.

Segundo Aaron Beck (1976), diversos transtornos emocionais estão associados à presença de pensamentos automáticos negativos e distorções cognitivas.

Como é a visão do vitimista em relação à vida

Na pessoa com comportamento vitimista, algumas distorções cognitivas tendem a ocorrer com maior frequência, entre elas:

Personalização: interpretar acontecimentos neutros como ataques pessoais.

Abstração seletiva: focar exclusivamente experiências negativas, ignorando aspectos positivos.

Pensamento dicotômico: perceber pessoas como totalmente boas ou totalmente más.

Leitura mental: presumir intenções negativas sem evidências.

Catastrofização: transformar pequenas dificuldades em grandes tragédias.

Mas essas interpretações reforçam continuamente a percepção de injustiça e alimentam o ciclo do vitimismo.

Albert Ellis: crenças irracionais

 Albert Ellis (1962), criador da Terapia Racional-Emotiva Comportamental, propôs que emoções intensas decorrem principalmente das crenças que as pessoas constroem sobre os acontecimentos.

Entre as crenças frequentemente associadas ao vitimismo destacam-se:

 ● “As pessoas deveriam sempre agir da maneira que considero correta.”

 ● “É insuportável quando sou criticado.”

 ● “Se algo deu errado, alguém (não eu) deve ser culpado.”

 ● “Preciso da aprovação constante das pessoas.”

Essas crenças favorecem a externalização da responsabilidade e dificultam o reconhecimento da própria participação nos conflitos.

Entendendo esses parâmetros, podemos pensar no vitimismo nas relações familiares.

Nas famílias, o vitimismo pode transformar-se em um mecanismo de controle extremamente eficiente

Pais, mães, filhos ou irmãos, cônjuges podem recorrer continuamente ao sofrimento para evitar responsabilidades, manipular decisões ou manter dependência emocional.

Expressões como:

“Depois de tudo o que fiz por você…”

“Você vai me abandonar justamente agora?”

“Você é o único que pode cuidar de mim.”

Essas expressões produzem forte impacto emocional, favorecendo culpa e submissão.

Com o tempo, instala-se uma dinâmica familiar em que os demais membros deixam de agir com autonomia e passam a agir para evitar conflitos emocionais com esse ‘vitimista manipulador’!

Vitimismo nos relacionamentos afetivos

Nos relacionamentos amorosos, o vitimismo pode tornar-se uma forma de abuso emocional.

O parceiro manipula utilizando ‘um dito sofrimento constante’, ameaças indiretas, chantagem emocional e culpabilização.

Sempre que é confrontado sobre comportamentos inadequados, desloca o foco para o próprio sofrimento, justificando suas reações pelo comportamento ou pelas atitudes de outras pessoas.

Assim, evita mudanças e mantém o relacionamento em torno de suas necessidades emocionais gerando no outro culpa e até submissão. Assim, a outra pessoa frequentemente passa a sentir-se permanentemente responsável pelo bem-estar do parceiro, tentando proporcionar conforto ou compensações de vários tipos: presentes, viagens, exclusividade.

Vitimismo no ambiente profissional

Também nas organizações esse padrão pode estar presente. Muitos funcionários vitimistas costumam justificar falhas atribuindo responsabilidade exclusivamente ao ambiente, aos colegas ou aos gestores.

Recebem feedbacks como ataques pessoais e frequentemente apresentam resistência à autocrítica.

Quando colegas assumem repetidamente suas tarefas, seja por pena ou receio de conflitos, o comportamento vitimista acaba sendo reforçado.

O reforço social do vitimismo, sob a perspectiva da Análise do Comportamento, nos diz que comportamentos reforçados tendem a aumentar sua frequência.

Quando o vitimismo produz benefícios — ganho de atenção, proteção, redução de responsabilidades, perdão frequente ou ausência de consequências — existe maior probabilidade de manutenção desse padrão.

Esse processo ocorre inúmeras vezes de forma inconsciente.

Familiares, amigos e parceiros acreditam estar ajudando, mas acabam fortalecendo um comportamento disfuncional ao impedir que o indivíduo desenvolva autonomia e responsabilização.

Terapia Cognitivo-Comportamental: intervenções

A Terapia Cognitivo-Comportamental propõe intervenções voltadas ao reconhecimento dos pensamentos automáticos, à modificação das crenças centrais disfuncionais e ao fortalecimento da responsabilidade pessoal.

Entre as estratégias utilizadas destacam-se:

 ● identificação das distorções cognitivas;

 ● reestruturação cognitiva;

 ● treinamento em resolução de problemas;

 ● desenvolvimento da assertividade;

 ● fortalecimento da autonomia emocional;

 ● incentivo à autorresponsabilidade;

 ● estabelecimento de limites interpessoais saudáveis.

O objetivo terapêutico não é invalidar o sofrimento, mas diferenciar sofrimento legítimo da utilização recorrente da posição de vítima como estratégia de funcionamento interpessoal.

O vitimismo representa um fenômeno complexo que não deve ser compreendido de maneira simplista. 

Muitas pessoas realmente sofreram experiências traumáticas e necessitam de acolhimento psicológico.

A Terapia Cognitivo-Comportamental oferece instrumentos eficazes para compreender esse funcionamento, identificar crenças disfuncionais e promover mudanças cognitivas e comportamentais que favoreçam relações mais saudáveis, baseadas na responsabilidade compartilhada, na assertividade e no respeito mútuo.

Reconhecer a diferença entre acolher o sofrimento e reforçar padrões manipulativos constitui um desafio importante para profissionais de saúde mental, familiares e sociedade. Promover empatia não significa isentar indivíduos da responsabilidade por seus comportamentos, mas ajudá-los a desenvolver recursos emocionais que lhes permitam enfrentar dificuldades de forma mais adaptativa e ética.

Entretanto, quando o discurso de sofrimento passa a ser utilizado para controlar pessoas, evitar responsabilidades e obter vantagens emocionais, ele deixa de ser apenas uma expressão legítima da dor e assume características manipulativas.

Por essa razão, muitos indivíduos que utilizam o vitimismo como estratégia de manipulação resistem a buscar ou dar continuidade ao tratamento psicoterápico, pois isso pode significar abrir mão dos benefícios emocionais e relacionais que aprenderam a obter por meio desse padrão de comportamento. Isso é ético?

Certamente não. Por isso, é importante que profissionais da saúde mental e também aqueles que atuam no acompanhamento de famílias, inclusive no âmbito jurídico, estejam atentos para não se deixarem sensibilizar apenas pelo discurso vitimista, sem uma avaliação cuidadosa do contexto.

Referências:

BECK, Judith S. Terapia Cognitivo-Comportamental: Teoria e Prática. 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2022.

ELLIS, Albert. Reason and Emotion in Psychotherapy. New York: Lyle Stuart, 1962. [27/7 09:09] +55 11 99616-0647: São tantos casos de pessoas que são “abduzidas” e manipuladas por vitimistas que resolvi escrever esse artigo

Psicóloga, Mestre em Educação; Educadora e Terapeuta sexual pela Sbrash, Coordenadora e docente dos cursos de Pós-graduação lato sensu em Educação sexual e em Terapia sexual do ISEXP/ Sbrash. Docente dos cursos de pós-graduação em Educação sexual e Terapia sexual da UNISAL e coordenadora do pós de Terapia Sexual da UNISAL.